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Você já imaginou como seria viver em uma sociedade ideal, perfeitamente justa, onde todas as pessoas são livres, sadias, educadas, virtuosas, generosas, cada uma agindo conforme as suas capacidades, cada uma recebendo conforme as suas necessidades? Seria como emergir das cavidades e penumbras de uma caverna vitalícia, deslumbrando-se com as cores, os movimentos, a densidade e a vida do mundo real. Mas é desconcertante que quem entra na Cidade Ideal de Platão parece percorrer o caminho inverso. Nossa sensibilidade moderna se choca com visões contra-intuitivas – como o regime do comunismo austero das elites, sem família, nem posses – ou mesmo perturbadoras – como o controle da poesia e das artes em nome da moral, a eugenia e a compartimentação por castas, ou, sobretudo, o repúdio à democracia eleitoral como antessala da anarquia e da tirania. Como conciliar essa estrutura estreita e rígida com lampejos visionários, como a abolição da escravidão ou o igualitarismo total entre homens e mulheres?
Não surpreendem os 2.400 anos de controvérsias inflamadas entre quem adora a República como uma utopia luminosa – o prenúncio do Reino dos Céus – e quem a detesta como uma distopia tenebrosa – a mãe de todos os totalitarismos.
Mas ninguém negará que Platão alicerça a construção de sua cidade “bela e boa” nas questões essenciais: o que é a justiça? o que é a felicidade? é possível ser injusto e feliz – ou justo e infeliz? E mesmo as críticas mais densas dos críticos mais ardentes não deixam de ser uma homenagem ao tour de force de Platão em busca do equilíbrio e da hierarquia entre a dimensão religiosa, a política e a econômica que compõem toda a sociedade humana, assim como entre a razão, a vontade e a emoção que movem toda alma humana.
Nenhuma outra obra platônica ilustra tão completamente o dito de Alfred North Whitehead de que a história da filosofia não passa de “uma série de notas de rodapé a Platão”. Em sua busca pelo Estado ideal, o protagonista Sócrates extrapola a política, investigando a ética, a estética, a metafísica, a epistemologia, a pedagogia, a psicologia e até a física para oferecer uma síntese audaciosa entre a arquitetura do universo e a anatomia da alma. Seu anseio pela fusão do saber e do poder produziu algumas das alegorias poéticas mais fecundas da história do pensamento – o mito da caverna, o sol como imagem do Bem, o Estado como um navio, a odisseia da alma no além-mundo.
E aprove-se ou não os caminhos e estratagemas de Platão para responder à pergunta crucial sobre a Justiça, a resposta – medida pelas grandes lideranças morais e religiosas da humanidade – segue impecável: o vigor de uma civilização é antes de tudo uma questão de ordem interior, e é sempre preferível ser justo, mesmo sofrendo as mais cruéis injustiças, do que gozar de prazeres, riquezas e glória praticando injustiças.
Ame ou odeie a República, o certo é que nenhum pensador jamais ficou indiferente a ela. Hoje, como sempre foi e, previsivelmente, sempre será, a República é uma poderosa fonte de inspiração para pensarmos quem somos – e o que poderíamos ser –; e para investigar como construir uma sociedade justa – e como sermos justos em um mundo injusto.
Gabriele Cornelli: professor de Filosofia Antiga da Universidade de Brasília e ex-presidente da International Plato Society.
Luca Pitteloud: Professor de Filosofia Antiga na Universidade Federal do ABC e Pesquisador pela Universidade Autónoma de Madri.
Maria do Céu Fialho: professora de Línguas e Literaturas Clássicas da Universidade de Coimbra.
Ilustração: A Apoteose de Homero, de Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1827 (Louvre, Paris. Wikicommons).
O post A ‘República’ de Platão apareceu primeiro em Estado da Arte.
