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No final do século XIII, num mundo que ainda não tinha contornos definidos e onde mapas misturavam cidades reais com monstros marinhos, num tempo em que a sombra – e o sangue – das Cruzadas se estendiam sobre a Europa e os sonhos da cavalaria a inspiravam, um adolescente partiu com seu pai e seu tio de uma república mercantil a quem o Adriático sussurrava segredos distantes; atravessou desertos implacáveis, montanhas que roçavam os céus e rios que serpenteavam como veias de civilizações esquecidas; atingiu o coração do maior império terrestre de todos os tempos; tornou-se um emissário privilegiado da corte de Kublai Khan; e percorreu sua vasta teia de conquistas, enfrentando bandidos nômades, tempestades que engoliam caravanas, mares governados por monções, e povos cujas línguas ecoavam como enigmas ancestrais.
Mais do que uma aventura individual, a odisseia de Marco Polo foi um acontecimento civilizacional. Pela primeira vez, um europeu percorreu com continuidade e atenção um mundo asiático vasto, organizado, sofisticado – e regressou, 24 anos depois, para descrevê-lo. Não como alegoria teológica, nem como fábula moral, mas como um inventário de lugares, povos, riquezas, técnicas, rotas e costumes. Um olhar moldado tanto pela curiosidade quanto pelo cálculo; tanto pelo assombro quanto pela utilidade.
O Livro das Maravilhas do Mundo é o mais célebre relato de viagens já escrito. Ditado a um romancista numa prisão genovesa, nele se mesclam o fabuloso e o factual, a imaginação e a contabilidade. Cidades de ouro convivem com sistemas de correio imperial; relatos de palácios flutuantes em lagos artificiais com descrições minuciosas de moedas, pesos e mercadorias; histórias de rinocerontes tomados por unicórnios e especiarias que incendiavam os sentidos, com observações frias sobre impostos, canais, papel-moeda e pólvora. É um texto onde o maravilhoso medieval não desapareceu, mas começa a ser disciplinado pelo olhar moderno que mede, compara e registra.
O seu Oriente não é apenas exótico; é administrado, conectado, produtivo. O seu Ocidente não é apenas curioso; é mercantil, inquieto, pronto a expandir seus horizontes. Entre ambos, abre-se uma zona de contato onde a Idade Média vislumbra, sem saber, a aurora do mundo moderno. Marco Polo inaugurou a era das grandes descobertas, inspirando Colombo a velejar para o desconhecido, Vasco da Gama a desbravar continentes e Fernão de Magalhães a contornar o planeta. Por séculos ele moldou – e ainda molda – a maneira como o Ocidente sonhou o Oriente – e, em alguma medida, a si mesmo.
Andrea Carla Dore: professora de história moderna da Universidade Federal do Paraná.
Flavia Galli Tatsch: professora de história da arte medieval da Universidade Federal de São Paulo. e
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: professor de história atlântica da Universidade Estadual de Campinas.
Ilustração: Marco Polo parte de Veneza. Iluminura para um manuscrito do séc. XV de “Il Milione” (domínio público)
O post As Viagens de Marco Polo apareceu primeiro em Estado da Arte.
Há guerras que se travam por territórios nacionais, e há guerras que se travam pela alma de uma nação. A guerra civil americana foi ambas – e mais: foi a morte e ressurreição de um povo julgado no tribunal da própria consciência.
Em meados do século XIX, os Estados Unidos viviam uma contradição intolerável: proclamavam-se pátria da liberdade e igualdade, mas, no Sul, latifúndios tecidos em algodão e abastecidos por sangue erguiam pórticos brancos sobre lombos negros; no Norte, forjado em ferro e vapor, a fé no trabalho livre fundia-se ao fundamentalismo puritano. No choque entre essas civilizações, as palavras começaram a ferir mais que armas: púlpitos tornaram-se trincheiras, romances e hinos viraram bombas de efeito moral, e a própria Bíblia foi dilacerada entre os que a liam para justificar a escravidão e os que a liam para massacrar escravizadores.
