São Paulo Isolada

#032: "A gente precisa chorar o nosso morto pra continuar vivendo"


Listen Later

"Como eu fiquei gripada para esses dias, eu fiquei mais pensativa em relação à morte. Não no fato de morrer. Eu fiquei mais pensativa em relação a como que eu queria morrer. Aonde eu queria estar, com quem eu queria estar. Eu acho que esse critério é mais importante. E ai entra a questão que é mais complicada né devido ao isolamento. Uma pessoa que morre de covid, ela não tem ninguém do lado dela, principalmente se ela tiver numa UTI. O brasileiro ele não tá tendo o luto, que é importante para gente, pessoa, ser humano. A gente precisa do luto, a gente precisa chorar o nosso morto pra continuar vivendo, para tirar aquilo né e falar "não, tudo bem". É um processo isso. A partir do momento que a gente não tem a oportunidade de chorar os nossos mortos, é uma coisa desgraçada isso. (voz emocionada) Eu não tive ninguém da minha família que eu perdi por covid, nada assim, mas eu penso nas outras famílias. Eu me coloco no lugar delas, porque se a minha avó, ou qualquer outra pessoa da minha família - eu falo a minha avó, porque ela é mais idosa e tudo mais.

Se acontece alguma coisa dessa com ela, e todas as vezes que ela esteve doente, eu sempre, a família toda, a gente sempre tava do lado e cuidava né? Se acontece isso com ela agora, a gente não vai poder fazer isso. Porque isso é um conforto pra gente que tá doente. A gente tem alguém que é tá ali né, para pegar uma água, para cobrir você, para te dar um remedinho, para fazer uma comidinha gostosa. A pessoa que tem o covid, ela tá isolada, ela não tem quem faça isso por ela. Por mais que ela tenha profissionais de saúde muito dedicados, que estão empenhados em fazer aquele processo ser confortável para o paciente e menos indolor possível, não é a mesma coisa. Então, morrer numa situação dessa é complicado. Morrer não é complicado. Complicado é como você tá morrendo, quem tá ali. Esse processo do covid massacra a família da pessoa e a pessoa. Emocionalmente a pessoa fica massacrada, porque você nunca mais vai ver aquela pessoa e você não teve tempo de pegar na mão dela. Esse processo de morte é importante tanto para quem tá morrendo, quanto para quem vai ficar. Isso foi tirado das famílias".

ELIS REGINA ALVES, 26 anos, em conversa no dia 12 de junho de 2021.

Transcrição da conversa: https://saopauloisolada.com.br/2021/08/16/o-projeto-s-foi-muito-importante-para-mim-profissionalmente-e-pessoalmente-falando/

...more
View all episodesView all episodes
Download on the App Store

São Paulo IsoladaBy São Paulo Isolada