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Conversamos no último vídeo sobre como a corrida tecnológica moldou a universidade e a pesquisa que se faz nesse início de século XXI, em defesa dos interesses dos governos nacionais e das grandes corporações. Para ver como esse receituário impregna o imaginário da academia no Brasil, é conveniente avaliar uma entrevista dada em 02/12/2021 por um colega demissionário de um Comitê de Avaliação da CAPES à DW Brasil.
Perguntado sobre a suspensão do processo de avaliação quadrienal pelo Ministério Público, o colega informou que a decisão não faria sentido porque ignora que a avaliação é comparativa e que, portanto, não haveria razão para fixar metas a serem atingidas a priori. Do ponto de vista de um processo de avaliação, o colega não poderia estar mais equivocado, porque é simplesmente impossível monitorar, avaliar e controlar um sistema dinâmico (como o sistema de pós-graduação, que evolui no tempo) sem que se estabeleçam metas e objetivos a serem alcançados. Avaliar sem fixar metas e objetivos é abrir mão de estabelecer uma estratégia nacional que deva ser perseguida para o bem da sociedade brasileira. Aliás, estamos no momento sem um plano nacional de pós-graduação vigente, de forma que estamos literalmente à deriva e sem saber para onde ir. Avaliação sem metas ou objetivos não é avaliação, mas ranking.
Usando o mesmo exemplo dado pelo colega, suponha que 100 programas em um certo ano sejam avaliados e que 99 tenham gerado 0 mestres e doutores, enquanto um programa formou 1 pós-graduando. Na lógica do colega, esse programa é excelente, quando todos em verdade são péssimos. De forma similar, se 99 produziram 100 mestres e doutores e 1 deles formou 99 pós-graduandos, isso não faz desse programa um desastre, já que são todos muito bons. Portanto, parece óbvio que é necessário estabelecer metas e que a avaliação não pode ser feita de forma comparativa, não fazendo qualquer sentido fixar frações de excelência ou precariedade a priori.
O colega depois aprofunda a análise comparando o sistema de pós-graduação a uma corrida de 100 metros, em que o importante é saber quem correu mais naquele dia. Além de estabelecer uma conexão óbvia com o receituário produtivista da corrida tecnológica, o colega ignora que a comparação é esdrúxula e elitista. Afinal, enquanto um corredor pode ser Usain Bolt, o outro pode iniciar a corrida de pés descalços, cabendo ao processo de avaliação estabelecer condições que garantam o desenvolvimento exatamente dos programas que enfrentam mais dificuldades, e não apenas concentrando recursos nos programas mais bem preparados, que talvez tenham condições de sobreviver com recursos captados em outras fontes e que ganharão sempre as corridas se forem privilegiados pelo sistema, sem suporte de uma estratégia de expansão do sistema de pesquisa no país.
De mais a mais, o argumento da corrida é muito contraditório, pois o colega defende que as regras mudem ao longo do processo, o que é incompatível com uma competição minimamente justa. É inconcebível que um juiz vá adaptando as regras do jogo enquanto a partida de futebol se desenrola.
Enfim, vemos que a lógica produtivista da corrida tecnológica impregna o imaginário de boa parte da academia brasileira, para prejuízo dos interesses da sociedade que nos cerca. Isso precisa ser discutido e mudado. É preciso que a avaliação seja balizada sim em metas associados a um plano que estabeleça uma estratégia nacional para a pós-graduação, que as avaliações sejam individualizadas (porque as instituições não se encontram simultaneamente no mesmo estágio de desenvolvimento) e que o sistema de fomento seja desvinculado do processo de avaliação, para levar em conta os interesses estratégicos do país e a necessidade de apoiar programas em desenvolvimento que enfrentam dificuldades. É preciso ... [Para a descrição completa e a lista de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/OTXfj7nqyTU]
By Jose Carlos PintoConversamos no último vídeo sobre como a corrida tecnológica moldou a universidade e a pesquisa que se faz nesse início de século XXI, em defesa dos interesses dos governos nacionais e das grandes corporações. Para ver como esse receituário impregna o imaginário da academia no Brasil, é conveniente avaliar uma entrevista dada em 02/12/2021 por um colega demissionário de um Comitê de Avaliação da CAPES à DW Brasil.
Perguntado sobre a suspensão do processo de avaliação quadrienal pelo Ministério Público, o colega informou que a decisão não faria sentido porque ignora que a avaliação é comparativa e que, portanto, não haveria razão para fixar metas a serem atingidas a priori. Do ponto de vista de um processo de avaliação, o colega não poderia estar mais equivocado, porque é simplesmente impossível monitorar, avaliar e controlar um sistema dinâmico (como o sistema de pós-graduação, que evolui no tempo) sem que se estabeleçam metas e objetivos a serem alcançados. Avaliar sem fixar metas e objetivos é abrir mão de estabelecer uma estratégia nacional que deva ser perseguida para o bem da sociedade brasileira. Aliás, estamos no momento sem um plano nacional de pós-graduação vigente, de forma que estamos literalmente à deriva e sem saber para onde ir. Avaliação sem metas ou objetivos não é avaliação, mas ranking.
Usando o mesmo exemplo dado pelo colega, suponha que 100 programas em um certo ano sejam avaliados e que 99 tenham gerado 0 mestres e doutores, enquanto um programa formou 1 pós-graduando. Na lógica do colega, esse programa é excelente, quando todos em verdade são péssimos. De forma similar, se 99 produziram 100 mestres e doutores e 1 deles formou 99 pós-graduandos, isso não faz desse programa um desastre, já que são todos muito bons. Portanto, parece óbvio que é necessário estabelecer metas e que a avaliação não pode ser feita de forma comparativa, não fazendo qualquer sentido fixar frações de excelência ou precariedade a priori.
O colega depois aprofunda a análise comparando o sistema de pós-graduação a uma corrida de 100 metros, em que o importante é saber quem correu mais naquele dia. Além de estabelecer uma conexão óbvia com o receituário produtivista da corrida tecnológica, o colega ignora que a comparação é esdrúxula e elitista. Afinal, enquanto um corredor pode ser Usain Bolt, o outro pode iniciar a corrida de pés descalços, cabendo ao processo de avaliação estabelecer condições que garantam o desenvolvimento exatamente dos programas que enfrentam mais dificuldades, e não apenas concentrando recursos nos programas mais bem preparados, que talvez tenham condições de sobreviver com recursos captados em outras fontes e que ganharão sempre as corridas se forem privilegiados pelo sistema, sem suporte de uma estratégia de expansão do sistema de pesquisa no país.
De mais a mais, o argumento da corrida é muito contraditório, pois o colega defende que as regras mudem ao longo do processo, o que é incompatível com uma competição minimamente justa. É inconcebível que um juiz vá adaptando as regras do jogo enquanto a partida de futebol se desenrola.
Enfim, vemos que a lógica produtivista da corrida tecnológica impregna o imaginário de boa parte da academia brasileira, para prejuízo dos interesses da sociedade que nos cerca. Isso precisa ser discutido e mudado. É preciso que a avaliação seja balizada sim em metas associados a um plano que estabeleça uma estratégia nacional para a pós-graduação, que as avaliações sejam individualizadas (porque as instituições não se encontram simultaneamente no mesmo estágio de desenvolvimento) e que o sistema de fomento seja desvinculado do processo de avaliação, para levar em conta os interesses estratégicos do país e a necessidade de apoiar programas em desenvolvimento que enfrentam dificuldades. É preciso ... [Para a descrição completa e a lista de referências, consulte a descrição do vídeo no YouTube https://youtu.be/OTXfj7nqyTU]