«Eu por exemplo, o meu discurso poético, está bastante alterado desde há um ano, ainda nem havia Bolsonaro no panorama (...) neste momento o que me vem, aquilo que eu estou a escrever agora, e aquilo que eu vou trabalhar daqui para a frente são coisas como eu nunca fiz na vida. É pé na terra. Olhos bem abertos. E abri uma porta dentro de mim para falar de coisas que eu nunca falei na minha vida (...)».
«(...)Há quem não esteja a reagir, há pessoas que estão paralisadas, há pessoas que estão no medo. Eu acho que o medo não pode existi. A gente tem que parar para pensar e reagir (...)».
Filha dos escritores E. M. de Melo e Castro e Maria Alberta Menéres, cedo conviveu com poesia. A ligação do pai ao Brasil reflectiu-se também nos discos que trazia, e é aí, na infância, que toma contacto com o trabalho de inúmeros músicos brasileiros, alguns dos quais com que mais tarde acaba por trabalhar.
Precursora, perseverante, a partir da década de 1980 começa (logo) a intensificar as suas parcerias com alguns dos mais consolidados músicos e autores brasileiros: Tom Jobim, Chico Buarque, Simone, Caetano Veloso, Milton Nascimento são alguns exemplos. Rasga e aproxima fronteiras musicais e culturais. Afirma-se no panorama musical brasileiro, mas mantém a sua residência base em Portugal, onde mais de duas dezenas de discos seus são gravados.
Acumulou experiências no teatro, com o grupo Ânima (que fundou e onde desenvolveu trabalhos de poesia experimental encenada) e com o grupo de Teatro A Barraca, e participou em filmes de Joaquim Leitão e Djalma Limonge Batista. Em televisão foi autora e produtora musical, compositora e apresentadora.
No ano de 2007 Eugénia Melo e Castro foi distinguida com o prémio Qualidade Brasil pelo conjunto da sua obra musical, integralmente lançada no Brasil. Em 2008 o seu programa de televisão Atlântico foi considerado um dos 50 melhores programas de televisão em Portugal.
A literatura e o intercâmbio cultural estabelecido com o Brasil, desde o início da década de oitenta, são um traço forte na sua trajectória.
É sobre os papéis e resistências que foi assumindo ao longo de já mais de três décadas nesse contexto e a conjuntura política do Brasil em 2018 que estou à conversa com Eugénia Melo e Castro neste episódio.
Boas audições.
[Convidada: Eugénia Melo e Castro,
Autoria,Texto e Edição: Soraia Simões de Andrade,
Ilustração: João Pratas,
Design de Som: António José Martins,
Indicativo: Amélia Muge,
Canção usada: «Paz», disco Paz de Eugénia Melo e Castro, 2002]