Imagine um edifício que não só abriga pessoas, mas conta histórias, canaliza a luz divina e desafia as leis da física para tocar o infinito. “A arquitetura gótica”, disse o historiador Will Durant, “foi a suprema realização da alma medieval. Os homens que ousaram suspender estas abóbadas em umas poucas palafitas de pedra estudaram e exprimiram sua ciência com mais rigor e efeito que qualquer filósofo medieval em qualquer summa, e as linhas e harmonias de Notre Dame formam um poema maior que a Divina Comédia”.
As catedrais foram arte total em grande escala, abrigando em sua arquitetura todo tipo de atividade estética, da carpintaria à música. Com seus arcos ogivais, abóbadas nervuradas e vitrais que transformam luz em narrativa, os mestres góticos desafiaram a gravidade para glorificar a Deus. A matemática servia à mística e, mais do que medir, os números revelavam a criação divina. Enquanto os templos greco-romanos celebravam a harmonia terrena, os góticos fundiram arte, fé e ciência em pedra e vidro para conquistar, com a voracidade de seus antepassados bárbaros, o reino dos céus. Mas eles também amavam a terra e combinando a piedade e o humor, o êxtase e o terror, seus escultores entrelaçaram, entre anjos e demônios, santos sublimes e animais cômicos ou apavorantes.
A casa de Deus era a casa do povo. A catedral foi o coração das cidades medievais, um ponto de encontro para os cidadãos, uma escola de letras para seus filhos, uma escola de artes e ofícios para suas guildas. Como disse Victor Hugo, antes da imprensa “a arquitetura foi o grande livro da humanidade”: nas paredes de Notre Dame até os analfabetos liam a Bíblia. O Partenon em Atenas servia a uma elite para venerar deuses distantes, a catedral feudal era democrática e convidava Deus a habitar conosco: seus vitrais, como uma membrana entre o humano e o divino, iluminavam ricos e pobres, inundando os olhos de todos com a luz imaterial de Cristo.
Sem materiais sintéticos, guindastes ou computadores, só com pedras, cinzeis, cordas e compassos, multidões de arquitetos, artesãos, monges e camponeses anônimos ergueram estes castelos de luz entre a terra e o céu que sobreviveram a guerras, incêndios e revoluções. Quando, na era romântica, o homem moderno se cansou de mimetizar as formas greco-romanas, foi na arquitetura gótica que ele buscou reenergizar sua imaginação antes das convulsões criativas modernistas. Mais do que relíquias do passado, as catedrais são faróis de um sonho coletivo, o de unir o efêmero ao eterno; abertas a todos como uma Arca de Noé, elas avançam no tempo, como um navio de pedra que nos leva além, rumo ao matrimônio entre o novo Céu e a nova Terra.
Flavia Galli Tatsch, professora do departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo.
Ricardo Marques de Azevedo, professor de História da Arte da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo.
Tamara Quírico, professora do departamento de História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ilustração: Skyline da cidade de Colônia, Alemanha (Pixabay)
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Aristóteles definia o ser humano como o “animal que fala” – para o bem e para o mal. Os cristãos chegam a venerar o Verbo de Deus feito carne e acreditam que ele foi, como todos somos, tentado pelo “Pai da Mentira”. As palavras estão na origem de tudo que amamos na civilização, mas também dos crimes mais horrendos, sejam elas proferidas em cavidades da consciência individual ou em maquinações entre comparsas ou para inflamar multidões. É natural que as sociedades esperem de suas autoridades a supressão das falas perversas e a difusão das edificantes.
Mas há uns 300 anos alguns pensadores começaram a ventilar uma ideia que, como sugeriu o jornalista Jonathan Rauch, foi talvez a mais eficaz que os seres humanos já tiveram e também a mais contraintuitiva: a de que os governos deveriam não só tolerar falas errôneas, repugnantes, blasfemas ou subversivas, mas protegê-las, porque quando são ouvidas, disputadas e contestadas a céu aberto, nos ajudam a encontrar mais rápido a verdade e aprofundá-la; a nos fortalecer individualmente e a cooperar coletivamente; a tolerar diferenças, desmoralizar preconceitos e galvanizar o pluralismo. A criminalização de discursos ofensivos, longe de dissuadir os intolerantes, viraliza seus rancores, incentiva o autoritarismo e sufoca conversas sadias.
