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Há 100 milhões de anos, uma massa de terra hoje batizada América se desprendeu do supercontinente conhecido como Pangea. Há 40 mil anos, humanos pioneiros na Sibéria cruzaram uma ponte de terra até o Alasca. Depois disso, o continente desapareceu para o resto do mundo. Então, em 1492, um almirante genovês – valendo-se da bússola inventada na China, de conceitos matemáticos do Egito, um sistema numérico da Índia e cálculos astronômicos árabes redigidos com letras romanas – lançou-se no Atlântico à frente de três caravelas espanholas em busca de especiarias da Ásia, e fez a descoberta que seria o evento mais importante da história mundial no último milênio. Inadvertidamente, Colombo reuniu a humanidade e inaugurou a “aldeia global”.
Das colisões, convergências e misturas de três povos – indígenas, europeus e africanos – nasceu um Novo Mundo, que deu ao Velho Mundo frutos preciosos, a começar pelo sentido literal: você consegue imaginar a culinária universal sem o tomate, a batata, o milho ou o chocolate? Acrescente a esta cesta o tabaco e a borracha. Mas as dores do parto foram terríveis. Em 300 anos, 15 milhões de africanos foram arrancados de seu continente, na maior imigração forçada da história mundial. Os conquistadores trouxeram não só os dons culturais e materiais da Europa, África e Ásia, mas também seus germes e armas. Entre 80% a 90% dos nativos foram dizimados, a esmagadora maioria por pestes como sarampo, catapora, tifo e difteria, mas muitos pelo aço europeu. A conquista militar dos impérios e terras dos indígenas foi consumada por uns poucos milhares de europeus em algumas dezenas de anos, mas a conquista dos corações e mentes jamais seria completada. Os colonizadores criaram novas nações com os sistemas políticos, legais e linguísticos europeus, mas nas regiões onde grandes populações indígenas persistiram e grandes números de escravos foram importados emergiram sociedades ocidentais na superfície e não-ocidentais no fundo.
Onde estará a verdade entre a narrativa triunfalista dos europeus trazendo a civilização aos selvagens e a narrativa vitimista dos opressores perversos brutalizando oprimidos inocentes? Quais as grandes virtudes e vicissitudes das heranças coloniais para a América Latina e a América Anglo-saxã? E como as primeiras podem ser potencializadas e as segundas superadas para consumar a fusão dos três povos e integrar suas nações em um mundo genuinamente novo, justo e próspero?
Janice Theodoro: Professora de história da América da Universidade de São Paulo.
Leandro Karnal: Professor de história cultural da Universidade Estadual de Campinas.
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: Professor de história da América da Universidade Estadual de Campinas.
Ilustração: Chegada de Hernán Cortés em Vera Cruz. Detalhe do mural “A Epopeia do Povo Mexicano”, no Palácio Nacional, Cidade do México. De Diego Rivera, 1929-35. (Wikimedia Commons).
O post A Conquista da América apareceu primeiro em Estado da Arte.
By Estado da ArteHá 100 milhões de anos, uma massa de terra hoje batizada América se desprendeu do supercontinente conhecido como Pangea. Há 40 mil anos, humanos pioneiros na Sibéria cruzaram uma ponte de terra até o Alasca. Depois disso, o continente desapareceu para o resto do mundo. Então, em 1492, um almirante genovês – valendo-se da bússola inventada na China, de conceitos matemáticos do Egito, um sistema numérico da Índia e cálculos astronômicos árabes redigidos com letras romanas – lançou-se no Atlântico à frente de três caravelas espanholas em busca de especiarias da Ásia, e fez a descoberta que seria o evento mais importante da história mundial no último milênio. Inadvertidamente, Colombo reuniu a humanidade e inaugurou a “aldeia global”.
Das colisões, convergências e misturas de três povos – indígenas, europeus e africanos – nasceu um Novo Mundo, que deu ao Velho Mundo frutos preciosos, a começar pelo sentido literal: você consegue imaginar a culinária universal sem o tomate, a batata, o milho ou o chocolate? Acrescente a esta cesta o tabaco e a borracha. Mas as dores do parto foram terríveis. Em 300 anos, 15 milhões de africanos foram arrancados de seu continente, na maior imigração forçada da história mundial. Os conquistadores trouxeram não só os dons culturais e materiais da Europa, África e Ásia, mas também seus germes e armas. Entre 80% a 90% dos nativos foram dizimados, a esmagadora maioria por pestes como sarampo, catapora, tifo e difteria, mas muitos pelo aço europeu. A conquista militar dos impérios e terras dos indígenas foi consumada por uns poucos milhares de europeus em algumas dezenas de anos, mas a conquista dos corações e mentes jamais seria completada. Os colonizadores criaram novas nações com os sistemas políticos, legais e linguísticos europeus, mas nas regiões onde grandes populações indígenas persistiram e grandes números de escravos foram importados emergiram sociedades ocidentais na superfície e não-ocidentais no fundo.
Onde estará a verdade entre a narrativa triunfalista dos europeus trazendo a civilização aos selvagens e a narrativa vitimista dos opressores perversos brutalizando oprimidos inocentes? Quais as grandes virtudes e vicissitudes das heranças coloniais para a América Latina e a América Anglo-saxã? E como as primeiras podem ser potencializadas e as segundas superadas para consumar a fusão dos três povos e integrar suas nações em um mundo genuinamente novo, justo e próspero?
Janice Theodoro: Professora de história da América da Universidade de São Paulo.
Leandro Karnal: Professor de história cultural da Universidade Estadual de Campinas.
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: Professor de história da América da Universidade Estadual de Campinas.
Ilustração: Chegada de Hernán Cortés em Vera Cruz. Detalhe do mural “A Epopeia do Povo Mexicano”, no Palácio Nacional, Cidade do México. De Diego Rivera, 1929-35. (Wikimedia Commons).
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