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Amor é latifúndio, sexo é invasão


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Aquele em que os quatro odiados são arremessados sem as suas metades nas águas de eros, e refazem a cena do banquete de Platão, discutindo amor, paixão e sexo. O amor nem sempre foi isso que chamamos por esse nome: ele já foi, para Platão, eros (a paixão), philia (a amizade) e ágape (o amor superior, quase divino), e Cássio nos explica que a principal diferença entre paixão e amor é que esta primeira é uma forma de sofrimento passivo, enquanto o amor é transitivo e pode transcender-se até o abstrato: pode-se amar a justiça e a beleza, ainda que Platão entenda que aquilo que amamos é uma cópia do ideal. Tudo isso é muito diferente dos amores modernos, e é pela literatura que os odiados fazem o link: “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, é o marco do início do Romantismo, e também o momento em que a expressão “morrer de amor” ganha a conotação que conhecemos hoje. Werther decide morrer para abreviar o sofrimento causado pela impossibilidade de realizar o seu amor por Charlotte, e o suicídio ficcional do personagem Werther levou a uma onda de suicídios na Europa do século XIX – o que a psicologia nomearia como “efeito Werther”, e que voltou a repetir-se recentemente com a exibição do seriado “13 reasons why” pela Netflix, quando muitos adolescentes cometeram suicídios influenciados pelo personagem principal da trama: um jovem suicida. Esse excesso de amor de Werther é o mesmo que encontramos no cinema, nas músicas e nas telenovelas: uma necessidade de revestir a vida de sentido a partir da dependência sentimental de um outro. É Heidegger, segundo pensam Cássio e Osvaldo, que vai resolver este fardo do outro para nós, ao entender o ser humano como um ser faltoso por excelência. Como a nossa falta é intrínseca e insaciável, então, na verdade, não existe completude: e daí ficamos livres de encontrar aquela “metade da laranja” que fez o Fábio Júnior ficar tão rico, como lembrou Osvaldo. “Ninguém é obrigado a dar sentido em nossa vida”, nos diz Cássio, e Bruno esclarece que essa noção de “sofrência”, cultivada nos dias de hoje nas canções do gênero sertanejo, tem sua origem na “coita” medieval, de onde se origina a palavra “coitado”, ou seja, respectivamente palavras para “dor amorosa” e “aquele que sofre de dor amorosa”. Em suma, não seria, até hoje, a nossa atitude amorosa uma invencionice da literatura provençal, uma cópia de costumes medievais que preservamos até hoje, na forma de tradição? Cássio observa, entretanto, recuperando Durkheim, que sentimentos são construções sociais, e Moisés, interceptando o raciocínio, acrescenta que o amor é coercitivo, mas é possível modificá-lo, na configuração de novos laços afetivos, embora nesse jogo nem tudo seja permitido. Lévi-Strauss entenderia, na mesma esteira, que a cultura é construída sobre a interdição e o proibitivo, o que leva Bruno e Osvaldo a debaterem os limites do narcisismo e do fetichismo: até que ponto é possível nutrir um fetiche que não é socialmente aceito? A psicanálise entenderá que a perversão é algo bastante oposto ao amor, e que o comportamento do perverso nada mais é que uma tentativa de gozar sem a presença do outro, ou seja, sem a presença da linguagem. A moralidade e a imoralidade são o gancho para Cássio recuperar Nietzsche, alegando que todo moralista é um canalha, já que ele não suporta olhar para seu próprio vício. Assim como na moral do escravo nietzschiana, o moralista precisa censurar no outro o defeito que, na verdade, não suporta ver em si. É o caso do esquerdo-macho, que adota uma prática discursiva progressista mas mantém em sua conduta atos do machismo mais atávico, censurando no outro aquilo que mantém na sua prática interpessoal. É de Cássio o desfecho: amor verdadeiro e desinteressado mesmo é o de mãe, que, assim como Slavoj Žižek interpretou na figura de Cristo, entrega-se à morte sem interesse de troca, com a única intenção de salvar seus filhos de seus vícios.
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