A aposta desse liberalismo epistêmico, analogamente à do liberalismo político e do econômico, é que as decisões devem ser distribuídas por redes sociais com um mínimo de autoridade e controle centralizados. Em defesa dessas ideias insólitas, os apologistas liberais lembram que antes só havia autocracias no mundo e 90% das pessoas viviam na extrema pobreza; hoje, metade da população mundial vive em democracias e menos de 10% é miserável.
Em meados do século XX, as Nações Unidas consagraram a liberdade de expressão como um direito humano universal, e, no final, a internet surgiu augurando uma era de ouro de manifestações individuais e debates livres de controles hierárquicos. Mas nas mãos de regimes totalitários as redes digitais se transformaram num aparato de repressão e manipulação inimaginável nos sonhos mais selvagens de Hitler ou Stalin. Se nas democracias a censura à imprensa foi desmoralizada, cresce o clamor pela tutela estatal contra discursos preconceituosos; as redes digitais tornaram-se instrumentos de coerção social por vanguardas políticas – sejam populistas de direita disseminando desinformação e teorias conspiratórias, sejam elitistas de esquerda exigindo conformidade aos seus dogmas –; e a liberdade de expressão nunca foi tão ameaçada por aquilo que os primeiros pensadores da democracia mais temiam: a “tirania da maioria”.
Diogo Costa: mestre em ciência política pela Universidade de Columbia e presidente da Foundation for Economic Education.
Eduardo Wolf: professor de filosofia da Universidade de Brasília e pesquisador da Cátedra Unesco-Archai sobre as Origens do Pensamento Ocidental.
Fernando Schüler: professor de ciência política do Insper e pesquisador da Cátedra Palavra Aberta sobre liberdade de expressão e de imprensa.
Ilustração: Wikicommons.
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O que você conquistou aos 30 anos? O filho de Felipe da Macedônia estudou com o maior filósofo de seu tempo – talvez de todos os tempos –; unificou as cidades-estado gregas após séculos de disputas fratricidas; viajou mais de 30 mil quilômetros na aventura possivelmente mais audaciosa da história humana; fundou 70 cidades; elevou-se ao Olimpo dos maiores generais de todos os tempos, como César, Gengis Khan ou Napoleão, mas, diferentemente deles, lutava na linha de frente e jamais perdeu uma batalha; conquistou o mais poderoso império de seu tempo e criou o maior império que a humanidade já vira, estendendo-se dos Balcãs até a Índia; Alexandre até se tornou um deus.
Caracterizá-lo, como fizeram alguns modernos, como um “príncipe da paz” idealizador dos direitos humanos universais e da comunidade das nações unidas é abusar do romantismo ao ponto do delírio. Alexandre, o grande herói, foi também um grande criminoso, que escravizou compatriotas, incinerou cidades, exterminou populações, assassinou amigos por despeito – e, há quem diga, até seu pai por ganância. Aos 32 anos, parecia-se cada vez mais com um déspota oriental cheio de caprichos cruéis e autodestrutivos. A morte prematura, por alguma moléstia ordinária potencializada pelo abuso do álcool, talvez tenha sido uma benção que lhe poupou fracassos e infâmia. E, talvez, por justiça poética, o preço de sua ambição desmedida tenha sido a dissolução instantânea de seu império.
Dizem que Alexandre chorou ao pensar nos mundos que nunca conquistaria. Mas seu legado ignora fronteiras de tempo e espaço. Seu sonho de fundir num império multicultural e multilinguístico as duas superpotências de seu tempo, a Grécia, no Ocidente, e a Pérsia, no Oriente, foi tão improvável e espetacular quanto fundir os Estados Unidos à União Soviética nos tempos da Guerra Fria ou à China hoje. Como a carreira intelectual de seu mestre Aristóteles, sua carreira militar foi feita de conquistas e sínteses. As conquistas territoriais que ele consumou criaram o espaço para o Império Romano; e as sínteses espirituais que ele inaugurou gestaram o tempo da Cristandade.
