
Sign up to save your podcasts
Or


Você já imaginou como seria viver a vida de um grande artista? E de um grande estadista ou um grande pensador? E que tal tudo isso numa única vida? O ideal do “homem universal” foi consagrado no Renascimento, mas é plausivelmente tão antigo quanto a humanidade. É curioso, contudo, que dentre todos os bilhões e bilhões de seres humanos que já existiram haja tão raros candidatos a este título. Platão foi o patriarca dos filósofos e um escritor de talento, mas um político frustrado que expulsou os poetas de sua República ideal. Pascal, um grande cientista, filósofo e teólogo, mas demasiado atormentado e recluso. Mesmo o ícone Leonardo da Vinci foi um pintor extraordinário, mas produziu pouco nas outras artes. Suas invenções são sonhos irrealizáveis e não deixou nada digno de nota na filosofia.
Johann Wolfgang von Goethe também tinha suas limitações. Ele desconfiava das abstrações da filosofia. Foi administrador público – mas de um ducado menor. Um cientista dedicado – mas mais inspiracional que efetivo. Um pintor amador, um historiador diletante, um diplomata de ocasião. Mas de todos os “homens universais” foi o maior dos poetas. Primeiro escritor alemão de estatura inquestionável e o mais celebrado desde então, talvez nenhum outro em todos os tempos e lugares tenha o seu alcance e variedade. Ele produziu obras primas em praticamente todos os gêneros: poesia lírica, épica, dramática, erótica, romances, autobiografia, aforismos, ensaios, crônica, crítica literária e artística. Ele é para o Iluminismo o que Shakespeare foi para o Renascimento e Dante para a Idade Média. Seu Fausto, foi o maior poema longo desde a Divina Comédia e o Paraíso Perdido de Milton, e o drama mais emblemático da era moderna.
Sua vida coincidiu com o período mais excitante e criativo desde o Renascimento. Ele atravessou da Revolução Francesa às guerras napoleônicas até a eclosão da burguesia industrial e das democracias liberais. Usando sua experiência e criatividade, radiografou estas metamorfoses e fascinou os maiores artistas, estadistas e filósofos. “Eis um homem!” exclamou Napoleão aos seus oficiais. Para Marcel Proust, é “a maior inteligência que já existiu”. Para Stefan Zweig, “o mais sábio dos sábios”. “Minha ambição, meu tormento e minha alegria”, disse Nietzsche, era “viajar por toda a circunferência da alma moderna e ter sentado em todos os cantos … Verdadeiramente superar o pessimismo, e, como resultado, adquirir os olhos de Goethe – cheios de amor e boa vontade”. Em Goethe, o ideal do homem universal atingiu seu auge e seu fim. Mas ele deixa a cada um de nós uma provocação que reverberará pelos séculos: você pode viver a vida como uma obra de arte?
Daniel Martineschen: professor de língua e literatura alemã da Universidade Federal de Santa Catarina e tradutor do Divã ocidento-oriental de Goethe.
Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Goethe do Brasil.
Sylk Schneider: curador, tradutor, intérprete e autor de Viagem de Goethe ao Brasil.
Ilustração: Goethe em Weimar, aos 30 anos. Por Georg Melchior Kraus (1778, Wikimedia Commons).
O post Goethe apareceu primeiro em Estado da Arte.
Imagine guerreiros descendo do céu, combatendo monstros e vilões com poderes sobrenaturais e armas mágicas, salvando comunidades inteiras da destruição. Por inacreditável que pareça, essa foi a realidade para a esmagadora maioria da humanidade, desde a época dos deuses e titãs das aventuras de Hércules, Gilgamesh, Sansão ou Homero, até a dos arcanjos, demônios e cavaleiros da Cristandade. Hoje, tudo isso foi relegado ao universo dos super-heróis, um mundo que pessoas sofisticadas menosprezam como um passatempo vulgar e infantil.