Quando Abraham Lincoln, um abolicionista de origens humildes e convicções de aço, triunfou no combate eleitoral, as fronteiras viraram abismos. O que se seguiu foi não só um conflito militar, mas uma espécie de juízo final – uma travessia pelo inferno da modernidade. Ferrovias, telégrafos, encouraçados, nitroglicerina e proto-metralhadoras transformaram os campos de batalha em máquinas de aniquilação, antecipando a guerra total do século XX. Nenhuma guerra sacrificou mais americanos que a guerra a dos americanos contra si mesmos. Sobre milhares de cadáveres nas valas comuns de Gettysburg, o conflito encontrou sua esperança, nas palavras que Lincoln gravou na eternidade: a nação concebida na convicção de que todos nascem iguais sob Deus deveria viver o parto sangrento da liberdade, para que o governo do povo, pelo povo, para o povo jamais pereça sobre a terra.
Mas a vitória da União não trouxe paz – apenas outro tipo de guerra. Lincoln tombou sob a bala de um extremista, e seu sonho de uma reconstrução magnânima, “com malícia para ninguém, com caridade para todos”, foi muitas vezes virado às avessas. Entre os vencedores, as promessas de união se mesclaram à libido da vingança. Os vencidos retaliaram com códigos que restituíam a servidão e com o terror noturno das milícias brancas.
A guerra terminou nos mapas, mas continuou na alma americana. Quando o sangue secou, começou a batalha pela memória. O Norte celebrou precocemente – e às vezes hipocritamente – a redenção; o Sul se evadiu na fábula da “Causa Perdida”, mas nobre, onde a derrota virou honra, o regime escravocrata, um idílio cavalheiresco, e o vento levou as promessas de cidadania negra. A segregação durou mais 100 anos, até o movimento dos direitos civis, ao preço de vidas como a de Martin Luther King. Entre o mito e a culpa, o trauma e o ressentimento, os Estados Unidos seguiram marchando – às vezes aos tropeços, às vezes em círculos – tentando reconciliar-se consigo mesmos. E, ainda hoje, sob monumentos de bronze, tensões raciais e guerras culturais, ecoa o alerta de Lincoln: pode uma casa dividida permanecer de pé?
Leandro Gonçalves: professor de história militar do Instituto Federal de São Paulo e autor da tese A Revolução em Assuntos Militares no Contexto da Guerra de Secessão.
Marcos Sorrilha: professor de história da América da Universidade Estadual Paulista e produtor do Canal do Sorrilha sobre a história dos Estados Unidos.
Vitor Izecksohn: professor de história da América da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Duas Guerras nas Américas.
Ilustração: bandeiras da União e da Confederação geradas por IA.
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Existem livros que são como cidades antigas: habitados por gerações, percorridos por caminhos óbvios e veredas secretas. E há os que são como caravelas em oceanos desconhecidos, onde cada leitor é simultaneamente navegante e vento, rasgando rotas que não deixam vestígios. Dom Quixote é as duas coisas. Uma história clara e fresca – acessível até às crianças – e, ao mesmo tempo, inesgotável como as grandes criações humanas. Paradoxalmente, a força de sua mensagem nasce da leveza de sua execução. Nela, se agitam forças contraditórias: a sátira e o lirismo; o impulso de desconstrução e o desejo de transcendência; o sublime e o ridículo.
Nascido de uma vida temperada por batalhas, cativeiro, sonhos de grandeza e frustrações ainda maiores, o livro absorveu a irreverência das novelas picarescas, a observação psicológica da filosofia humanista e a crítica social do teatro para sintetizar a alma do Século de Ouro espanhol, suspensa entre a glória imperial e a melancolia da decadência, entre o canto de cisne do cavalheirismo medieval e o alvorecer da civilização burguesa.