Delfim Leão: professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra.
Henrique Modanez: professor de história antiga da Universidade de Brasília.
Thiago Biazotto: pesquisador de pós-doutorado em história helenística da Universidade Estadual de Campinas.
Ilustração: Estátua e busto de Alexandre, o Grande, no Museu Arqueológico de Istambul.
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Quando o Império Romano morreu? Se você pensou no século Vº, errou por mil anos. É compreensível. O Império Romano do Oriente é praticamente terra incognita nos currículos escolares, pesquisas acadêmicas, mercados editoriais e estúdios cinematográficos. Mesmo admiradores de Roma desdenham essa saga milenar como “uma história monótona de intrigas de padres, eunucos e mulheres, de constante envenenamento, conspirações, ingratidão e fratricídio” (William H. Lecky). Para iluministas como Edward Gibbon, foi o “triunfo da barbárie e da religião”; “uma coleção inútil de orações e milagres”, segundo Voltaire; “um tecido de rebeliões, insurreições e traições”, “o trágico epílogo da história de Roma”, segundo Montesquieu. Não surpreende que na consciência popular o adjetivo “bizantino” reverbere obscurantismo, futilidade, cerimonialismo, e particularmente querelas labirínticas, bizarras, extravagantes, sinistras. Em suma, a traição do que havia de melhor na Grécia e na Roma clássicas.
Mas, francamente, isso exala na melhor das hipóteses paroquialismo, na pior, ingratidão. Por séculos, Bizâncio foi um escudo da Cristandade contra hordas asiáticas, vândalos africanos, os xás da Pérsia e os califas de Bagdá – sem ele a “Europa” não existiria e provavelmente nós ocidentais estaríamos de joelhos para Alá cinco vezes ao dia. Enquanto o império romano ocidental era despedaçado por tribos bárbaras, Bizâncio consagrou-se como o maior poder do Mediterrâneo, e Constantinopla, a metrópole mais cosmopolita e exuberante da Idade Média. Foi sobre o corpo de Bizâncio que os turcos otomanos ergueram seu império, reconfigurando o universo islâmico até os nossos dias. Foi o espírito de Bizâncio que civilizou os Balcãs, animou o embrião da Rússia e inspira até hoje a visão messiânica de Moscou como a “Terceira Roma”. Duas vezes mais longevo que o império romano clássico, foi Bizâncio que realizou o sonho arcano de Alexandre o Grande. Fundindo a cultura helênica, a administração romana, a mística asiática e a fé cristã, Bizâncio preservou as letras gregas, arquitetou a teologia ortodoxa, criou a arte sacra mais carregada de espiritualidade de todos os tempos e cimentou os códigos que alicerçam nossos sistemas jurídicos. A maioria das civilizações vive um ciclo de aurora, apogeu e crepúsculo, mas, provando seu vigor e flexibilidade, Bizâncio viveu pelo menos dois. E quando finalmente morreu, seu espírito insuflou o Renascimento na Itália, inaugurando a aventura moderna.
Tão fascinante, tão incompreendida, tão distante de nós e tão inusitadamente como nós, qual será a verdadeira história desta ponte de ouro entre a antiguidade e a modernidade, entre o Oriente e o Ocidente?
Bruno Tadeu Salles: professor de história medieval da Universidade Federal de Ouro Preto.
Renato Viana Boy: professor de história medieval da Universidade Federal da Fronteira do Sul.
Ilustração: Capela Palatina (1132-1143), no Palácio Real de Palermo, na Sicília, encomendada pelo rei normando Rogério II. (Fonte: SmartHistory. Foto de A. Fein).
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A vida pode ser dura. Imagine que você é um órfão adotado pelos opressores de seu povo, perseguido pelos poderosos, refugiado entre seminômades. Você tem um temperamento instável, ora colérico ao ponto da selvageria, ora hesitante ao ponto da covardia, e, ah, sim, tem a língua presa. Já velho, você é forçado a contragosto a retornar e conduzir por um caminho árido um povo que vê você e sua família como estrangeiros e está sempre se rebelando, rumo a uma terra na qual será proibido de pôr os pés. O que é você senão uma pecinha insignificante na engrenagem do mundo, uma gota no imenso rio da história?
