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TRAFICANTE DE AFETOS
Lá no fim do beco isolado, num canto que ninguém vai, vaza uma cerca violada de alambrado. Passo com cuidado para não agarrar na roupa e ando um pouco numa picada de mato alto de pontas aloiradas pelo sol. O vento manso dá vida e movimento ao caminho deitando a relva em ondas.
A trilha dá numa árvore velha e anã quebrada em sua figura que a faz parecer uma senhora curvada apoiada com as mãos nos quartos.
Embaixo dela um banco improvisado onde está Jonathan olhando longe para os quintais dos velhos barracões abandonados onde não acontece quase nada, exceto pelas aves nos fios e telhados velando o entardecer.
- Jonathan? - nem sei se é esse o seu nome , aliás quem sabe o que é verdade por esses dias. Quem é que pede documento a amigos recentes para checar se história bate?
O que sei é que seus olhos gateados de baixo das sobrancelhas grossas e bem desenhadas parecem ignorar minha presença.
- Oi Vanessa.
A boca fina, tonalizada de púrpura mostra que estou enganada. Me encolho como uma tartaruga assustada enfiando a cabeça no cachecol. Ele sorri depois de falar meu nome, e quando sorri sua pinta perfeita se estica em cima dos lábios. Agora ele me fita como antes fitava o nada, com a mesma contemplação e intensidade.
Tento me inventar para parecer mais segura. Quem eu sou de verdade não me ajuda em nada, não me sinto confortável. Tudo em vão, ele parece que sabe de mim tudo e tudo que eu possa dizer ou fazer parece estar descrito num roteiro que ele leu e releu até decorar.
- O que vai ser hoje? O de sempre?
Finjo não ter pressa para responder e agir com tranquilidade. Em vão.
Ele me olha, seu casaco de couro marrom surrado me olha, seu jeans cinza me olha e seus sapatos sem meia me olham.
Tiro do bolso o dinheiro amassado em forma de canudo cujo o valor traz consigo a resposta.
Ele recolhe a taxa com uma quase indisfarçável frustração.
Já de pé, o casaco é dobrado com cuidado e colocado no banco. Ele fica de costas e se afasta um pouco para me dar privacidade. Tiro a minha jaqueta e o cachecol e os coloco ao lado do dele.
- Está pronta?
Aceno que sim com a cabeça.
Jonathan volta, abre os braços só um pouco, só para que eu possa entrar. Vou de passinhos curtos até minha testa tocar o seu peito. Ele guia minhas mãos frias e tímidas até suas costas e se fecha e mim. Deito finalmente meu rosto de lado, ouço seu coração calmo, sua temperatura viva. Ele sabe exatamente o momento e me aperta. As lágrimas começam a sair, tantas que não se distinguem. Minha voz embargada pelo choro se esconde na paisagem. Apego-me a ele, como se minha vida dependesse disso. Quero esmaga-lo, que faze-lo entrar e mim ou eu nele. Quero que sinta meus seios como se fossem dele. Doloridos por ele.
O tempo passa, um sinal no celular toca. Ganho 10 segundos de bônus.
Me recomponho e parto.
A noite me espera na saída do beco. Mascaras descartáveis pelo chão e ambulâncias gritando apressadas retomam a realidade.
FBarella
By Macna LegendsTRAFICANTE DE AFETOS
Lá no fim do beco isolado, num canto que ninguém vai, vaza uma cerca violada de alambrado. Passo com cuidado para não agarrar na roupa e ando um pouco numa picada de mato alto de pontas aloiradas pelo sol. O vento manso dá vida e movimento ao caminho deitando a relva em ondas.
A trilha dá numa árvore velha e anã quebrada em sua figura que a faz parecer uma senhora curvada apoiada com as mãos nos quartos.
Embaixo dela um banco improvisado onde está Jonathan olhando longe para os quintais dos velhos barracões abandonados onde não acontece quase nada, exceto pelas aves nos fios e telhados velando o entardecer.
- Jonathan? - nem sei se é esse o seu nome , aliás quem sabe o que é verdade por esses dias. Quem é que pede documento a amigos recentes para checar se história bate?
O que sei é que seus olhos gateados de baixo das sobrancelhas grossas e bem desenhadas parecem ignorar minha presença.
- Oi Vanessa.
A boca fina, tonalizada de púrpura mostra que estou enganada. Me encolho como uma tartaruga assustada enfiando a cabeça no cachecol. Ele sorri depois de falar meu nome, e quando sorri sua pinta perfeita se estica em cima dos lábios. Agora ele me fita como antes fitava o nada, com a mesma contemplação e intensidade.
Tento me inventar para parecer mais segura. Quem eu sou de verdade não me ajuda em nada, não me sinto confortável. Tudo em vão, ele parece que sabe de mim tudo e tudo que eu possa dizer ou fazer parece estar descrito num roteiro que ele leu e releu até decorar.
- O que vai ser hoje? O de sempre?
Finjo não ter pressa para responder e agir com tranquilidade. Em vão.
Ele me olha, seu casaco de couro marrom surrado me olha, seu jeans cinza me olha e seus sapatos sem meia me olham.
Tiro do bolso o dinheiro amassado em forma de canudo cujo o valor traz consigo a resposta.
Ele recolhe a taxa com uma quase indisfarçável frustração.
Já de pé, o casaco é dobrado com cuidado e colocado no banco. Ele fica de costas e se afasta um pouco para me dar privacidade. Tiro a minha jaqueta e o cachecol e os coloco ao lado do dele.
- Está pronta?
Aceno que sim com a cabeça.
Jonathan volta, abre os braços só um pouco, só para que eu possa entrar. Vou de passinhos curtos até minha testa tocar o seu peito. Ele guia minhas mãos frias e tímidas até suas costas e se fecha e mim. Deito finalmente meu rosto de lado, ouço seu coração calmo, sua temperatura viva. Ele sabe exatamente o momento e me aperta. As lágrimas começam a sair, tantas que não se distinguem. Minha voz embargada pelo choro se esconde na paisagem. Apego-me a ele, como se minha vida dependesse disso. Quero esmaga-lo, que faze-lo entrar e mim ou eu nele. Quero que sinta meus seios como se fossem dele. Doloridos por ele.
O tempo passa, um sinal no celular toca. Ganho 10 segundos de bônus.
Me recomponho e parto.
A noite me espera na saída do beco. Mascaras descartáveis pelo chão e ambulâncias gritando apressadas retomam a realidade.
FBarella