Linhas tortas

30 - Itaperuna


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Parece cocaína, mas é só Itaperuna,

numa ressaca da festa de Medicina,

um café vagabundo que deixa na boca um gosto de milho-torrado,

é o sabor amargo

da lembrança de que na vida eu nunca tive um verdadeiro amor

no apartamento, terceiro andar,

abro a janela e fumo o meu prensado

para esquecer do meu futuro mal planejado,

que no passado nem penso mais;

eu só lembro do cheiro do seu condicionador

cabelos afagados,

um odor de carinho malcriado,

os traços dela desapareceram da minha vida como passos na neve,

a gente só lembra quando bebe,

a gente só lembra quando não deve,

só lembra quando não pode mais,

coloca o telefone na bochecha

e profere com a voz embriagada um monte de frases sem sentido

 

Parece cocaína, mas é só Itaocara,

talvez Campos dos Goytacazes,

em setembro,

nem lembro mais

das histórias de quando eu morava com meus pais,

das tantas vezes em que eu quebrei a cara,

já fui despejado de tanta casa

que perambulo pelas ruas do Rio como um anjo sem asa,

vejo as ondas quebrando na pedra do Arpoador;

esses filhos da puta não conhecem a minha dor,

eles não sabem como é morar no interior;

e as ondas violentas de Ipanema

me levam nesta tarde cinzenta,

para aquela vidraça em Itaperuna,

vejo a vagarosidade da gente que passa

e os julgo da minha Tribuna,

julgo toda aquela gente que como eu

nunca aprendeu,

que não sabe amar

eu grito para o mar,

eu grito

para expurgar

o amor maldito

da festa fantasia de Bom Jesus

grito

blasfemeio,

taco pedra na Cruz,

que alívio é mandar "Deus" à merda

ele e toda aquela vida de merda

que “Ele” planejou para mim

grito o mais alto que posso,

grito sem pudor,

proferindo ofensas ao Cristo Redentor

grito até me cansar e adormecer nas areias fofas da praia

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Linhas tortasBy Felipe Simão