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Solidão e carência de mãos dadas


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Ficar longe de casa abre espaços para solidão e também pode abrir portas para novas relações

Glória Medeiros

*Publicação de dezembro de 2022

O processo de mudanças é encarado de formas diferentes pelos indivíduos. Lucas, Outonno e Evellin, estudantes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira, contam como foi seus respectivos processos após chegarem a suas novas rotinas em uma cidade diferente da qual vieram e as dificuldades que encontraram ao lidar com a solidão e carência.

Diversas visões e processos diferentes são encarados ao chegar em uma localidade distinta. Será que se sentiram sozinhos? Será que se adaptaram bem? Será que se relacionam amorosamente com diversas pessoas? A curiosidade bate na porta e ouvir diretamente de quem passou o passa por isso, é extremamente essencial.

No Centro de Artes Humanidade e Letras (CAHL), Lucas Medeiros (33), do curso de Gestão Pública, vindo de Salvador,  Outonno Selva (20), do curso de Cinema e Audiovisual, vindo de Uberaba, Minas Gerais e Evellin Souza, (19) graduanda em Gestão Pública, vinda de Inhambupe, na Bahia. Três rotinas diferentes, três novas vidas que foram remontadas no Recôncavo.

Tristeza, vazio, solidão e ansiedade foram os sentimentos que os estudantes citaram como frequentes na mudança para ingresso na universidade. A chegada a um novo lugar gera sentimentos distintos para cada um. Outonno Selva contou que trilhou por um caminho de temor e receio: “…Essa ansiedade gostosa começou a se transformar em uma espécie de medo, o que me fez hesitar muito e quase desistir, mas a vontade de ir embora, no final das contas, falou mais alto e eu parti”.

A válvula de escape também acontece e o que é apreensão se torna anseio em viver o novo, como é o caso de Lucas Medeiros que disse:  “Era o que eu já tava procurando, então eu me senti em casa. Eu tenho uma raíz muito forte com questões espirituais e eu acho que Cachoeira me escolheu…”

Medo, inquietação, expectativas, para cada um, sensações diferentes. Os três apontam o desassossego de saber como seriam as novas relações, como se adaptaram às novas rotinas e o temor de também de não se adaptar. Para Evelyn, ainda é um grande desafio:

Até o momento não construí muitas amizades, apenas os colegas de turma, nada mais que isso. Se amizade já tá difícil, imagine relações amorosas.”, disse Evellin Souza
A estudante Evellin Souza veio Inhambupe, na Bahia, para fazer o curso de Gestão Pública na UFRB. Foto: Acervo Pessoal

A passagem de conexões é bem diferente. O processo da solidão inicial é ainda mais agravante quando envolve também o sentimento da timidez, o que vai dificultar a quebra de barreiras para se relacionar amorosamente ou em amizades. Porém, para Outonno, por exemplo, foi um decurso mais leve, como ele mesmo disse: “Eu nunca tive muitos problemas de construir novas amizades porque, como certeiramente me definiram ‘eu sou cara de pau’ (risos)”.

Há quem tenha o jogo de cintura e saiba se encaixar muito bem em diferentes grupos. Outonno ainda completa dizendo: “No quesito amoroso, eu tenho conversado bastante sobre isso com a pessoa que divide a casa comigo e assim como eu, também é uma pessoa trans não-binárie. Infelizmente, a gente precisa conviver diariamente dentro de uma sociedade respectivamente pautada na cisgeneridade e completamente binária, o que dificulta muito nossa construção afetiva pela solidão a qual as pessoas trans são impostas enquanto mecanismo de opressão, já que para sociedade nossos corpos são apenas objetos de mercado, de uso, de fetiche e nunca de afeto.”

Outonno Selva.Outonno Selva (20), do curso de Cinema e Audiovisual, veio de Uberaba, Minas Gerais. Acervo: arquivo pessoal

Ao ingressar na universidade e até mesmo no decorrer da graduação estudantes se aventuram nos diversos trotes entre cursos, nos eventos e nas sociais e parte das vezes é uma das melhores formas de conhecer e se relacionar com várias pessoas, frequentemente construindo novos grupos de amizade. É considerado um batismo. Lucas relatou como foi sua experiência no trote:

“… Eu não costumava me relacionar com várias pessoas, que fosse só uma noite, então aqui, pelo menos nesses eventos do CAHL, a taboca racha legal (risos)”, lembrou Lucas Medeiros.

Lucas Medeiros faz graduação em Gestão Pública. Foto: Acervo Pessoal.

A questão sobre solidão e carência andarem lado a lado. Estar sozinho te leva a se envolver em relações rasas? A Evellin falou um pouco também das relações que teve até o momento.

“Todas as relações aqui estão sendo rasas porque não passam da universidade. Por um lado é bom, gosto de ser sozinha, só não gosto de me sentir sozinha. Então, às vezes ter alguém para conversar, além das vídeo chamadas com minha mãe, é muito bom, principalmente pessoalmente. Sinto falta disso”, disse Evellin.

Psicóloga Brenda Vanin atende pacientes na área de psicologia clínica. Foto:Acervo pessoal

A psicóloga Brenda Vanin, formada pela Universidade Estadual de Feira de Santana, deu início a seus trabalhos com psicologia clínica para adolescentes e adultos.

Brenda também participou de eventos sobre a saúde do estudante universitário em 2020 logo no começo da pandemia. A especialista cedeu contribuição a respeito do assunto de carência solidão dos discentes acadêmicos, oferecendo estratégias para driblar ou saber lidar com os diferentes processos no link de áudio abaixo:

               

“Acredito, sim, ter me encontrado em diversos momentos vivendo relações líquidas o que, “a priori”, não me afeta pensando a conjuntura de organização e disponibilidade social subjetiva das pessoas na contemporaneidade, a qual eu me incluo. Então essa dinâmica pautada no “estar com alguém pelo simples tesão de estar” se coloca sim em um local de diversão efêmera”, disse Outonno Selva.

“Estou começando a aceitar e me adaptar a minha nova realidade. Acredito que toda mudança, seja de hábito ou de cidade, é dolorosa, difícil e solitária. Mas, sim, ainda sinto uma imensa saudade de casa”, contou Evellin Souza.

Instagram: @reversoonline

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