PODCAST MUTANTE

38 - Nordeste Psicodélico Disco Molhado de Suor


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Como é bom e difícil escrever sobre a música brasileira. É sempre um desafio. Quantos elementos buscar e interpretar?

Como retomar um movimento sem se tornar simplista? É quase impossível. Por isso vemos tantos livros, teses e grandes reportagens sendo produzidas sobre a música brasileira e suas vertentes, seus momentos…

Nesta edição tentaremos voltar aos anos 70, e explorar um pouco sobre o que acontecia em nosso Nordeste, o berço das mais férteis mentes. A fonte de inspiração, regionalidade, experimentalismos e pirações. O Brasil, como um todo, consumia muita música estrangeira, principalmente o rock que se fortalecia nos anos 60 e 70. Pelas dificuldades da época, essas referências chegavam por aqui com alguns anos de atraso, ou eram assimiladas depois de algum tempo… Pois tudo é um processo.

Mas não aconteciam cópias, a música consumida era completamente diferente da música produzida. Pois cada um dos estados e seus representantes

compreendiam, absorviam e aplicavam o conteúdo externo de uma forma diferente. O rock produzido em São Paulo era diferente do que rolava no Rio de Janeiro, e bebiam na mesma fonte do forró psicodélico de Pernambuco, que até hoje nos causa nós na mente tentando encontrar gênero para as músicas produzidas. Por isso a importância de não sermos simplistas, e levar em consideração os territórios, suas expressões artísticas, e o momento vivido.


No Recife dos anos 70 rolava uma grande libertação artística entre os muitos grupos, poetas, músicos, atores e intelectuais da cidade. No início da década, Recife era uma cidade pequena, com hábitos provincianos e de grande desigualdade social. Apesar do conservadorismo típico no país todo, a capital pernambucana era ainda mais conservadora que Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo.

E na busca de quebrar essa barreira cultural, reforçada pelos anos de chumbo, surgia uma turma disposta e pronta a fazer arte. Surgia o underground recifense. Ou o udigrudi recifense. O centro e palco desses acontecimentos foi o bar Drugstore Beco do Barato. Localizado na região central do Recife, era acolhedor com todos, sem fazer distinções de classe, gênero ou raça.

Nesse contexto, nomes como Alceu Valença, Ave Sangria, Zé Ramalho, Lula Cortês, entre tantos outros, criavam e recriavam a música pernambucana, e compunham músicas e discos que são históricos e enigmáticos até hoje.

Alceu Valença é um nome que mesmo arrastando multidões até hoje, ainda não é inteiramente conhecido. Muitos de seus fãs desconhecem suas obras

compostas na década de 70. Obras de letras fortes, políticas, reflexivas, e sonoridade ímpar que viaja pelo mundo psicodélico e aterrissa na brasilidade.
Um som que bebeu em fontes estrangeiras, mas que quando feitas por aqui, no calor tropical tupiniquim não pode ter um outro resultado, que não seja
“Molhado de Suor”.

O Disco Molhado de Suor é o primeiro álbum solo de Alceu, e foi lançado em 1974, logo após o músico participar do filme A Noite do Espantalho no qual fazia o espantalho e o narrador. Quando foi apresentar as canções desse disco por aí, especialmente no Rio de Janeiro, contou com a colaboração de músicos de outra grande representante do forró psicodélico pernambucano: Ave Sangria. O momento vivido pelo Brasil, problemas na gravação e música censurada acabaram boicotando o desenvolvimento da banda, que por necessidades financeiras, precisou se distanciar.


Molhado de Suor

Esse é o primeiro disco solo de Alceu Valença. Antes disso havia desenvolvido um projeto em parceria com Geraldo Azevedo: Quadrafônico, e também como principal intérprete da trilha sonora do filme “A Noite do Espantalho”, de Sergio Ricardo. Molhado de Suor foi produzido por Eustáquio Sena, o disco traz 11 faixas, incluindo a faixa-bônus “Vou Danado pra Catende”.


Recife viveu outro momento importante de resgate de sua identidade mesclada à renovação. Foi a era Manguebeat!


Realização: https://linktr.ee/ModatoGMS

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PODCAST MUTANTEBy Bode da Mutante