NO DRAMÁTICO CONFRONTO DE NATÃ com o rei Davi (2 Sam. 12), a coragem do profeta se misturou com uma formidável sagacidade. De que outra forma um profeta poderia chamar a atenção de um rei autocrático e denunciar seu pecado na cara, além dessa abordagem oblíqua? Algumas características deste capítulo devem ser refletidas. Primeiro, a diferença fundamental entre Davi e Saul agora é óbvia. Ambos os homens abusaram do poder em altos cargos. O que os torna diferentes é a maneira como eles respondem a uma repreensão. Quando Samuel acusou Saul de pecado, este dissimulou; quando Jônatas questionou a política de Saul, uma lança foi lançada contra ele. Por outro lado, embora Natã aborde seu assunto obliquamente, o pecado logo é exposto: “Você é o homem!” (12:7). No entanto, a resposta de Davi é radicalmente diferente: “Pequei contra o Senhor” (12:13). Esse, certamente, é um dos testes finais da direção da vida de uma pessoa. Somos uma raça de pecadores. Mesmo pessoas boas, pessoas de fé forte, até mesmo alguém como Davi – que é “um homem segundo o coração de Deus” (cf. 1 Samuel 13:14) – pode escorregar e pecar. Nunca há uma desculpa para isso, mas quando acontece, nunca deve nos surpreender. Mas aqueles que levam a sério o conhecimento de Deus, no devido tempo, retornarão com genuína contrição. Conversos espúrios e apóstatas apresentarão uma infinidade de desculpas esfarrapadas, mas não admitirão culpa pessoal, exceto das maneiras mais superficiais. Segundo, somente Deus pode perdoar o pecado. Quando ele faz isso, a punição apropriada do pecado, a própria morte, não é aplicada (12:13). Terceiro, mesmo quando a sanção final do pecado não é aplicada, pode haver outras consequências que não podem ser evitadas neste mundo caído e quebrado. Davi agora enfrenta três deles: (1) que a criança que Bate-Seba está carregando morrerá; (2) que ao longo de sua vida haverá escaramuças e guerras enquanto ele estabelece seu reino; (3) que em algum momento de sua vida ele verá como é ser traído: alguém de sua própria casa tomará temporariamente o trono, exemplificado por dormir com o harém real (12:12-13). Cada um é picante. A primeira está ligada ao próprio adultério; a segunda talvez seja uma dica de que a razão pela qual Davi foi tentado em primeiro lugar foi porque ele não tinha ido à guerra junto com Joabe, mas tinha ficado em casa (11:1), claramente ansiando pela paz; e o terceiro trata Davi com a traição que ele mesmo praticou. Quarto, a resposta de Davi ao mais premente dos julgamentos é totalmente salutar. Deus não é o equivalente do Destino impessoal. Ele é uma pessoa, e uma pessoa pode ser solicitada e perseguida. Apesar de seu enorme fracasso, Davi ainda é um homem que conhece a Deus melhor do que seus numerosos críticos.
D. A. Carson, Por amor de Deus: um companheiro diário para descobrir as riquezas da Palavra de Deus., vol. 1 (Wheaton, IL: Crossway Books, 1998), 285.
Voz: Pr. Paulo Castelan.
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