Mas mais do que retrato de seu tempo, Cervantes forjou um espelho da condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não encarnam apenas opostos, mas se complementam numa totalidade simbólica – um, a encarnação do idealismo que se choca com o real; o outro, a do realismo que humaniza o ideal. Sua jornada é uma peregrinação às raízes da existência, o diálogo interminável da alma consigo mesma: a poesia do sonho e a prosa da realidade; a ânsia do absoluto e o peso do corpo; o céu estrelado e a estrada poeirenta.
Cervantes ri da fantasia sem zombar da esperança; critica a vida, mas abraça sua dignidade, mostrando que, quando há paixão moral, mesmo o delírio pode esconder verdades profundas, e, quando não há, a lucidez pode ser a maior das cegueiras. O riso que desmonta ilusões, é o mesmo que nos liberta para amarmos o mundo.
Não é à toa que esta é a ficção mais popular de todos os tempos e o quarto livro mais vendido do planeta, atrás apenas de obras confessionais – a Bíblia, o Corão, o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung. Não há uma única vida que se queira humana sem trazer em si algo de uma aventura quixotesca; um só coração que não se recuse a reduzir a vida apenas ao que é visível. Com seu Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes deu carne ao arquétipo universal do homem que luta pelo impossível, e cravou no coração da humanidade uma interrogação que jamais será calada – o que é mais louco: sonhar um mundo melhor ou se conformar ao mundo como ele é?
Erivelto Carvalho: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e co-autor de Os Ibéricos: História, Liberdade e Literatura.
José Luis Martinez Amaro: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e coordenador do grupo de pesquisa “Retórica e historiografia na literatura hispânica”.
Maria Augusta da Costa Vieira: Professora de Literatura Espanhola da Universidade de São Paulo e autora de Dom Quixote: A Letra e os Caminhos.
Ilustração: Esboço de Pablo Picasso (1955. Fonte: Wikimedia Commons)
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Seja qual for a sua espiritualidade, imagine o ritual que mais eleva o seu coração. Pense também na celebração cívica que mais excita suas paixões patrióticas. Agora, imagine uma cúpula geopolítica – com chefes de Estado, embaixadores e suas delegações. Um festival cultural – com arquitetura monumental, galerias de esculturas, récitas de poetas e filósofos, música, dança, truques de mágica. Acrescente uma feira de mercadores e inventores. Agora, coloque tudo isso sob o mesmo sol, e, bem no centro, atletas nus em competições de alta performance. Pronto, agora você tem um vislumbre do que eram os jogos olímpicos na Grécia Antiga.
A disputa foi a quintessência da vida grega, o combustível de sua cultura. As cidades competiam entre si em leis e instituições; os poetas, em versos; os filósofos, em argumentos. Hesíodo desafiou Homero. Ésquilo e Sófocles concorriam nos festivais teatrais de Dionísio. Xenófanes contestava os poetas; Sócrates, os sofistas; os estoicos, epicuristas e céticos contestavam uns aos outros. A historiografia de Heródoto nasceu da guerra contra os persas e a de Tucídides da guerra entre Esparta e Atenas. A democracia era uma arena onde cidadãos disputavam o poder pela força da palavra. Os espaços de treino e disputas físicas foram sublimados e hoje consagram os nomes de nossas instituições culturais e educacionais: as palestras, a academia, os liceus, o ginásio.
Mas se o espírito agônico dos helênicos foi destruição criativa, foi também criação destrutiva, que os impediu de forjarem uma nação, os mergulhou em guerras fratricidas e levou à sua capitulação sob potências estrangeiras.
A política dividia as cidades gregas, a religião fracassou em uni-las – mas o esporte conseguiu. Nos jogos, o conflito se transformava em espetáculo e a rivalidade em celebração. Guerras eram suspensas pela trégua sacrossanta; caravanas atravessavam mares e montanhas; e a Grécia, eternamente dilacerada, conhecia por instantes a comunhão. Sob o calor e a poeira de Olímpia, sacrifícios e procissões conviviam com o ruído das corridas, o brilho das armaduras, o sangue e o suor das lutas. Menandro resumiu a cena em cinco palavras: “multidão, feira, acrobatas, entretenimento, ladrões”.
