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O que você pensa quando pensa no Renascimento? Talvez na apoteose das artes plásticas? Ou na ressurreição dos poetas, filósofos e deuses greco-romanos, de suas aventuras e orgias? Na fundação dos Estados nacionais? Na expansão da burguesia mercantil? Enquanto cavaleiros da Cristandade expulsavam califados da Europa e corsários do Mediterrâneo, seus navegadores redescobriam os tesouros da Ásia e rompiam a clausura da América. A fé medieval em Deus, ainda profunda e ardente, fundiu-se a uma nova fé na Humanidade: a confiança em seu poder de conquistar a Natureza com as ciências, de consumar o matrimônio entre o Céu e a Terra, de gerar um Novo Mundo. “Coloquei-te no centro do mundo”, disse Deus a Adão no diálogo vislumbrado pelo filósofo Pico della Mirandola, “para que possas observar mais facilmente tudo o que existe no universo. Nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal te criamos, a fim de que possas, como um livre e extraordinário escultor de ti mesmo, plasmar a tua própria forma tal como a preferires. Poderás degenerar-te nas formas inferiores, que são animalescas; poderás, segundo a tua decisão, regenerar-te nas formas superiores, que são divinas”.
Entre as luzes crepusculares da Idade Média e as matinais da Modernidade, destacava-se uma nação, a Itália, e no centro dela uma cidade, Florença, e acima dela uma família, os Medici. Essa dinastia de banqueiros conduziu a pátria de Dante à sua era de ouro, gerou quatro papas para Roma e uma rainha para a França, que gerou três reis. Michelangelo, Leonardo, Donatello, Botticelli, Brunelleschi, Alberti, Rafael, Galileu, Monteverdi, quase todos os titãs da Renascença foram em algum grau beneficiados pela patronagem Medici. Veja o jovem Lorenzo, o “Magnífico”: “Nada pode ilustrar melhor os costumes, a complexidade e a diversidade do Renascimento italiano que a imagem de seu personagem mais central governando um Estado, administrando uma fortuna, disputando torneios, escrevendo excelente poesia, apoiando judiciosamente artistas e escritores, misturando-se facilmente com acadêmicos e filósofos, camponeses e bufões, marchando em procissões, cantando canções obscenas, compondo hinos suaves, brincando com cortesãs, gerando um papa, e sendo honrado pela Europa como o maior e mais nobre italiano de seu tempo” (Will Durant).
Essa cornucópia de riquezas e poder veio com um preço. “Não se governa um Estado com ‘Pais Nossos’”, dizia o patriarca Cosimo. As intrigas shakespeareanas, a brutalidade quase mafiosa, as vaidades que arderam nas fogueiras de Savonarola, o cinismo dissecado por Maquiavel, deixariam a Itália fracionada e subserviente por séculos. Mas se entre os potentados renascentistas os Medici estiveram longe de cometer os piores desses pecados, como mecenas das artes e do conhecimento jamais foram igualados na história da Humanidade, e mesmo após o seu declínio e queda no século XVIII, seus frutos nas ruas de Florença, em palácios, museus, bibliotecas, igrejas e telas de todo o mundo, continuam a inspirar os seres humanos a se regenerarem como criaturas divinas; a criar, com suas mãos, movidos pela sua fé, um novo Céu e uma nova Terra.
Luciano Migliaccio: professor de história da arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Luiz Felipe D’Avila: cientista político e autor de Cosimo de Medici. Memórias de um Líder Renascentista.
Newton Bignotto: professor de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Ilustração: “A Adoração dos Magos”, óleo sobre tela de Sandro Botticelli (c. 1485/86), com diversos membros da família Medici retratados. Galleria degli Uffizi, Florença. (Fonte: Wikimedia Commons).
O Grande Teatro do Mundo — Os promotores do humanismo, por Jacob Burckhardt.
O post Os Medici apareceu primeiro em Estado da Arte.