Mas pense bem. Se nossa sociedade industrializada e desencantada já não é movida pela fé ou pela honra, mas pelo dinheiro, esses paladinos atléticos com uniformes colantes, codinomes emblemáticos, máscaras e capas coloridas não estão para brincadeira. Surgidos na Grande Depressão econômica, hoje os super-heróis energizam uma indústria mamute, uma usina de bilhões e bilhões de dólares em filmes, videogames, merchandise, desenhos animados, brinquedos, parques, feiras e, sim, revistas em quadrinhos. Por sinal, um único quadrinho amplificado por artistas como Roy Lichtenstein ou Andy Warhol pode ser objeto de culto e peregrinação em museus. Na sétima arte, os super-heróis já mesmerizaram diretores reputados como Christopher Nolan, e um vilão como o Coringa já consagrou ao menos um filme cult. Considere o valor inestimável (ainda que subestimado) desse universo para os estudiosos do fenômeno humano: sociólogos, psicólogos, filósofos, teólogos até. Suas explosões de cores, testosterona e acrobacias são o primeiro choque das crianças com a criação artística, e o canal que as introduz nos dramas do mundo adulto: os conflitos morais, a perversão do poder, a paixão do mal que vibra em nós através dos vilões que amamos odiar. É um espelho ampliado das esperanças mais espetaculares das massas contemporâneas, e de suas ansiedades mais aterrorizantes: da criminalidade urbana às hecatombes nucleares; da manipulação genética à Super Inteligência Artificial. Com suas aventuras intergalácticas, viagens no tempo, multiversos, ressurreições, civilizações alienígenas, as epopeias dos super-heróis extravasam os sonhos mais fabulosos das ciências.
Fundindo palavras e imagens, literatura e pintura, seus criadores, armados só com tinta, papel e caneta, conseguiram satisfazer as ambições de artistas eruditos, como Richard Wagner, de criar uma “obra de arte total” e uma “mitologia moderna”, a um tempo mais popular e mais arrojada. Talvez os super-heróis sejam não só os maiores depositários da nossa nostalgia pelo combate puro e brutal do bem contra o mal, que muitos apaziguam idealizando heróis do passado – de guerreiros aristocratas, como samurais e cavaleiros medievais, a vingadores solitários, como ninjas e cowboys –, mas também a chave para a humanidade do terceiro milênio, a antecipação visionária de supercorpos servidos por supertecnologias. Quando se olha as promessas comprimidas no universo dos super-heróis, quase se é tentado a parafrasear o Evangelho: se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino do futuro.
André Cáceres: jornalista, crítico, editor e autor dos romances de ficção científica Nebulosa e Esperando o Dono.
Bruno Andreotti: doutor em história pela PUC de São Paulo, editor do site Quadrinheiros e organizador do livro Super-Heróis e Política.
Nathália Thomaz: doutora em literatura juvenil pela USP e editora da Revista Literartes.
Ilustração: Heróis da Marvel v. DC Comics. (Fonte: Akiracomics.com)
O post Super-heróis apareceu primeiro em Estado da Arte.
O que você pensa quando pensa no Renascimento? Talvez na apoteose das artes plásticas? Ou na ressurreição dos poetas, filósofos e deuses greco-romanos, de suas aventuras e orgias? Na fundação dos Estados nacionais? Na expansão da burguesia mercantil? Enquanto cavaleiros da Cristandade expulsavam califados da Europa e corsários do Mediterrâneo, seus navegadores redescobriam os tesouros da Ásia e rompiam a clausura da América. A fé medieval em Deus, ainda profunda e ardente, fundiu-se a uma nova fé na Humanidade: a confiança em seu poder de conquistar a Natureza com as ciências, de consumar o matrimônio entre o Céu e a Terra, de gerar um Novo Mundo. “Coloquei-te no centro do mundo”, disse Deus a Adão no diálogo vislumbrado pelo filósofo Pico della Mirandola, “para que possas observar mais facilmente tudo o que existe no universo. Nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal te criamos, a fim de que possas, como um livre e extraordinário escultor de ti mesmo, plasmar a tua própria forma tal como a preferires. Poderás degenerar-te nas formas inferiores, que são animalescas; poderás, segundo a tua decisão, regenerar-te nas formas superiores, que são divinas”.