Os jogos foram um microcosmo da cultura helênica e também sua apoteose; o ponto de fusão entre arte, política e fé, onde a Grécia não só reverenciava os deuses, mas celebrava o vigor humano. O atleta grego era uma encarnação do equilíbrio cósmico, um sacerdote do corpo. A coroa de oliveira, rústica e efêmera, valia mais que qualquer tesouro, porque simbolizava a consagração do indivíduo diante da eternidade – e a santificação da alegria coletiva. Os gregos humanizaram os deuses para divinizar os homens. E os jogos os treinavam nessa pedagogia da glória, ensinando-os a vencer sem soberba e a perder com dignidade, e os imergiam numa teologia do júbilo, unindo a religião e o prazer, a guerra e a dança, o esforço e a graça, a beleza e o bem – o corpo esculpido pelo exercício e a alma disciplinada pela virtude.
Delfim Leão: Professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra.
Gilberto da Silva Francisco: Professor de História Antiga na Universidade Federal da São Paulo.
Nuno Simões Rodrigues: Professor de Letras Clássicas da Universidade de Lisboa.
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Responda rápido: qual peça de Shakespeare lhe vem primeiro à cabeça? Ou qual citação: “Ser ou não ser”? “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”? “O resto é silêncio”? Ou qual a primeira cena: um jovem de preto interpelando uma caveira? Será coincidência que por trás de tudo isso repouse um único nome?
Hamlet é, de todas as obras do teatro moderno, a que exerce o fascínio mais persistente – e implacável. A tragédia do príncipe dilacerado entre a reflexão e a ação atravessa os séculos como um espelho oblíquo, turvo, fissurado da condição humana, onde cada época descobre suas próprias inquietações e conjura seus próprios fantasmas.
A peça desafia toda classificação. É, a um tempo, drama familiar, meditação existencial, thriller político, crítica social e uma reflexão sobre o teatro e o próprio ato de representar. É intriga de corte, mas também metafísica do ser. É paralisia excruciante numa espiral de choques e rupturas. No coração do drama pulsa não só um vingador hesitante, mas um palco povoado por máscaras, danças macabras, jogos de aparência e silêncios perturbadores. Entre o espectro do pai assassinado, a mãe desposada pelo assassino, um amor despedaçado, amizades fraudulentas e uma carnificina apoteótica, o príncipe da Dinamarca – soturno, sardônico, sagaz – se move num labirinto de espelhos como um ator de si mesmo – ensaiando ações, testando palavras, pensando alto diante do abismo e transmutando a dúvida em imagens líricas de alta voltagem.
Com sua tapeçaria de temas – a loucura e a razão, a justiça e o crime, a fantasia e a verdade, a corrupção do poder e a fragilidade da vida –, nenhum outro drama entrelaça com tanta densidade a inquietação filosófica e a paixão poética. Entre os solilóquios torturantes e o sarcasmo dos bobos, não só transbordam os dilemas do herói, mas a consciência moderna em ebulição. De Montaigne a Nietzsche, de Freud a Camus, Hamlet antecipa temas arquetípicos de nossa cultura: o “gênio melancólico” do romantismo, a “angústia da escolha” existencialista, os “complexos neuróticos” da psicanálise.
Se Hamlet é um enigma, é também um espelho – e uma ferida. O que nele hesita, pensa. O que nele pensa, sangra. E o que sangra, pergunta. Pergunta como só a poesia sabe perguntar: sem esperar resposta – mas com a estranha esperança de que o ato de falar ainda possa nos redimir.
José Francisco Hillal Botelho: escritor, poeta, crítico e tradutor de Shakespeare.
Fernanda Medeiros: professora de Literatura Inglesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e co-organizadora de O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe.
Liana Leão: professora de Literatura Inglesa da Universidade Federal do Paraná e co-organizadora de O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe.