E, no entanto, como disse um historiador, Moisés “ilustra o fato, que grandes historiadores sempre reconheceram, de que a humanidade não progride invariavelmente por passos imperceptíveis, mas às vezes dá um salto gigante, frequentemente sob a propulsão dinâmica de uma personalidade solitária e extraordinária”. Seu monoteísmo ético desencadeou o processo pelo qual toda a visão de mundo da antiguidade foi destruída. Moisés não foi um dos muitos heróis e reis do mundo antigo, muito menos um semideus ou deus. Ele foi menos do que tudo isso, mas em certo sentido foi mais, assim como foi menos e mais que um profeta, um legislador, um libertador, um fundador espiritual. Há algo de profeta em Moisés, mas aquele que consumou a aliança entre Deus e seu povo não foi só mais um dos infindáveis mensageiros dessa aliança. Há algo de legislador, mas não como um mero codificador de regras e regulamentos e sim como enunciador de leis eternas. Há algo de historiador naquele que não escreveu a Torah, mas contou estórias consagradas nela e mudou a história da humanidade. Ele foi um libertador, não como um Garibaldi israelita, mas como alguém que libertou seu povo da submissão ao Faraó para submetê-lo a Yaweh. Foi um fundador espiritual, mas não fundou uma religião, só liderou um povo que é minúsculo até hoje, e ao fazê-lo lançou os fundamentos das duas religiões mais populares de todos os tempos. Abraão foi o pai do povo judeu, mas Moisés foi seu criador. A história do Genesis é a do nascimento de uma família; a história do Êxodo, a do nascimento de uma nação. Na primeira, Deus reserva para si o sangue de um povo, na segunda, sopra através desse povo seu espírito no mundo. Hoje, não só os judeus, mas cristãos e muçulmanos adoram o Deus revelado por Moisés. Para quase 60% da população mundial sua lei é sagrada, e, com exceção do extremo Oriente, sua fé é predominante em todas as regiões do planeta.
Carlos Augusto Vailatti: professor da Faculdade Evangélica de São Paulo e autor de As Dez Pragas e a Abertura do Mar.
Ruben Sternschein: reitor da Academia Judaica da Congregação Israelita de São Paulo.
Suzana Chwarts: diretora do Centro de Estudos Judaicos da Universidade de São Paulo.
Ilustração: Moisés. San Pietro in Vincoli, Roma. De Michelangelo Buonarroti (c. 1513-15).
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Quando o visigodo Alarico saqueou Roma 66 anos antes da queda de seu último imperador, Romulus Augustus – nome composto ironicamente pelos do primeiro imperador e do fundador de Roma –, São Jerônimo lamentou “a extinção da luz mais resplandecente de toda a Terra”, quando “o Império perdeu sua cabeça” e “o mundo pereceu em uma cidade”. Um século antes, Lactâncio afirmava que o mundo pode acabar rápido, mas não há nada a temer enquanto a cidade de Roma permanecer intacta. Desde então, as invasões bárbaras viraram o arquétipo da brutalização da vida civilizada, o “Declínio e Queda do Império”, na fórmula proverbial de Gibbon. Porém, como ele descreveu, o Império só caiu 1.000 anos depois em Constantinopla. Das letras e dos letrados resgatados de lá, a Itália concebeu o Renascimento, dando à luz a modernidade, em que o espírito de Roma inspiraria desde as artes clássicas às políticas republicanas, e hoje, como sempre, multidões de católicos são lideradas Urbi et Orbi pelo bispo da Cidade Eterna. Para os iluministas inebriados de classicismo, a sua queda foi o mergulho na “Idade das Trevas”.
