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Existem livros que são como cidades antigas: habitados por gerações, percorridos por caminhos óbvios e veredas secretas. E há os que são como caravelas em oceanos desconhecidos, onde cada leitor é simultaneamente navegante e vento, rasgando rotas que não deixam vestígios. Dom Quixote é as duas coisas. Uma história clara e fresca – acessível até às crianças – e, ao mesmo tempo, inesgotável como as grandes criações humanas. Paradoxalmente, a força de sua mensagem nasce da leveza de sua execução. Nela, se agitam forças contraditórias: a sátira e o lirismo; o impulso de desconstrução e o desejo de transcendência; o sublime e o ridículo.
Nascido de uma vida temperada por batalhas, cativeiro, sonhos de grandeza e frustrações ainda maiores, o livro absorveu a irreverência das novelas picarescas, a observação psicológica da filosofia humanista e a crítica social do teatro para sintetizar a alma do Século de Ouro espanhol, suspensa entre a glória imperial e a melancolia da decadência, entre o canto de cisne do cavalheirismo medieval e o alvorecer da civilização burguesa.
Mas mais do que retrato de seu tempo, Cervantes forjou um espelho da condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não encarnam apenas opostos, mas se complementam numa totalidade simbólica – um, a encarnação do idealismo que se choca com o real; o outro, a do realismo que humaniza o ideal. Sua jornada é uma peregrinação às raízes da existência, o diálogo interminável da alma consigo mesma: a poesia do sonho e a prosa da realidade; a ânsia do absoluto e o peso do corpo; o céu estrelado e a estrada poeirenta.
Cervantes ri da fantasia sem zombar da esperança; critica a vida, mas abraça sua dignidade, mostrando que, quando há paixão moral, mesmo o delírio pode esconder verdades profundas, e, quando não há, a lucidez pode ser a maior das cegueiras. O riso que desmonta ilusões, é o mesmo que nos liberta para amarmos o mundo.
Não é à toa que esta é a ficção mais popular de todos os tempos e o quarto livro mais vendido do planeta, atrás apenas de obras confessionais – a Bíblia, o Corão, o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung. Não há uma única vida que se queira humana sem trazer em si algo de uma aventura quixotesca; um só coração que não se recuse a reduzir a vida apenas ao que é visível. Com seu Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes deu carne ao arquétipo universal do homem que luta pelo impossível, e cravou no coração da humanidade uma interrogação que jamais será calada – o que é mais louco: sonhar um mundo melhor ou se conformar ao mundo como ele é?
Convidados
Erivelto Carvalho: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e co-autor de Os Ibéricos: História, Liberdade e Literatura.
José Luis Martinez Amaro: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e coordenador do grupo de pesquisa “Retórica e historiografia na literatura hispânica”.
Maria Augusta da Costa Vieira: Professora de Literatura Espanhola da Universidade de São Paulo e autora de Dom Quixote: A Letra e os Caminhos.
Referências
Dom Quixote: A Letra e os Caminhos; Cervantes Plural; e A narrativa Engenhosa de Miguel de Cervantes: Estudos Cervantinos e Recepção do Quixote no Brasil, de Maria Augusta da Costa Vieira. Vida de Dom Quixote e Sancho (Vida de Don Quijote y Sancho), de Miguel de Unamuno.“Miguel de Cervantes” em O Cânone Ocidental (The Western Canon), de Harold Bloom. Lições sobre Dom Quixote (Lectures on Don Quixote), de Vladimir Nabokov.“Dulcineia Encantada”, em Mimesis de Erich Auerbach. Cervantes em “Antibarroco”, Capítulo VI, do Volume II da História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. El Pensamiento de Cervantes, de Américo Castro. Don Quichotte, de Paul Hazard.Cervantes o la crítica de la lectura, de Carlos Fuentes. The Man Who Invented Fiction: How Cervantes Ushered in the Modern World, de William Egginton.Aproximación al Quijote, de Martín de Riquer. Cervantes’ Don Quixote: A Casebook, ed. por Roberto González Echevarría. Cervantes y su época, de R. León Máinez.Miguel de Cervantes Saavedra, de J. Fitzmaurice-Kelly. Cervantes y su obra, de A. Bonilla y San Martín.Don Quijote als Wortkunstwerk, de H. Hatzfeld.Sobre la génesis del Don Quijote, de J. Millé Jiménez.La invención del Don Quijote em de M. Azaña.Cervantes, de R. Rojas.Cervantes, de A.F.G. Bell.Sentido y forma del Don Quijote, de J. Casalduero.Intención y silencio en el Quijote, de R. Aguilera.“Dom Quixote”. Episódio do programa Literatura Universal com Maria Augusta da Costa Vieira. “Don Quixote”, episódio do programa In Our Time, da Radio BBC 4. Don Quijote y Cervantes em RNE, coleção de produções radiofônicas da RNE espanhola. “Cervantes y la leyenda de Don Quijote”, documentário da RTVE. “Un été avec Don Quichotte” e “Miguel de Cervantès”, séries da Radio France.“Cervantes’ Don Quixote”, curso de Roberto González Echevarría na plataforma Yale Open Courses. “Audios magistrales para entender el Quijote”, série de podcasts de Jesús G. Maestro. “Don Quixote”. Episódio do podcast The Great of Literature Books.“Don Quixote: The First Modern Novel”, episódio do podcast The Pillars: Jersualem, Athens, and the Western Mind.“The Man Behind the Curtain: ‘Don Quixote’ by Miguel de Cervantes”. Episódio do podcast Close Readings. Ilustração: Esboço de Pablo Picasso (1955. Fonte: Wikimedia Commons)
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