Ilustração: gerada por IA.
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Sob os vendavais da era romântica, enquanto a Europa se embriagava com apoteoses filosóficas e otimismo científico, um espectador inquieto e solitário perambulava pelas ruas de Copenhague, e, sob máscaras de pseudônimos, escrevia freneticamente, desafiando a ilusão de que a existência possa ser domesticada por ideias. Søren Kierkegaard não era filósofo de cátedra, mas um provocador de almas, um poeta da angústia, um teólogo que via na fé não conforto, mas um “escândalo” a ser abraçado. Seu pensamento se ergue a um tempo perturbador como uma tragédia elisabetana e cômico como um teatro de marionetes.
Kierkegaard fez de sua vida – marcada pela melancolia herdada do pai pietista e pela chaga de um noivado abortado –, o palco de sua obra. Seus escritos não são tratados, mas performances existenciais – fragmentadas, ambíguas, polêmicas, e carregadas de uma ironia que serve não como ornamento, mas como instrumento filosófico. Para ele, não se tratava de conquistar leitores, mas almas.
Na sua obra inaugural, Ou-Ou, encenou a contradição entre o esteta, joguete do do prazer e do tédio, e o ético, cativo da responsabilidade. Em Temor e Tremor, mergulhou no paradoxo de Abraão, cuja fé é um “salto” além da razão. Enquanto Hegel prometia a reconciliação de todas as contradições, Kierkegaard proclamava a sua inexorabilidade. “A verdade é a subjetividade”, dizia. “A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida para frente”. Nesse abismo entre a compreensão e a ação, descreveu a liberdade como “vertigem” e diagnosticou o desespero como a incapacidade de ser o próprio eu — uma antecipação genial das neuroses do século XX. Apologeta combativo, denunciou a cristandade burguesa como uma paródia do cristianismo, insistindo que a fé exige risco, não rituais vazios.
Seu legado ecoa na filosofia de Heidegger e Sartre, na literatura de Camus, na teologia dialética de Karl Barth e na psicoterapia existencial. Mas talvez sua maior atualidade esteja em seu diagnóstico da alienação da alma moderna. Na era da cultura de massas e de performances digitais, sua advertência — “a multidão é a mentira” – soa profética. Kierkegaard não oferece respostas, mas perguntas que queimam: Como escolher quando não há certezas? O que significa crer em um mundo pós-metafísico? Como ser um indivíduo em tempos de conformismo em escala industrial? Kierkegaard foi o Hamlet da filosofia – gênio atormentado, herói hesitante, mestre da ambiguidade, e talvez o crítico mais cruel dos sonhos da nossa vã filosofia.
Alvaro Valls: professor de filosofia da UNISINOS, tradutor de Kierkegaard e autor de Kierkegaard, Cá Entre Nós.
Jonas Roos: professor de ciências da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de 10 Lições sobre Kierkegaard.
Gabriel Ferreira da Silva: professor de filosofia da UNISINOS e autor de Em Busca de Uma Existentiel-Videnskab: Kierkegaard e a Ontologia do Inter-esse.
Ilustração: retrato inacabado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard c. 1840. (Wikicommons).
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Para alguns pensadores, a história humana é basicamente a história da cultura. Para outros, a história da economia. Mas há quem diga que ela nada mais é que a história da guerra. É plausível. Por que procurar a mola-mestra da História no poder das ideias ou no poder do dinheiro, e não simplesmente no poder do poder? Quer dizer: a força pura de dobrar os outros à sua vontade – ou aniquilá-los –, seja lá quão brilhantes ou ricos sejam.
Muito além dos quartéis e trincheiras, fala-se em guerra por toda parte – “guerras culturais”, “guerras comerciais”, “guerras santas”, a “guerra dos sexos”. Todo mundo maquina suas “táticas” e “estratégias” para tudo. O que são nossos esportes e jogos – do futebol ao xadrez – senão guerras sublimadas?
