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Quando era menina, sonhava ser jornalista. Mas não se ficava pelos sonhos, criava em casa telejornais imaginários, nos quais desempenhava ora o papel de repórter, ora o de pivô, sempre num grande afã para estar junto dos outros e os informar, para ser um elo de ligação e de proximidade. Depois cresceu e foi descobrindo mais interesses, a dança, a literatura e, é claro, a Medicina e a Medicina Familiar, que ocuparam parte importante da sua alma e dos seus dias, complementadas pelo amor à investigação.
Porém, nunca esqueceu o apelo da comunicação e anos mais tarde aproveitou (e construiu) todas as oportunidades para “cuidar” com a palavra e a mensagem, fosse através do podcast «Mala Médica», na Rádio M80, de que foi autora e apresentadora, fosse por via do papel de consultora para assuntos ligados à saúde na CNN Portugal ou das muitas participações que foi tendo na esfera mediática, com o intuito de contextualizar e comentar questões clínicas, de bem-estar, prevenção e promoção de práticas saudáveis.
No tempo livre, Sofia Baptista gosta de se perder nos livros, assegura que estes já a salvaram em momentos difíceis e que podem ocupar um lugar especial também na estratégia terapêutica de muitos doentes.. Assim, todos os médicos de família devem fazer uso eficiente deste poder literário. Da mesma forma que podem atuar como divulgadores de boa ciência e disseminadores de informação em saúde fidedigna. Numa era em que as distorções e manipulações da realidade nos assombram e deixam por vezes os cidadãos inquietos em momentos de grande fragilidade, perante a doença ou ausência de saúde, nada de mais honrado se pode encontrar do que um médico de família armado com um discurso que faz sentido.
Dizer que é um dos pioneiros da Medicina Familiar em Portugal é porventura justo, porém lacónico. Jaime Correia de Sousa faz parte da geração de médicos que contribuiu para que a Clínica Geral evoluísse a caminho de uma especialidade médica abrangente e socialmente relevante, esteve em todas as lutas que permitiram dar ao país médicos de família que os portugueses apreciam e querem do seu lado.
Mas não se ficou por aqui, pelas consultas e pelo acompanhamento próximo dos doentes, empenhou-se a fundo na formação pós-graduada e contínua dos colegas, com papel assinalável no internato de MGF e no extinto Instituto de Clínica Geral do Norte. Muitos jovens estudantes de Medicina beneficiaram da sua sabedoria e experiência, quando se cruzaram com ele na Escola de Ciências de Saúde da Universidade do Minho, entidade académica em que desempenhou funções enquanto coordenador da área de Saúde Comunitária e na qual o seu entusiasmo e dedicação à Medicina Familiar terão com toda a certeza contagiado mentes curiosas (quantas delas engrossam hoje as fileiras da MGF…).
Ajudou a definir os modelos organizativos de trabalho em que a maioria dos médicos de família atuou e atua em Portugal, sendo co-fundador de um dos primeiros regimes remuneratórios experimentais, em Matosinhos, depois transformado em Unidade de Saúde Familiar (USF) Horizonte, que coordenou.
A tais pergaminhos junta uma extensa carreira de investigador, com mais de uma centena de publicações indexadas na Web of Science e mais de 3000 citações, o apoio fundamental que concedeu a vários colegas na orientação de teses de doutoramento e o contributo inestimável que deu ao desenvolvimento dos cuidados respiratórios fora do ambiente hospitalar. De facto, é formidável a sua influência na prestação de cuidados respiratórios no nosso país, não só porque esteve no coletivo fundador do Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias (GRESP) da APMGF e assumiu a sua coordenação durante muitos anos, mas sobretudo porque desde então nunca deixou de puxar os médicos de família para esta área de intervenção que também lhes pertence, valorizando o seu papel e contribuindo para o diálogo interdisciplinar com outras especialidades médicas e profissões críticas para a saúde respiratória das populações. Senda que culminou na presidência do International Primary Care Respiratory Group (IPCRG), assumida entre 2016 e 2018.
Durante este longo trajeto nunca refreou o espírito empolgado, a vontade de integrar projetos que marcassem a diferença pela positiva, sempre ciente de que era necessário criar um contexto em que a MGF pudesse respirar melhor. Embora seja crítico da estagnação vivida na reforma dos cuidados de saúde primários, reconheça os grandes obstáculos a ultrapassar atualmente pelos médicos de família, centros de saúde e Serviço Nacional de Saúde (SNS) como um todo e a importância de instigar maior flexibilidade na forma de trabalhar das equipas, Jaime Correia de Sousa garante neste episódio que se alcançou entre nós “um enorme êxito”, algo que “era imprevisível, até mesmo improvável, à partida” com o edificar do SNS e que aquilo que nos separa, no presente, “do que se passava no final dos anos 70 é todo um mundo de diferença”.
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