Entre as luzes crepusculares da Idade Média e as matinais da Modernidade, destacava-se uma nação, a Itália, e no centro dela uma cidade, Florença, e acima dela uma família, os Medici. Essa dinastia de banqueiros conduziu a pátria de Dante à sua era de ouro, gerou quatro papas para Roma e uma rainha para a França, que gerou três reis. Michelangelo, Leonardo, Donatello, Botticelli, Brunelleschi, Alberti, Rafael, Galileu, Monteverdi, quase todos os titãs da Renascença foram em algum grau beneficiados pela patronagem Medici. Veja o jovem Lorenzo, o “Magnífico”: “Nada pode ilustrar melhor os costumes, a complexidade e a diversidade do Renascimento italiano que a imagem de seu personagem mais central governando um Estado, administrando uma fortuna, disputando torneios, escrevendo excelente poesia, apoiando judiciosamente artistas e escritores, misturando-se facilmente com acadêmicos e filósofos, camponeses e bufões, marchando em procissões, cantando canções obscenas, compondo hinos suaves, brincando com cortesãs, gerando um papa, e sendo honrado pela Europa como o maior e mais nobre italiano de seu tempo” (Will Durant).
Essa cornucópia de riquezas e poder veio com um preço. “Não se governa um Estado com ‘Pais Nossos’”, dizia o patriarca Cosimo. As intrigas shakespeareanas, a brutalidade quase mafiosa, as vaidades que arderam nas fogueiras de Savonarola, o cinismo dissecado por Maquiavel, deixariam a Itália fracionada e subserviente por séculos. Mas se entre os potentados renascentistas os Medici estiveram longe de cometer os piores desses pecados, como mecenas das artes e do conhecimento jamais foram igualados na história da Humanidade, e mesmo após o seu declínio e queda no século XVIII, seus frutos nas ruas de Florença, em palácios, museus, bibliotecas, igrejas e telas de todo o mundo, continuam a inspirar os seres humanos a se regenerarem como criaturas divinas; a criar, com suas mãos, movidos pela sua fé, um novo Céu e uma nova Terra.
Luciano Migliaccio: professor de história da arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Luiz Felipe D’Avila: cientista político e autor de Cosimo de Medici. Memórias de um Líder Renascentista.
Newton Bignotto: professor de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Ilustração: “A Adoração dos Magos”, óleo sobre tela de Sandro Botticelli (c. 1485/86), com diversos membros da família Medici retratados. Galleria degli Uffizi, Florença. (Fonte: Wikimedia Commons).
O Grande Teatro do Mundo — Os promotores do humanismo, por Jacob Burckhardt.
O post Os Medici apareceu primeiro em Estado da Arte.
Em geral a ciência avança como se resolvesse enigmas: a solução existe, os dados estão lá, basta encaixá-los, como um quebra-cabeças. Considere a evolução. A humanidade teve de esperar até Darwin para a teoria da seleção natural. Mas uma vez de posse dela, pode explicar perfeitamente como cada espécie surge e porque é como é: um organismo gera diversos descendentes, os mais adaptados ao ambiente vivem mais e geram mais descendentes, os menos adaptados geram menos e desaparecem.
Mas ao menos três fenômenos cruciais nos desafiam não como um enigma, e sim como um mistério: quanto mais dados juntamos, quanto mais respostas encontramos, mais questões surgem. Um desses mistérios é a origem do universo; outro, é a origem de uma criatura, o ser humano, capaz de compreender e transformar esse universo – ou ao menos tentar. E entre um e outro há o mistério da origem da vida.