Mas não seria a Idade Média uma idade de luz? A engenhosidade arquitetônica de suas catedrais góticas é mais fulgurante que qualquer maquinação romana para copiar os gregos; seus cavaleiros se bateriam aos maiores centuriões; seus escolásticos inventaram a universidade; seus poetas, o romance, e, do menor deles, surgiu talvez o mais são dos santos, Francisco. O Sacro Império Romano-Germânico, gestado numa noite de Natal pelo papa na basílica de São Pedro com a coroação do rei franco Carlos Magno, imperou mil anos até ser esmagado sob a bota do imperador francês Napoleão. As Letras latinas são belas, bárbaras, mas sua língua morta só frutifica barbarizada em pedaços nas nossas línguas românicas. Não é à República romana que a Inglaterra tributa seu parlamentarismo democrático e sua monarquia constitucional, mas às ligas tribais de celtas, anglos, saxões, bretões, normandos. A consciência e a arte germânicas são povoadas dessas bestas loiras que Nietzsche amava: Thor, Siegfried, Artur, Parsifal, Tristão, Isolda. Para Hegel, esse povo consumava a apoteose do Espírito Divino, inaugurando o império da verdade e da liberdade para o Universo. As igrejas protestantes, as nações e Estados europeus, nosso Novo Mundo americano – além dos eslavos, a Rússia, sua revolução, sua literatura, sua religião ortodoxa herdada do Império romano dos gregos em Bizâncio junto com o mito messiânico da Terceira Roma –, nada existiria como conhecemos não fossem os bárbaros.
Nem só legiões de Conans, vândalos e valquírias, nem cosmopolitas nórdicos, eram muitas vezes tribos civilizadas fugindo de tribos bestiais, ora abatendo Roma, ora se abrigando nela, ora combatendo seus invasores. O que conquistaram afinal? A morte de uma esplêndida civilização carcomida? Sua ressurreição pela barbárie? E o que revelam em nosso tempo de “invasões verticais dos bárbaros” e “tribos globais” e rebeliões das massas de imigrantes e refugiados – como o foram, aliás, os pais de Roma, bastardos selvagens como Rômulo e Remo e hordas asiáticas como os troianos de Eneias, o piedoso?
Adrien Bayard: doutor em História Medieval pela Universidade de Sorbonne em Paris.
Marcelo Cândido: professor de História Medieval na Universidade de São Paulo
Renato Viana Boy: professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal da Fronteira do Sul.
Ilustração: A Batalha de Ludovisi. Sarcófago romano (c. 250-260 d.C.)
Produção técnica: Afrânio Cruz. Gravação original 22 de outubro de 2018
O post As invasões bárbaras apareceu primeiro em Estado da Arte.
Algumas escolas filosóficas gregas exprimiram recortes tão profundos da existência humana que em nossos dias se generalizaram em adjetivos. Quando dizemos que um sujeito é “cínico” ou “cético” esquecemos que estas são reduções simplistas de doutrinas complexas fermentadas em longas tradições. “Estoico” é popularmente um sujeito rígido no cumprimento do dever e imperturbável na desgraça. Há alguma verdade nisso, mas é só a superfície de um universo de ideias.
Como todos os descendentes de Sócrates, os estoicos buscaram obstinadamente responder uma única questão necessária: como viver uma vida digna de ser vivida? A resposta cética levava a um quietismo paralisante; a cínica, ao desprezo pela sociedade; a epicurista, ao individualismo hedonista, e nenhuma era compatível com o autocontrole e os sacrifícios necessários à vida coletiva. As religiões ancestrais já não cumpriam essa função; as velhas cidades-estado já não elevavam o ser humano à abnegação. Os gregos educados buscaram os consolos para as crises da vida na filosofia e pediram a ela uma visão de mundo que desse sentido à existência e uma esperança além da morte. O estoicismo foi a última tentativa da antiguidade de encontrar uma ética natural, e antecipando não só a ética, mas a teologia do cristianismo, os estoicos conceberam o mundo, a lei, a vida, a alma e o destino em termos de Deus, e definiram a moralidade como um desejo de se render à vontade divina. “Viver de acordo com a razão”, “viver de acordo com a virtude”, “viver de acordo com a Natureza” e “viver de acordo com Deus” são uma só e mesma coisa. Deus é, como o ser humano, uma matéria viva; o mundo é seu corpo, a ordem e a lei do mundo são sua mente e sua vontade; o universo é um organismo colossal do qual Deus é a alma, o sopro que anima, a razão que ilumina. O ser humano é para o universo como um microcosmo para um macrocosmo. A felicidade é só o ajuste racional de nossas vontades às leis do universo. O estoico se satisfaz com pouco, aceita sem reclamar as agruras da vida, é indiferente a tudo – a doença e ao prazer; ao opróbrio e à fama; à liberdade e à servidão; à vida e à morte – exceto à busca pela virtude e à aversão ao vício.
