Estado da Arte

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  • Mecânica Quântica
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    Entrevista com Maria Cristina Batoni Abdalla, Osvaldo Pessoa e Walter Pedra. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.

    Ao fim do século XIX um jovem alemão, contemplando a carreira acadêmica, foi desaconselhado a se empenhar na física. À época o edifício da mecânica clássica erguido por Newton, Maxwell e outros parecia tão bem acabado, que cientistas como Lord Kelvin acreditaram que todas as grandes ideias da física já haviam sido descobertas, só restando trabalhar adornos e pormenores. Por sorte o estudante recusou o conselho e em 1900, já professor de física em Berlim, diria a seu filho que fez uma descoberta tão importante quanto as de Newton. Por mais que soasse grandiloquente, Max Planck falava a pura verdade. Buscando sair de um dilema em relação ao fenômeno da radiação, ele sugeriria que a emissão ou absorção subatômica se dá na forma de quantidades discretas de energia ou quanta.

    A mecânica quântica descreve um mundo fantástico e desconcertante, onde uma partícula elementar parece ora se propagar como uma onda, ora surgir em dois lugares ao mesmo tempo, ora desaparecer em um e reaparecer em outro, ou mesmo interagir com uma outra partícula à distância, um fenômeno que o próprio Einstein – autor de um passo decisivo na teoria quântica ao demonstrar que também a luz é composta por quanta, ou fótons – previu em hipótese, mas que preferiu rejeitar como “assustador demais” para ser validado por um físico. As teorias sobre porque as coisas são assim variam das mais extravagantes, como a de uma pluralidade de mundos simultâneos, às mais prosaicas, como uma falha nos nossos cálculos, e não surpreende que o físico teórico Richard Feynman dissesse: “creio que posso afirmar com segurança que ninguém entende a mecânica quântica”.

    Apesar disso, o aparato matemático quântico ainda é incomparável na sua capacidade de previsão, cada dia mais precisa, do comportamento das partículas elementares. E malgrado todos os desafios à nossa lógica ordinária e todas as controvérsias sobre porque o universo microscópico é assim, os resultados de laboratório só fazem confirmar: ele é assim – até que se prove o contrário, a matéria da qual todas as coisas são feitas é assim: fantástica e desconcertante.

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    Convidados

    Maria Cristina Batoni Abdalla: professora de Teoria Geral das Partículas e Campos da Universidade Estadual Paulista e autora de O Discreto Charme das Partículas Elementares.

    Osvaldo Pessoa: professor de História e Filosofia da Ciência da Universidade de São Paulo e autor de Conceitos de Física Quântica.

    Walter Pedra: professor do Departamento de Física Matemática da Universidade de São Paulo e coordenador do grupo de pesquisa de “Termodinâmica de Sistemas Quânticos de Corpos Não-Simétricos”.

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    52 min
  • Behaviorismo

    Entrevista com Roberta Kovac, César Rocha e Candido Pessôa. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.

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    O que é uma pessoa? Resposta: “Um membro da espécie humana que se comporta como se comporta por causa de muitas características ou propriedades internas, entre elas sensações, decisões, fantasias, aptidões, percepções, pensamentos, virtudes, intenções, habilidades, instintos, devaneios, incentivos, atos de vontade, alegria, compaixão, defesas emocionais, crenças, complexos, expectativas, anseios, escolha, impulsos, ideias, responsabilidades, satisfações, memórias, desejos, necessidades, sabedoria, quereres, um instinto de morte, um senso dever, sublimação, impulsos, capacidades, propósitos, vontades, informação, um superego, proposições, experiências, atitudes, conflitos, sentidos, formações reativas, uma vontade de viver, consciência, angústia, depressão, medo, razão, libido, energia, reminiscências, inibições, e doenças mentais”. Além de exprimir o senso comum e de catalogar o vocabulário de mais de dois mil anos de investigações psicológicas desde a filosofia grega à psicanálise, a descrição de Burrhus Skinner é especialmente eloquente por sintetizar tudo aquilo que, segundo seu autor, uma pessoa não é nunca foi e jamais será. Contra essa ilusão, dita “mentalista”, ele oporia sua perspectiva “radical”, chegando a sugerir que ela “provavelmente conclama à mais drástica transformação jamais proposta em nosso modo de pensar sobre o homem: é quase literalmente uma questão de virar a explicação do comportamento de dentro para fora”. O impacto calculado de formulações desse tipo cumpriria sua função de despertar o olhar humano para a singularidade da recém nascida ciência do comportamento, mas também faria do behaviorismo um dos “ismos” mais controvertidos do século XX. Se para os mais deslumbrados o ideal de um progresso cientificamente orientado à prosperidade parecia descer do céu à terra, para seus antagonistas, pessoas como Pavlov teriam convertido o “How like a god!”, de Hamlet, em “How like a dog!” E de Admirável Mundo Novo e 1984 a Laranja Mecânica e Matrix uma corrente ficcional tão excitante quanto inquietante se habituaria a associar o ideário comportamentalista a delírios de controle sobre-humano e processos de desumanização em massa.