Não sabemos ao certo sequer o que estamos buscando. O que é, afinal, a vida? Os cientistas já nomearam cerca de 1,8 milhão de espécies, mas estimam que haja 1 trilhão, e elas representam menos de 1% de todas que já existiram. Estudiosos já listaram mais de 100 características da vida. Ao menos duas parecem literalmente vitais: a reprodução e o metabolismo. Mas mesmo nelas há exceções. Cristais se replicam, mulas não. Até a morte é incerta: há bactérias que permanecem inertes por milhares de anos e depois, por assim dizer, “ressuscitam”. Parafraseando o que Santo Agostinho dizia sobre o tempo, “Se ninguém me pergunta o que é a vida, eu sei o que é. Se tento explicá-la a quem me pergunta, não sei”.
Abstraindo as exceções, seres vivos se reproduzem; para se reproduzir, crescer e se mover, alteram elementos químicos que geram energia; e, para isso, precisam de um corpo a um tempo impermeável para bloquear substâncias nocivas e permeável para absorver as úteis e expelir os restos. Para alguns, a síntese dessas características é tão improvável, que é como esperar montar um quebra-cabeças chacoalhando suas peças. Para outros, dadas as condições ambientais e os elementos certos, o surgimento da vida é uma necessidade natural. Mas eles não estão nem perto de explicar como funções tão complexas e interdependentes emergem simultaneamente. Milagre ou necessidade, a origem da vida continua a quebrar cabeças.
Amâncio Friaça: professor de astronomia da Universidade de São Paulo;
Jorge Ernesto Horvath: professor de astrobiologia da Universidade de São Paulo;
Miriam Forancelli Pacheco: professora de paleontologia da Universidade Federal de São Carlos
O post A Origem da Vida apareceu primeiro em Estado da Arte.
Você já ouviu essas críticas a artistas contemporâneos? “Uns lunáticos esparramam manchas de tinta, assinam o troço e se chamam revolucionários”; “eles não têm conhecimentos sólidos e acham que suas emoções bastam para chamá-las arte”; “uma criança faria”; “é feio”; “não dá pra comparar com um Monet ou Renoir”. E, no entanto, esse é o tipo de crítica que faziam a Monet e Renoir. “Impressionismo”, como “gótico” ou “barroco”, foi originalmente um termo de ridicularização.
Por séculos os pintores perseguiram uma precisão fotográfica. A fotografia tornou as cópias utilitárias obsoletas, mas os românticos estavam livres para usar essa precisão recriando cenas da natureza, da história ou da mitologia. Os realistas deram as costas às igrejas e palácios e encontraram beleza em operários quebrando pedras. Mas até a invenção de apetrechos como bisnagas de tinta e cavaletes portáteis os quadros eram pintados no estúdio. Os impressionistas pintavam ao ar livre. Deve ter sido a sensação dos artistas da idade da pedra quando pintaram fora das cavernas, ou de um fugitivo da caverna de Platão. As paisagens, as alegrias mundanas, a palpitação urbana se ofereciam aos seus olhos e falavam por eles. Eles podiam quebrar os raios de luz, captar sua vibração no ar, segui-los enquanto deslizam nos objetos e os envolvem com cor. Mas um quadro não era mais mera janela. Já Manet descobrira que o mundo da pintura tem “leis naturais” distintas das da realidade familiar, e a lealdade do pintor é primeiro para com a tela.
Muito da história da arte moderna é a estória dos desdobramentos do impressionismo ou reações a ele. Em 10 anos já havia “neo-impressionistas” ou “pós-impressionistas” insatisfeitos. A insatisfação de Cézanne com a negligência dos impressionistas à ordem e equilíbrio da arte, às formas sólidas e duráveis, levaria ao cubismo; a de Van Gogh com sua submissão das paixões expressivas às impressões visuais levaria ao expressionismo; a de Gauguin com as complexidades da arte e da vida aos primitivismos. Quando Monet morreu, Picasso já distorcia a realidade ao seu bel prazer e Mondrian a abstraia por completo. Os artistas estavam livres da tirania da objetividade para explorar seu universo interior, muitos ousaram se dizer livres da tirania da Beleza. Mas estariam livres da tirania dos modismos, do capricho, do mercado, da massificação? Essas tentações já estavam em germe no impressionismo. Em 1910, a impressionista pioneira Mary Cassatt denunciava as obras de Monet como “papel de parede”, e era possível comprar seus nenúfares em barras de chocolate, cigarros ou canecas. Ainda podemos discernir o valor dessas pinturas por trás dos leilões multimilionários e da mitologia sobre seus pintores?