Em tese, era uma doutrina monstruosa de uma perfeição isolada, severa, prepotente e implacável. Na prática, forjou homens de coragem, santidade e boa vontade. Foi a filosofia mais popular do mundo antigo, e a mais versátil, encarnando-se em figuras tão díspares como, na Grécia, o fundador Zenão, um semi-semita rico que trocou a fortuna pela simplicidade, ou o pugilista asiático Cleantes; e, em Roma, o estadista Catão; o escritor Sêneca; o escravo Epicteto; ou o imperador Marco Aurélio. Os estoicos fizeram um esforço honesto para erguer uma ponte entre a religião e a filosofia; sua doutrina manteve a sociedade antiga íntegra até que uma nova fé viesse animá-la. Após a Idade Média, influenciaria o cristianismo protestante, especialmente calvinistas e o puritanos, mas também os iluministas, e de todas as escolas antigas, é em nossos dias, mesmo quando no anonimato, a mais influente, seja qualificando manuais de autoajuda, seja instruindo técnicas psicoterapêuticas, e não há por que duvidar que seres humanos de todos os tipos, em todo o mundo, continuarão a buscar no estoicismo a disciplina e a inspiração para viver a vida digna de ser vivida, até o final dos tempos.
Aldo Dinucci: professor de filosofia antiga da Universidade Federal do Espírito Santo.
Eduardo Wolf: professor de filosofia antiga da Universidade de Brasília.
Renata Cazarini: professora de letras clássicas da Universidade Federal Fluminense.
Ilustração: Self made man. Escultura de Bobbie Carlyle. Douglas County Library (Parker, Colorado, EUA). Foto (em preto e branco) de Joel A. Rogers (www.coastergallery.com).
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Há 100 milhões de anos, uma massa de terra hoje batizada América se desprendeu do supercontinente conhecido como Pangea. Há 40 mil anos, humanos pioneiros na Sibéria cruzaram uma ponte de terra até o Alasca. Depois disso, o continente desapareceu para o resto do mundo. Então, em 1492, um almirante genovês – valendo-se da bússola inventada na China, de conceitos matemáticos do Egito, um sistema numérico da Índia e cálculos astronômicos árabes redigidos com letras romanas – lançou-se no Atlântico à frente de três caravelas espanholas em busca de especiarias da Ásia, e fez a descoberta que seria o evento mais importante da história mundial no último milênio. Inadvertidamente, Colombo reuniu a humanidade e inaugurou a “aldeia global”.
Das colisões, convergências e misturas de três povos – indígenas, europeus e africanos – nasceu um Novo Mundo, que deu ao Velho Mundo frutos preciosos, a começar pelo sentido literal: você consegue imaginar a culinária universal sem o tomate, a batata, o milho ou o chocolate? Acrescente a esta cesta o tabaco e a borracha. Mas as dores do parto foram terríveis. Em 300 anos, 15 milhões de africanos foram arrancados de seu continente, na maior imigração forçada da história mundial. Os conquistadores trouxeram não só os dons culturais e materiais da Europa, África e Ásia, mas também seus germes e armas. Entre 80% a 90% dos nativos foram dizimados, a esmagadora maioria por pestes como sarampo, catapora, tifo e difteria, mas muitos pelo aço europeu. A conquista militar dos impérios e terras dos indígenas foi consumada por uns poucos milhares de europeus em algumas dezenas de anos, mas a conquista dos corações e mentes jamais seria completada. Os colonizadores criaram novas nações com os sistemas políticos, legais e linguísticos europeus, mas nas regiões onde grandes populações indígenas persistiram e grandes números de escravos foram importados emergiram sociedades ocidentais na superfície e não-ocidentais no fundo.