    Cientificamente indiferentes aos exageros de entusiastas e alarmistas, contudo, os analistas comportamentais continuam a lapidar a teoria e a empiria do comportamento, acumulando sólidos benefícios ao aplicá-las a práticas como a educação, a gestão pública e privada, a reabilitação clínica e a socialização de deficientes e delinquentes. E, hoje, após as experiências totalitárias do século XX, na era da globalização econômica, das redes virtuais e do recrudescimento do fundamentalismo religioso, as questões provocadas pelo comportamentalismo são talvez mais urgentes do que nunca. Afinal, que são todos os sistemas jurídicos, políticos, religiosos; suas leis, costumes, ritos; seus valores, crenças, ideais e toda a multidão de símbolos que chamamos “cultura”, senão artifícios fabricados por seres humanos para estimular ou inibir comportamentos humanos? O que mais fazem pedagogos, psicoterapeutas, sacerdotes senão aplicar técnicas de previsão, interpretação e controle de comportamento a fim de capacitar pessoas a prever, interpretar e controlar comportamentos? E, acima de tudo, podemos ou não podemos selecionar nossos próprios comportamentos?, podemos ou não podemos, em uma uma palavra, determinar nosso destino?..

    Convidados

    Roberta Kovac: mestre em Psicologia Experimental pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, psicoterapeuta, e professora do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento.

    César Rocha: doutorando em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos com pesquisa sobre análise do comportamento e planejamento cultural.

    Candido Pessôa: doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo, pesquisador e professor do Núcleo Paradigma e da Escola de Sociologia Política de São Paulo.

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    52 min
  • A Cidade na Era Industrial

    Entrevista com Josianne Cerasoli, Leandro Medrano e Renato Cymbalista. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.

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    Por volta de 1800 Londres, então a maior metrópole do mundo, superava a marca de 1 milhão de habitantes, igualando pela primeira vez a cidade mais populosa da antiguidade, Roma. Na época a população mundial contava com 900 milhões de pessoas, e pouco mais de 10% habitava nas cidades. Desde então o crescimento se deu continuamente em doses industriais. De 1950 até hoje o número de habitantes das cidades em todo o mundo proliferou de 746 milhões para quase 3,5 bilhões, e em 2009, 200.000 anos após o aparecimento dos primeiros homo sapiens, a população urbana finalmente superou a rural. Hoje, num planeta que aglomera mais de 7,25 bilhões de seres humanos, há quase 30 mega-cidades com mais de 10 milhões de habitantes cada. Só em Shangai, a cidade mais populosa do planeta, vivem cerca 25 milhões de pessoas, e as projeções mostram que em 2050 66% da população mundial será urbana, sendo que nos países desenvolvidos essa taxa será de quase 90%.

    Não há duvidas de que nosso mundo está se civilizando aceleradamente, ao menos do ponto de vista literal, dado que a raiz etimológica do termo “civilização”, assim como de “civismo”, “cidadão”, “urbanidade”, “política”, “polidez” e outras expressões que denotam os mais altos graus de sofisticação da vida humana, têm todas sua origem no vocábulo “cidade”. Mas acaso esse crescimento vertiginoso das cidades implica um crescimento equivalente da cidadania? Em nosso tempo 1 bilhão de pessoas, quase um terço da população urbana mundial, vive em favelas e assentamentos do gênero, e a expectativa é de que em 2030 esse número dobre para 2 bilhões. E desde o mito da Torre de Babel até as modernas distopias futuristas, as cidades sempre foram convincentemente retratadas como um cenário apocalíptico de criminalidade, insalubridade, stress, individualismo, luxúria, consumismo, superficialidade e outras formas de degradação física, psíquica e moral.

    O que explica a explosão urbana dos últimos dois séculos? Como as cidades absorveram mais da metade da população mundial? Que transformações isso traz para a cultura e a sociedade humana? E acaso o globo estaria se transformando numa única e colossal conurbação?.