Mas talvez haja uma razão para sua consagração por artistas, eruditos e massas. Talvez tenha sido o instante mágico que combinou a sede de liberdade individual dos artistas modernos com a devoção a ideais coletivos de beleza, verdade e nobreza dos antigos, a paixão pela expressão dos sentimentos e a paixão pela representação dos objetos, como se as visões prodigiosas de um Giotto fossem animadas pelas energias explosivas de um Pollock. Mesmo o mais fiel às primeiras impressões impressionistas, Monet, já rico, famoso, com olhos octogenários e esclerosados, criaria, diluindo plantas aquáticas em reflexos de luz e cor, o impossível: a fusão da representação concreta com a imaginação abstrata.
Ana Cavalcanti: professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Luciano Migliaccio: professor de história da arte da Universidade de São Paulo
Sandra Leandro: diretora do Museu Frei Manuel do Cenáculo em Évora.
O post Os Impressionistas apareceu primeiro em Estado da Arte.
Ludwig Wittgenstein é considerado por muitos o maior filósofo do século XX. Já em vida influenciou massivamente os meios acadêmicos, onde chegou mesmo a ser objeto de um culto. “Deus chegou, eu o encontrei no trem das cinco e quinze”, disse o economista John Maynard Keynes.
Mas é uma escolha insólita. Wittgenstein renunciou a uma herança multimilionária, aparentemente porque seria um estorvo para o filosofar, mas gastou boa parte de sua vida em ofícios ordinários, como jardineiro ou professor de escola primária. Ele desconfiava do ensino acadêmico, leu muito pouca filosofia, legou só duas obras canônicas e publicou apenas um livro em vida.
Não há nada em sua obra das grandes sistematizações teosóficas de um Platão, um Tomás de Aquino ou um Hegel, nada da torrente de imagens poéticas de um Nietzsche, nem da força de mobilização planetária de um Marx. Na verdade, ele se dedicou quase que exclusivamente, obsessivamente até, a investigar uma única questão, mas uma questão da qual depende toda especulação teorética, toda criação poética, toda ação política: a linguagem. Ele não inventou, como os filósofos geralmente fazem, novas ontologias, mitologias ou utopias, mas, como Sócrates, instigou novas gerações a criticar suas ilusões, pensar com clareza e falar com precisão.
Em seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein explorou os limites da linguagem. O que, afinal, é possível dizer sobre o mundo? Aparentemente, muito menos do que se imagina. É como se as ciências pudessem falar sobre tudo, exceto o essencial, e tudo o que a filosofia tem a dizer sobre o essencial fosse nonsense.
Mas no seu livro póstumo, as Investigações Filosóficas, Wittgenstein praticamente desconstrói sua própria desconstrução. Os seres humanos não se ocupam apenas em distinguir, como fazem os lógicos, proposições falsas de verdadeiras, e seja lá qual for o limite da linguagem, eles a usarão para falar sobre o que bem entender: para contar piadas, dar ordens, iludir, rezar, persuadir. Nosso falar tem lógicas que a lógica desconhece. Quais são elas?