Onde estará a verdade entre a narrativa triunfalista dos europeus trazendo a civilização aos selvagens e a narrativa vitimista dos opressores perversos brutalizando oprimidos inocentes? Quais as grandes virtudes e vicissitudes das heranças coloniais para a América Latina e a América Anglo-saxã? E como as primeiras podem ser potencializadas e as segundas superadas para consumar a fusão dos três povos e integrar suas nações em um mundo genuinamente novo, justo e próspero?
Janice Theodoro: Professora de história da América da Universidade de São Paulo.
Leandro Karnal: Professor de história cultural da Universidade Estadual de Campinas.
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: Professor de história da América da Universidade Estadual de Campinas.
Ilustração: Chegada de Hernán Cortés em Vera Cruz. Detalhe do mural “A Epopeia do Povo Mexicano”, no Palácio Nacional, Cidade do México. De Diego Rivera, 1929-35. (Wikimedia Commons).
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Imagine que você está tendo um dia bom. Um dia ótimo, na verdade! Cada ideia que vem à cabeça – e elas jorram! – é excitante. Cada fala é inspiradora. Pessoas medíocres te irritam. Mas você cativa todo mundo com sua vivacidade. Você se sente energético, desinibido, confiante, otimista. Nenhum erro é incorrigível, nenhum obstáculo é invencível. O futuro é luminoso. Você pode mover corações e mudar o mundo. Talvez seja um visionário, um reformador, um gênio, um profeta enviado por Deus. Quem sabe o próprio Deus! Ou, talvez, seja só um lunático… Não foi um dia, foram vários, muitos sem dormir. Você está numa cama de hospital, perdeu o emprego, está afundado em dívidas, os amigos estão afastados, a família, assustada.
Mas talvez esse tipo de euforia seja alheia e distante. Você está mais familiarizado com achaques de melancolia. Eles vêm sem nenhum motivo aparente, mas você sabe que têm razão de ser. Entre a apatia e a agitação, você tem poucas ambições e as poucas que tem sabe que são irrealizáveis. Você tem algum defeito inexplicável para as pessoas; é um estorvo para as mais próximas; se constrange em encontros sociais – melhor evitá-los. Nada acontece como deveria, e tudo por culpa sua. O passado é uma sucessão de erros irreversíveis e oportunidades desperdiçadas; o presente é doloroso; o futuro, opressivo. Sua vida é um fracasso, e sempre será. A angústia jamais passará, a menos que você corte o mal pela raiz. O único alívio é a morte.
Imagine agora oscilar perpetuamente entre os dois extremos, às vezes lançado de um ao outro no mesmo dia, às vezes até vivenciando ambos ao mesmo tempo. Como disse um maníaco-depressivo: “É ter a motivação de mudar o mundo num momento, e depois não ter a motivação para tomar banho”.
Estima-se que o transtorno bipolar afete de 1% até 4% das pessoas. A mania pode pôr a sua vida e a de outros em perigo. A depressão é a principal causa de incapacitação e suicídio. Por volta de 30% a 40% das pessoas com esse distúrbio se ferem a si mesmas, e a mesma proporção tem comportamentos autodestrutivos e problemas financeiros, sociais ou profissionais, agravados por estigmas e preconceitos.
Quais as causas do transtorno bipolar? Como tratá-lo? Quais as esperanças de uma cura?
Beny Lafer: professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo.
Flávio Kapczinski: professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Valentim Gentil Filho: professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo.
Ilustração: Máscaras de comédia e tragédia (Fonte: OnBlogStage)
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