Maria Lira Marques – Roda dos Bichos
Nas substâncias minerais das terras do entorno do rio Jequitinhonha, a artista Maria Lira Marques encontra a gama de cores e texturas do seu fazer. Nos cantos de roda, batuques, bendito e incelência, unindo trabalho e fé, ela compartilha modos de habitar o ambiente que conectam gerações. Nas ancestralidades africana e indígena, reconhece feições, saberes e lutas alinhavados com sua própria vida.No plano que se conforma pelo entroncamento dessas substâncias, cantos e ancestralidades, Lira Marques se fez artista. Com a arte, criou maneiras de reunir legados e memórias que lhe são atávicos e fazer deles a energia motriz de obras que são ao mesmo tempo invenção e lembrança.Os protagonistas mais recorrentes em sua poética são entes que ela chama de meus bichos do sertão. São seres de silhueta animal que caminham, observam, avançam ou aguardam algo que apenas intuímos. Pertencem à imaginação de Lira (ela diz: são meus bichos) tanto quanto evocam o ambiente físico, social e coletivo que ela habita (diz também: são do sertão). Os bichos do sertão de Lira vivem na paisagem imaginante que se forma na ressonância entre a artista e o território. Tomam assento na superfície arredondada de seixos de rio, delineiam-se entre manchas feitas de água, cola e pigmentos minerais. Reaparecem enquadrados em planos de tons de vermelho, ocre, branco e amarelo, sozinhos ou em grupo, muitas vezes junto a símbolos-runas que traduzem elementos mais que humanos. São bichos de terra, marcam-se na terra, e estão sempre grávidos de movimento.A mostra Maria Lira Marques – Roda dos Bichos é uma deambulação em círculos junto à dança desses seres. Ela começa em roda, encontra diferentes grupos de obras e famílias de bichos, termina com um mergulho no canto, no testemunho e na história única que Lira vem tecendo desde a terra que nunca pensou em abandonar.
Paulo Miyada