Existem algumas palavras que são mais difíceis de serem traduzidas porque não têm um equivalente direto em outros idiomas. Para serem traduzidas, elas precisam ser explicadas. Esse é o caso da palavra cafuné.
O cantor e instrumentista Dominguinhos, em composição de José Abdon, cantou:
“Te faço um cafuné quando tu for dormir
Te dou café quando se levantar
Dou comida na boca, mato a tua sede
Armo a minha rede e vou te balançar”
Fazer um cafuné é uma das maiores demonstrações de afeto da corporalidade brasileira. O cafuné é o substantivo que se usa para o ato de passar os dedos e a mão com delicadeza pela cabeça de outra pessoa. O gesto foi observado por antropólogos no Brasil tanto em comunidades de origem africana quanto em comunidades indígenas, mas não foi possível precisar sua etimologia. Alguns acham que é possível que ela seja de origem indígena. No entanto, considera-se mais provável que ela tenha chegado ao Brasil vinda da África e que ela seja originária de uma das línguas bantas.
O professor e escritor Deonísio da Silva, em “De onde vêm as palavras: origens e curiosidades da língua portuguesa” , indica que a palavra viria do quimbundo kifunate, que quer dizer “entorse, torcedura”. Originalmente o ato de pegar a cabeça de alguém e torcê-la, cafuné teria se atenuado até chegar ao gesto de coçar o couro cabeludo de alguém com delicadeza.
O cafuné é íntimo porque reafirma laços familiares, de amizade e de amor. E ele é leve porque faz adormecer, acolhe, cuida. Onde tem cafuné, tem afeto.