Convidados
Luiz Henrique Lopes dos Santos: professor de filosofia da USP e tradutor do Tractatus Logico-Philosophicus
Marcelo Carvalho: professor de filosofia da Unifesp e co-autor Fenomenologia, análise e gramática: comentário às observações filosóficas de Wittgenstein
Tiago Tranjan: professor de filosofia da Unifesp e co-tradutor das Investigações Filosóficas
*
SEP: Wittgenstein — Leia o verbete dedicado a Ludwig Wittgenstein na Stanford Encyclopedia of Philosophy. Tradução de Gustavo Coelho, revisão de Jônadas Techio.
O Grande Teatro do Mundo — As “investigações filosóficas” de Ludwig Wittgenstein.
O post Ludwig Wittgenstein apareceu primeiro em Estado da Arte.
Entrevista com Cláudia Dornbusch, Marcus Mazzari e Paulo Soethe. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.
Pouco antes da Primeira Grande Guerra, um jovem alemão perdido numa nevasca a ponto de morrer congelado esvaía-se em delírios quando se percebeu acolhido numa comunidade idílica, até notar atrás de si um templo e dentro dele duas megeras seminuas devorando um bebê vivo. Despertando de sua alucinação o protagonista do romance A Montanha Mágica formulou esta máxima: “Em nome do bem e do amor, o homem jamais deveria permitir que a morte domine seus pensamentos.”
Aos 25 anos Thomas Mann publicou seu romance de estreia sobre a decadência de uma família mercantil como a sua. Os Buddenbrook, até hoje o maior best-seller da ficção alemã, lhe renderia o Nobel de Literatura, já revelando sua singular “consciência sismográfica”, o “alinhamento secreto” entre o “pessoal e o fatual” que lhe permitia, através de jogos irônicos, contrastes e alusões, transformar a matéria da vida ordinária em forma espiritual. Suas tapeçarias monumentais urdidas por tramas autobiográficas e fictícias justapõem em progressões sinfônicas símbolos e fatos, reflexões filosóficas e intuições psicológicas, trivialidades domésticas e panoramas históricos. Assim, um sanatório nos Alpes se transforma, na Montanha Mágica, em um palco para a dramatização do destino europeu, o “épico de um desenvolvimento cultural” capaz de “abraçar toda a dialética política e moral ocidental”. Um relato lacônico, como o da tribo de Jacó na Bíblia, se torna, nas duas mil páginas de José e seus irmãos, o exercício de “uma viva curiosidade sobre o que é mais remoto e antigo nas coisas humanas: o mítico, o lendário, o tempo antes do alvorecer da razão”. Uma lenda medieval, como a do pacto entre um alquimista e o diabo, serve no Doutor Fausto à mais fina psicografia da consciência alemã em meio à catástrofe nazista. Já consagrado como o romancista de maior apelo da literatura alemã, Mann foi ainda o principal porta-voz da resistência a Hitler. Suas locuções radiofônicas difundidas do exílio pela rádio BBC no território do Terceiro Reich foram um bombardeio moral.
Ao traçar os primeiros esboços para a Montanha Mágica, Mann anunciava a um amigo: “O espírito geral é o de um niilismo humorado, e a balança é, se for, levemente empurrada para o lado da simpatia pela morte.” O mesmo poderia ser dito de praticamente todas as suas obras. Exceto que, muitas vezes, a balança é empurrada para o outro lado.
..
Cláudia Dornbusch: professora de língua e literatura alemã da Universidade de São Paulo e autora de A literatura alemã nos trópicos.
Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e coordenador da coleção Thomas Mann da Companhia das Letras.
Paulo Soethe: professor de língua e literatura alemã da Universidade Federal do Paraná e membro da Associação Internacional de Germanística..
..
O post Thomas Mann apareceu primeiro em Estado da Arte.
Entrevista com André Malta, Vicente Sampaio e Fernando Gazoni. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.
“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”? Talvez. Mas entre as não sonhadas jamais houve uma que não tenha atraído o olhar e o tato de Aristóteles. Primeiro e maior sistematizador da história do pensamento, seu Corpus enciclopédico definiu a epistemologia que está na base dos currículos de ensino superior ao redor do mundo. E, como se não bastasse a teoria, nos deixou também a chave para a prática do saber. No comando de algumas das cabeças mais competentes da Grécia, formaria em seu Liceu o primeiro centro de pesquisa científica aplicada, antecipando o aparato de produção de dados das academias contemporâneas.
