Podcast da Mariologia

#128 Podcast da Mariologia - Maria e Palavra, graça e dabar


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A Anunciação: Maria e a Palavra


Tendo precisado, brevemente, o que a Palavra é, agora podemos começar a entender como a pessoa de Maria se relaciona com o evento da Palavra. Todos sabemos que muitos textos do Novo Testamento, embora toquem na questão mariana, são antes de tudo cristológicos. 

O autor que oferece mais informações diretas sobre Maria é Lucas. Em seu relato sobre a Anunciação - Lc 1,26-38 - ele introduz afirmações que dizem respeito direta e exclusivamente a Maria: 

a) a cheia de graça no v. 28;

b) a serva do Senhor do v. 38

c) ou as palavras sobre o Espírito Santo e Maria do v. 35. 


Por esta razão iremos percorrer a perícope de Lc 1,26-38, a narração da Anunciação. Inicialmente esta apresenta a presença do anjo o que remete diretamente à Palavra enquanto a narração se apresenta como uma troca de palavras e silêncios, de propostas e respostas.

O termo que qualifica Maria aqui não é a Palavra, mas a graça, a karis: Maria é apresentada como cheia de graça, kekaritomene como aquela que encontrou graça diante de Deus. Certamente diferentes, os dois termos não são estranhos um ao outro: a graça é uma personificação daquele Deus «misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em graça e fidelidade, que mantém seu favor por mil gerações e se refere à sua natureza como Deus «rico em misericórdia e imenso amor». Até mesmo a Palavra é uma personificação de Deus que designa sua ação e a sua comunicação. 

João irá explicar que a plenitude da graça, da qual todos nós recebemos, se encontra naquele Filho que indicará como o Verbo, como o Verbo que «se fez carne e habitou entre nós». Na prática, hesed e dabar, graça e palavra, são duas personificações teológicas de um só e mesmo Deus. Por isso, o fato de no texto de Lucas a Palavra estar a serviço da graça não nos parece um obstáculo ao nosso tema, mas, de alguma forma, um particular de extrema importância. 

O entrelaçamento dos dois termos tem a vantagem de nos obrigar a voltar rapidamente ao sentido primeiro da graça, aquele que fala mais de Deus do que de Maria, mais daquele que dá a graça do que daquela que a recebe, porque isto é o que qualifica a Virgem Maria, a disponível para receber o dom gratuito e livre do Deus Trinitário. Sem esta precisão de linguagem, e clarificação mariológica a graça pode acabar insensivelmente por indicar o seu oposto, ou seja, o ganho, a quantidade, o benefício da divindade e não o diálogo íntimo do evento que se revela criando na medida em que a Palavra se manifesta.


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