By Estado da ArteO que você pensa quando pensa no Renascimento? Talvez na apoteose das artes plásticas? Ou na ressurreição dos poetas, filósofos e deuses greco-romanos, de suas aventuras e orgias? Na fundação dos Estados nacionais? Na expansão da burguesia mercantil? Enquanto cavaleiros da Cristandade expulsavam califados da Europa e corsários do Mediterrâneo, seus navegadores redescobriam os tesouros da Ásia e rompiam a clausura da América. A fé medieval em Deus, ainda profunda e ardente, fundiu-se a uma nova fé na Humanidade: a confiança em seu poder de conquistar a Natureza com as ciências, de consumar o matrimônio entre o Céu e a Terra, de gerar um Novo Mundo. “Coloquei-te no centro do mundo”, disse Deus a Adão no diálogo vislumbrado pelo filósofo Pico della Mirandola, “para que possas observar mais facilmente tudo o que existe no universo. Nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal te criamos, a fim de que possas, como um livre e extraordinário escultor de ti mesmo, plasmar a tua própria forma tal como a preferires. Poderás degenerar-te nas formas inferiores, que são animalescas; poderás, segundo a tua decisão, regenerar-te nas formas superiores, que são divinas”.
Entre as luzes crepusculares da Idade Média e as matinais da Modernidade, destacava-se uma nação, a Itália, e no centro dela uma cidade, Florença, e acima dela uma família, os Medici. Essa dinastia de banqueiros conduziu a pátria de Dante à sua era de ouro, gerou quatro papas para Roma e uma rainha para a França, que gerou três reis. Michelangelo, Leonardo, Donatello, Botticelli, Brunelleschi, Alberti, Rafael, Galileu, Monteverdi, quase todos os titãs da Renascença foram em algum grau beneficiados pela patronagem Medici. Veja o jovem Lorenzo, o “Magnífico”: “Nada pode ilustrar melhor os costumes, a complexidade e a diversidade do Renascimento italiano que a imagem de seu personagem mais central governando um Estado, administrando uma fortuna, disputando torneios, escrevendo excelente poesia, apoiando judiciosamente artistas e escritores, misturando-se facilmente com acadêmicos e filósofos, camponeses e bufões, marchando em procissões, cantando canções obscenas, compondo hinos suaves, brincando com cortesãs, gerando um papa, e sendo honrado pela Europa como o maior e mais nobre italiano de seu tempo” (Will Durant).
Essa cornucópia de riquezas e poder veio com um preço. “Não se governa um Estado com ‘Pais Nossos’”, dizia o patriarca Cosimo. As intrigas shakespeareanas, a brutalidade quase mafiosa, as vaidades que arderam nas fogueiras de Savonarola, o cinismo dissecado por Maquiavel, deixariam a Itália fracionada e subserviente por séculos. Mas se entre os potentados renascentistas os Medici estiveram longe de cometer os piores desses pecados, como mecenas das artes e do conhecimento jamais foram igualados na história da Humanidade, e mesmo após o seu declínio e queda no século XVIII, seus frutos nas ruas de Florença, em palácios, museus, bibliotecas, igrejas e telas de todo o mundo, continuam a inspirar os seres humanos a se regenerarem como criaturas divinas; a criar, com suas mãos, movidos pela sua fé, um novo Céu e uma nova Terra.
Luciano Migliaccio: professor de história da arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Luiz Felipe D’Avila: cientista político e autor de Cosimo de Medici. Memórias de um Líder Renascentista.
Newton Bignotto: professor de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Ilustração: “A Adoração dos Magos”, óleo sobre tela de Sandro Botticelli (c. 1485/86), com diversos membros da família Medici retratados. Galleria degli Uffizi, Florença. (Fonte: Wikimedia Commons).
O Grande Teatro do Mundo — Os promotores do humanismo, por Jacob Burckhardt.
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