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Sob os vendavais da era romântica, enquanto a Europa se embriagava com apoteoses filosóficas e otimismo científico, um espectador inquieto e solitário perambulava pelas ruas de Copenhague, e, sob máscaras de pseudônimos, escrevia freneticamente, desafiando a ilusão de que a existência possa ser domesticada por ideias. Søren Kierkegaard não era filósofo de cátedra, mas um provocador de almas, um poeta da angústia, um teólogo que via na fé não conforto, mas um “escândalo” a ser abraçado. Seu pensamento se ergue a um tempo perturbador como uma tragédia elisabetana e cômico como um teatro de marionetes.
Kierkegaard fez de sua vida – marcada pela melancolia herdada do pai pietista e pela chaga de um noivado abortado –, o palco de sua obra. Seus escritos não são tratados, mas performances existenciais – fragmentadas, ambíguas, polêmicas, e carregadas de uma ironia que serve não como ornamento, mas como instrumento filosófico. Para ele, não se tratava de conquistar leitores, mas almas.
Na sua obra inaugural, Ou-Ou, encenou a contradição entre o esteta, joguete do do prazer e do tédio, e o ético, cativo da responsabilidade. Em Temor e Tremor, mergulhou no paradoxo de Abraão, cuja fé é um “salto” além da razão. Enquanto Hegel prometia a reconciliação de todas as contradições, Kierkegaard proclamava a sua inexorabilidade. “A verdade é a subjetividade”, dizia. “A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida para frente”. Nesse abismo entre a compreensão e a ação, descreveu a liberdade como “vertigem” e diagnosticou o desespero como a incapacidade de ser o próprio eu — uma antecipação genial das neuroses do século XX. Apologeta combativo, denunciou a cristandade burguesa como uma paródia do cristianismo, insistindo que a fé exige risco, não rituais vazios.
Seu legado ecoa na filosofia de Heidegger e Sartre, na literatura de Camus, na teologia dialética de Karl Barth e na psicoterapia existencial. Mas talvez sua maior atualidade esteja em seu diagnóstico da alienação da alma moderna. Na era da cultura de massas e de performances digitais, sua advertência — “a multidão é a mentira” – soa profética. Kierkegaard não oferece respostas, mas perguntas que queimam: Como escolher quando não há certezas? O que significa crer em um mundo pós-metafísico? Como ser um indivíduo em tempos de conformismo em escala industrial? Kierkegaard foi o Hamlet da filosofia – gênio atormentado, herói hesitante, mestre da ambiguidade, e talvez o crítico mais cruel dos sonhos da nossa vã filosofia.
Alvaro Valls: professor de filosofia da UNISINOS, tradutor de Kierkegaard e autor de Kierkegaard, Cá Entre Nós.
Jonas Roos: professor de ciências da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de 10 Lições sobre Kierkegaard.
Gabriel Ferreira da Silva: professor de filosofia da UNISINOS e autor de Em Busca de Uma Existentiel-Videnskab: Kierkegaard e a Ontologia do Inter-esse.
Ilustração: retrato inacabado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard c. 1840. (Wikicommons).
O post Kierkegaard apareceu primeiro em Estado da Arte.
By Estado da ArteSob os vendavais da era romântica, enquanto a Europa se embriagava com apoteoses filosóficas e otimismo científico, um espectador inquieto e solitário perambulava pelas ruas de Copenhague, e, sob máscaras de pseudônimos, escrevia freneticamente, desafiando a ilusão de que a existência possa ser domesticada por ideias. Søren Kierkegaard não era filósofo de cátedra, mas um provocador de almas, um poeta da angústia, um teólogo que via na fé não conforto, mas um “escândalo” a ser abraçado. Seu pensamento se ergue a um tempo perturbador como uma tragédia elisabetana e cômico como um teatro de marionetes.
Kierkegaard fez de sua vida – marcada pela melancolia herdada do pai pietista e pela chaga de um noivado abortado –, o palco de sua obra. Seus escritos não são tratados, mas performances existenciais – fragmentadas, ambíguas, polêmicas, e carregadas de uma ironia que serve não como ornamento, mas como instrumento filosófico. Para ele, não se tratava de conquistar leitores, mas almas.
Na sua obra inaugural, Ou-Ou, encenou a contradição entre o esteta, joguete do do prazer e do tédio, e o ético, cativo da responsabilidade. Em Temor e Tremor, mergulhou no paradoxo de Abraão, cuja fé é um “salto” além da razão. Enquanto Hegel prometia a reconciliação de todas as contradições, Kierkegaard proclamava a sua inexorabilidade. “A verdade é a subjetividade”, dizia. “A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida para frente”. Nesse abismo entre a compreensão e a ação, descreveu a liberdade como “vertigem” e diagnosticou o desespero como a incapacidade de ser o próprio eu — uma antecipação genial das neuroses do século XX. Apologeta combativo, denunciou a cristandade burguesa como uma paródia do cristianismo, insistindo que a fé exige risco, não rituais vazios.
Seu legado ecoa na filosofia de Heidegger e Sartre, na literatura de Camus, na teologia dialética de Karl Barth e na psicoterapia existencial. Mas talvez sua maior atualidade esteja em seu diagnóstico da alienação da alma moderna. Na era da cultura de massas e de performances digitais, sua advertência — “a multidão é a mentira” – soa profética. Kierkegaard não oferece respostas, mas perguntas que queimam: Como escolher quando não há certezas? O que significa crer em um mundo pós-metafísico? Como ser um indivíduo em tempos de conformismo em escala industrial? Kierkegaard foi o Hamlet da filosofia – gênio atormentado, herói hesitante, mestre da ambiguidade, e talvez o crítico mais cruel dos sonhos da nossa vã filosofia.
Alvaro Valls: professor de filosofia da UNISINOS, tradutor de Kierkegaard e autor de Kierkegaard, Cá Entre Nós.
Jonas Roos: professor de ciências da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de 10 Lições sobre Kierkegaard.
Gabriel Ferreira da Silva: professor de filosofia da UNISINOS e autor de Em Busca de Uma Existentiel-Videnskab: Kierkegaard e a Ontologia do Inter-esse.
Ilustração: retrato inacabado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard c. 1840. (Wikicommons).
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