A guerra está em todo lugar. Mas o paradoxo é quão raros são os livros sobre a guerra. Não entenda mal: as guerras inspiraram obras primas da literatura – das epopeias de Homero aos romances de Tolstoi; toda geração produz toneladas de manuais militares – só para serem soterrados pelos manuais da geração seguinte, a par com as novas tecnologias. Mas e os livros sobre a guerra? Não sobre a guerra do Peloponeso, da Gália, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda ou a Guerra Fria, mas só sobre a guerra. O que é? Como começa? Como termina?
A Arte da Guerra, o clássico do chinês Sun Tzu, é demasiado “clássico” – fruto de um tempo arcaico e heroico onde combates eram travados com escudos, espadas e códigos de honra, milênios antes do poder de destruição em massa da pólvora e do poder de mobilização em massa dos Estados nacionais. Daí a afirmação ousada, mas difícil de refutar, de Bernard Brodie, um dos pais da estratégia nuclear, sobre o tratado do general prussiano Carl von Clausewitz: “Não é só o maior, mas o único grande livro sobre a guerra”. Como disse um estrategista contemporâneo: “Você pode lutar guerras sem ler Clausewitz, mas dificilmente pode entendê-las”.
Escrito no rescaldo das guerras napoleônicas, muito mais do que um manual bélico, o livro é uma meditação sobre a violência organizada e sua relação inextricável com o poder político. Muito além de táticas e estratégias, ele explora a guerra como um espelho da natureza humana, um fenômeno social, psicológico e moral regido pela “admirável trindade”: a “paixão”, o “acaso” e a “razão”, encarnadas no “povo”, nas “forças armadas” e no “governo”.
Como obra inacabada, ela nos lega não só luz, mas lacunas e contradições. Até hoje, contudo, em tempos de drones e guerras híbridas, Clausewitz permanece crucial para entender como e por que os homens lutam. Grandes estadistas – de Bismark a Mao Tsé-Tung, de Lenin a Eisenhower – formam fila com batalhões de generais, pensadores e até artistas para dar testemunho da ponderação do cientista político Christopher Coker: “Clausewitz permanece insubstituível – não porque tenha todas as respostas, mas porque ajuda a fazer as perguntas certas”.
Eugênio Diniz: Professor de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais e membro do International Institute for Strategic Studies.
Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos: Professor de Relações Internacionais da Unesp e autor de Clausewitz e a Política.
Sandro Teixeira Moita: Professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
Ilustração: Pxhere.com Free Images.
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Quando um carpinteiro de Nazaré foi condenado pelos clérigos hebreus e crucificado por um governador romano, a população de seus seguidores mal encheria uma sinagoga. Vinte séculos depois, eles formam a maior religião do mundo, predominante em quase todos os continentes. Nenhuma instituição fez tanto pelo Bem, a Verdade e a Beleza. Seus orfanatos e hospitais aliviam a humanidade; seu mecenato deu ao mundo dos mosaicos bizantinos às catedrais medievais às obras primas renascentistas e barrocas. A Igreja deu à luz as universidades e continua a inundar o planeta com escolas.
Das ruas poeirentas da Judeia, a pequena seita messiânica floresceu como uma árvore de raízes múltiplas, cujos galhos se espalhavam com inacreditável rapidez entre cidades portuárias, desertos, prisões e palácios, cruzando fronteiras étnicas, morais e culturais para oferecer uma nova fé a judeus e gentios, analfabetos e filósofos, legionários romanos e mulheres gregas. O cristianismo foi vilipendiado, perseguido, ridicularizado, mas cresceu, como cresce a semente sob a terra, regada pelo sangue dos mártires.