Curiosamente, dentre suas numerosas obras, poucas, ou talvez nenhuma, teria uma repercussão comparável à de sua pequena apostila de teoria literária. Desafiando o lugar comum de que gosto não se discute, a Poética apresenta uma análise criteriosa não só dos elementos que compõem a poesia, mas das qualidades que brilham na boa poesia. Para o historiador da literatura grega Albin Lesky, “uma história da Poética e dos seus influxos deveria representar uma parte importante da vida cultural do Ocidente e ser, ao mesmo tempo, a história de erros grandiosos”. Após um período de hibernação milenar, o opúsculo renasceria incompleto ao olhar dos humanistas modernos. Popularizado como um “manual” de composição dramática, se revelou crucial para a formação da ópera italiana e do teatro barroco e neoclássico, suscitando mais de uma polêmica literária literalmente “homérica”. E mesmo hoje, não poucos roteiristas de Hollywood recorrem às lições da Poética para aprimorar a sua arte. Assim – quer saibamos quer não – Aristóteles segue exercendo uma influência decisiva sobre o modo como concebemos nossas histórias, vivemos nossos dramas e experimentamos o horror e a beleza do mundo.
..
André Malta: professor de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo.
Vicente Sampaio: tradutor da Poética e pesquisador do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Campinas.
Fernando Gazoni: tradutor da Poética e professor de língua e literatura grega na Universidade Federal de São Paulo.
O post A ‘Poética’ de Aristóteles apareceu primeiro em Estado da Arte.
Entrevista com Juliano Garcia Pessanha, Vicente de Arruda Sampaio e Valter José Maria Filho. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.
“A partir de hoje e daqui por diante um novo épico começou na história mundial, e pode-se dizer que no momento estamos em seu início”. O psicólogo e filósofo O.F. Bollnow falava por muitos ao aplicar essas célebres palavras de Goethe sobre a batalha de Valmy a Ser e Tempo de Martin Heidegger. Com seu vocabulário singular e um estilo que oscila entre o êxtase e a exasperação, o livro mesmerizaria o pavilhão acadêmico no período entre-guerras, ao denunciar toda a metafísica ocidental, de Platão em diante, como um “grande esquecimento”, articulando pela primeira vez os temas de fundo do movimento filosófico que estava destinado a ser o mais impactante de todos no imaginário cultural do século XX. Catalisado pelos instintos publicistas de intelectuais franceses como Gabriel Marcel, Merleau-Ponty e sobretudo Jean-Paul Sartre, em pouquíssimo tempo o existencialismo extrapolaria o universo filosófico, tanto no campo teórico, quanto no prático e no estético, provocando reverberações decisivas para a psicoterapia, a teologia, as ciências sociais e as artes e letras em geral; e, hoje, não há pessoa no mundo que não tenha, ao menos uma vez na vida, enfrentado “angústias existenciais”.
Como definir um fenômeno tão difuso e dinâmico? De fato, pode-se mesmo dar um passo atrás e questionar: teria realmente existido algo como uma “escola existencialista”? O próprio Heidegger recusava explicitamente a denominação, bem como Albert Camus, Karl Jaspers e tantos outros tradicionalmente indexados como existencialistas. Para o crítico literário Otto Maria Carpeaux, o existencialismo foi, a um só tempo, “uma filosofia, uma literatura, e um clima de opinião”. Seria então possível distinguir, paradoxalmente, a “essência” do existencialismo?
..
Juliano Garcia Pessanha: escritor, ensaísta, autor da trilogia Sabedoria do Nunca, Ignorância do Sempre e Certeza do Agora e de Instabilidade Perpétua, e doutorando em filosofia pela Universidade de São Paulo com tese sobre Peter Sloterdijk e Martin Heidegger.