Como se cristalizou, entre torturas e concílios, o que hoje chamamos de ortodoxia? Como se forjou, em meio a uma cacofonia de doutrinas, seitas e evangelhos rivais a fé no mistério tão contra-intuitivo quanto central da Trindade? Como a crença num Deus crucificado, escândalo para judeus e loucura para gregos, sintetizou o universalismo helênico e o profetismo hebraico? Como uma religião que pregava o amor ao inimigo, a castidade, o sacrifício e o perdão conquistou os senadores de Roma, os intelectuais de Alexandria, os comerciantes de Antioquia? Como uma comunidade que pregava desapego às riquezas construiu basílicas de ouro? E o que aconteceu quando Constantino abraçou o símbolo da Cruz: terá a Igreja conquistado o mais formidável império que o mundo já conheceu ou terá sido prostituída por ele?
Não há como compreender os destinos da civilização humana sem percorrer os passos das primeiras gerações de cristãos, de catacumbas obscuras a palácios imperiais, de Gibraltar à Mesopotâmia. Neles está em germe tanto o império teológico da cristandade medieval quanto as rupturas que o abalaram: da avassaladora onda islâmica ao cisma entre o Oriente e o Ocidente até a Reforma Protestante que escancarou as portas da modernidade. E, talvez, refazendo estes passos – humildes, corajosos, incendiários – os cristãos de hoje possam reencontrar a sua missão: reconciliar-se, anunciar a fé com novo ardor, e preparar, enfim, o mundo para a consumação do Reino de Deus.
Marcus Reis Pinheiro: professor de filosofia da Universidade Federal Fluminense e coordenador do grupo de estudos em mística comparada.
Paulo Nogueira: professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autor de Breve história das origens do cristianismo.
Pedro Vasconcellos: professor de história da cultura da Universidade Federal de Alagoas e co-autor de Caminhos da Bíblia – Uma história do povo de Deus.
Ilustração: Afresco da Última Ceia na igreja de Meillonnas, França (Dreamstime.com)
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Quando o jovem francês Alexis de Tocqueville viajou aos Estados Unidos, em 1831, o Antigo Regime estava em decomposição, mas a rigor não havia democracias no mundo. Mesmo os governantes americanos eram eleitos por uma elite diminuta. Filho de uma aristocracia moribunda, visionário de uma democracia embrionária, Tocqueville não amava, nem odiava, nem uma nem outra, e pôde julgá-las com um olhar desapaixonado. Nem apologista da democracia, nem seu crítico reacionário, na América ele viu a marcha irresistível do igualitarismo moldando não só as leis e instituições, mas os costumes e a alma coletiva, para o bem, mas também para o mal. Entre os riscos que a democracia trazia em seu ventre, ele diagnosticou os males do individualismo e do materialismo; do conformismo e da apatia política, de um lado, e do fanatismo sectário e da tirania da maioria, de outro; do atomismo social e do monismo estatal.
“Desejo imaginar sob quais novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo”, disse Tocqueville, “e vejo uma inumerável multidão de homens semelhantes e iguais, que sem descanso giram em torno de si mesmos, a fim de se proporcionarem pequenos e vulgares prazeres com que enchem a alma; cada um, isolando-se parte à parte, como que estranho ao destino dos demais. … Acima de todos, eleva-se um poder imenso e tutelar, único a encarregar-se de lhes assegurar seus gozos e velar sobre sua sorte. É absoluto, detalhado, regular, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objeto preparar os homens para sua idade viril, mas, pelo contrário, procura apenas fixá-los irrevogavelmente na infância. … Se pudesse, lhes suprimiria inteiramente até a preocupação de pensar e a dificuldade de viver!”
Mas Tocqueville foi salvo do ceticismo por sua fé política na liberdade, e do pessimismo por sua fé religiosa no cristianismo. Com o mesmo vigor com que denunciou as patologias da democracia, apontou os seus remédios: a participação em associações civis, a imprensa livre, a vitalidade das instituições locais, a descentralização do poder, a educação cívica e sobretudo o freio ao egoísmo e motor do altruísmo que é a religião.
Duzentos anos depois, mais da metade dos países do planeta são democráticos e mesmo regimes autocráticos como a China ou a Rússia prestam a homenagem do vício à virtude e hipocritamente se proclamam “democracias”. A obra prima de Tocqueville, a Democracia na América, teve um valor inestimável para compreender a história passada das democracias. Mas poderá ainda nos ajudar a decifrar o presente, e, talvez, salvar o futuro?