Vicente de Arruda Sampaio: tradutor, editor e professor de filosofia, e doutorando pela Universidade Estadual de Campinas, com tese sobre Martin Heidegger e o pensamento pré-platônico.
Valter José Maria Filho: professor e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo, com a tese O Conceito de Razão na Época de sua Efetuação.
O post Existencialismo apareceu primeiro em Estado da Arte.
Entrevista com Bernardo Queiroz de Moraes, Carlos Boucault e Tomás Olcese. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.
1.500 anos após a queda do Império no Ocidente, o Direito Romano vive hoje, como viveu na era medieval e moderna, na condição de matriz dos códigos civis da Europa continental, assim como da América Latina e mesmo do Japão. Sua influência hegemônica no direito público e privado é um fato mensurável linguisticamente: “Jurisprudência”, “Tribunal”, “República”, “Plebiscito”, “Lei”, “Senado” e tantas outras instituições jurídicas e políticas vitais à nossa organização social têm seus nomes derivados do léxico romano clássico. Ironicamente, a única exceção à regra talvez seja o próprio vocábulo “Direito”, fruto espúrio do latim medieval, posto que na Roma antiga “Direito” e “Justiça” se fundiam originariamente numa só palavra, ius, um conceito tão omnipresente na biosfera romana, que em toda a literatura produzida por seus jurisprudentes – a primeira ciência jurídica do mundo – só se encontram escassas definições, e mesmo elas parecem descrever não tanto a realidade do direito tal qual ele é, mas sim um ideal de justiça moral tal qual ela deveria ser. Para um deles ius é “a técnica de se realizar o bem e a equidade”, para outro os preceitos do direito são “viver honestamente, não prejudicar os outros e atribuir a cada um aquilo que é seu”.
A epopeia da cidade que se tornou o mais poderoso império que o mundo já conheceu foi também a história da consolidação de uma Lei e uma Ordem comuns para a maior parte da Europa, África do Norte e Oriente Médio. Ninguém exprimiu mais contundentemente esse destino quanto o maior dos poetas romanos, Virgílio, na admoestação premonitória do troiano Anquises ao seu filho Eneias, o pai mítico da raça romana: “Romano, lembra o teu poder para governar sobre os povos da Terra – pois tuas artes hão de ser estas: pacificar, impor o império da lei, poupar os vencidos, abater os soberbos”. A verdade, contudo, é que o próprio herói encerraria sua saga enterrando seu gládio no peito de seu oponente, enquanto este, rendido, lhe suplicava misericórdia. E a expansão do Império romano significou também a perpetuação dos dois maiores males sociais que a humanidade já produziu: a escravidão e a guerra. Nisso Roma não se diferenciava dos outros povos da Antiguidade. Todos basearam suas estruturas econômicas e políticas nestas duas perversões – todos viveram pela espada e morreram pela espada. Roma só foi, talvez, mais eficiente – e sua queda, mais espetacular. Os frutos originais do solo romano foram, sim, juristas capazes de manter um saudável realismo para com os fatos ante seus olhos, sem sufocar o idealismo em seu coração. Como um certo Ulpiano, que olhando em torno constatava, cerca de 2.000 anos antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que “a escravidão é própria do ius gentium, o direito dos povos, mas não do ius naturale, porque pelo direito natural todos os homens nascem livres”.
..
Bernardo Queiroz de Moraes, livre-docente e professor de Direito Romano da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Carlos Boucault, professor de direito da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e coordenador do projeto de pesquisa “Hierarquia entre Direito e Retórica no Final da República Romana”.
Tomás Olcese, professor de Direito na Universidade Anhembi Morumbi e pesquisador do projeto temático da Universidade de São Paulo “As Origens Romanas do Código Civil Brasileiro”.
O post Direito Romano apareceu primeiro em Estado da Arte.
From the publisher's feed