Lívia Franco: professora de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa.
Roberta Soromenho: professora de Ciência Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Rodrigo do Lemos: professor de Língua e Literatura Francesa da Universidade Federal Fluminense.
Ilustração: Estátua da Liberdade em construção. Paris, 1883 (domínio público).
O post ‘A Democracia na América’ de Tocqueville apareceu primeiro em Estado da Arte.
No ano de 793 depois de Cristo, os céus do litoral norte da Inglaterra se encheram de relâmpagos, tornados e dragões, então se seguiu uma grande fome, e finalmente “horrendas incursões de pagãos destruíram a igreja de Deus na ilha de Lindisfarne com roubos e massacres ferozes”. Foi assim, ao menos segundo as crônicas anglo-saxãs, que os vikings inauguraram três séculos de invasões, conquistas e colonizações. Até hoje os vemos como guerreiros super-masculinos navegando em navios em forma de dragão com capacetes com chifres, peles de animais e machados reluzentes em busca de saques, assaltos, pilhagens, estupros, sequestros, chacinas, escravizações. Assim como nossa sociedade mantém uma relação ambígua com a violência, somos a um tempo atraídos e repelidos pelos vikings. Simpatizamos com suas vítimas, mas admiramos sua força, coragem e virilidade, e, de um modo geral, prevalece a imagem positiva da jovialidade, ousadia, aventura e exploração.
Com efeito, os vikings batalharam da Inglaterra e França até Portugal e Espanha; navegaram por rios do Báltico ao Mar Negro; comercializaram em Constantinopla e Bagdá, conectando-se com a China e a Índia através da Rota da Seda; colonizaram a Islândia; e exploraram a América 500 anos antes de Colombo. Eles aterrorizaram os povos medievais, mas também catalizaram grandes transformações culturais, religiosas e políticas. A destruição criativa detonada na Escandinávia teve um caráter caleidoscópico. Considere Cnut, o Grande, que foi rei da Dinamarca, Noruega, Inglaterra e parte da Suécia. Ou Harald Hardrada (literalmente, “o Durão”), filho do rei da Noruega; meio-irmão de Olaf, o Santo; genro de Yaroslav, o Sábio, da Rússia; cunhado dos reis da Hungria e da França; exilado, pirata, poeta, mercenário, general do Império Bizantino, que lutou no mediterrâneo, reconquistou seu trono e quase subjugou a Inglaterra.
Aos poucos, os chefes tribais escandinavos foram se tornaram súditos de reis e fiéis da Igreja universal. Quando os conquistadores foram conquistados pela fé de monges e freiras, a era viking acabou e nasceram os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega. Mas seus descendentes na Normandia conquistaram a Inglaterra e a Sicília; e suas dinastias em Kiev inauguraram aquela que se tornaria a maior nação do planeta: a Rússia. E a mistura de masculinidade, aventura e coragem em suas sagas e mitos continuam a energizar nosso imaginário, das óperas de Wagner aos romances de Tolkien, de filmes a séries e videogames. Como os vikings se tornaram o primeiro povo pré-moderno a matar e morrer nos quatro continentes? O que a sua jovialidade expansiva tem a ver com a introversão torturante de um Hamlet ou um Kierkegaard? E como os descendentes desses bárbaros ferozes construíram nações que hoje são modelos exemplares de regimes social-democratas igualitários, civilizados e pacíficos?
Hélio Pires: pesquisador do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa e autor de No Tempo dos Vikings.
Lukas Grzybowski: professor de História Medieval da Universidade Estadual de Londrina e autor de The Christianization of Scandinavia in the Viking Era.
Santiago Barreiro: professor de História Medieval da Universidade de Buenos Aires e tradutor das sagas nórdicas.
Ilustração: Drakkars vikings criados por Inteligência Artificial.
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