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    Convidados

    Josianne Cerasoli: professora de história política e urbana da Universidade Estadual de Campinas e coordenadora da pesquisa “O urbano em questão: saberes especializados, cidade e história”.

    Leandro Medrano: professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e editor da revista Pesquisa em Arquitetura e Construção.

    Renato Cymbalista: professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e presidente do Instituto Pólis.

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    56 min
  • A Magna Carta

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    Durante a Guerra Civil inglesa, o panfleteiro ultrademocrata Richard Overton se lembraria comovido de uma das incontáveis vezes em que foi preso pelos oficiais da Coroa: enquanto arrancavam “de mim a Grande Carta das Liberdades e Direitos da Inglaterra”, gritava “assassino, assassino, assassino!” Uma geração antes, Sir Henry Spelman, membro da ala conservadora do Parlamento, descreveria a Carta como “a mais majestosa e sacrossanta âncora das liberdades inglesas”...

    No ano de seu oitavo centenário a Magna Carta é prestigiada mundialmente não só como a pedra fundamental do direito anglo-saxão, mas também, nas palavras do jurista britânico Lord Denning, “como o maior documento constitucional de todos os tempos – o fundamento da liberdade individual contra a autoridade arbitrária do déspota”.

    Todavia, de suas 63 cláusulas, só 3 não caducaram ou foram revogadas, permanecendo vigentes na Constituição do Reino Unido. E nos últimos dois séculos não faltaram historiadores que denunciassem a Grande Carta como um “mito” elaborado ideologicamente sobre uma colcha de retalhos de exigências incôngruas e mal costuradas em nome dos interesses privados da elite feudal do século XIII. O próprio Overton diria em outra ocasião, numa chave bem menos romântica, que a Carta é “uma coisa miserável contendo muitas marcas de opressão intolerável”.

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    Convidados

    Eduardo Tomasevicius Filho: mestre em História Social e professor doutor do departamento de Direito Civil da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

    Maria Cristina Carmignani: professora doutora de História do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

    Tomás Olcese: professor de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas e membro do grupo de pesquisa “Direito Privado Comparado Contemporâneo” da Universidade de São Paulo.

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    50 min
  • O Império Otomano

    Entrevista com Heitor Loureiro, Karabekir Akkoyunlu e Monique Sochaczewski. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.

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    Quando o Império Otomano colapsou na Grande Guerra ele cobria só um pedaço da Turquia, era vilipendiado como o “Homem doente da Europa” e recriminado por atrocidades contra minorias armênias. Mas em seu apogeu, no reino de Suleiman o Magnífico, no século XVI, era a maior potência do Oriente Médio, África e Europa, senão do mundo, imperando sobre Atenas, Jerusalém, Cairo, Cartago, Budapeste, Damasco, Babilônia, e as cidades sagradas de Meca e Medina. Três séculos antes, eram só uma tribo nômade turca da Anatólia. Sobre os escombros bizantinos deixados por hordas de mongóis e cruzados, o clã de Osman dominou o ponto nevrálgico entre a Europa e a Ásia, Constantinopla, consagrada como a capital Istanbul, e, por meio de conquistas militares, diplomáticas e matrimoniais, se expandiu do Egito à Hungria, do Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico, dos palácios de Bagdá às portas de Viena. Foi um dos maiores, mais longevos e esplêndidos impérios multiétnicos e multi-religiosos, só comparável aos de Roma e Bizâncio, aos impérios cristãos dos Habsburgo e Romanov, ou aos islâmicos dos árabes abássidas, iranianos safávidas ou indianos mugal. Os sultões viam-se como herdeiros de Alexandre e César, e eram venerados pelos sunitas como califas, os sucessores de Maomé. Mas seu islamismo absorve elementos do xamanismo, budismo e cristianismo. Enquanto católicos e protestantes perseguiam judeus, muçulmanos e uns aos outros, sob os otomanos as crenças e propriedades de xiitas, judeus e cristãos eram respeitadas. Nos haréns não havia preconceitos étnicos: búlgaras, sérvias, albanesas, húngaras, russas, mongóis e árabes eram recebidas de braços abertos e seus filhos eram herdeiros dos sultões. A elite militar dos janíçaros era recrutada entre crianças cristãs gregas, armênias e eslavas educadas no califado. Suas tropas e frotas eram imbatíveis em disciplina e engenho militar. Por séculos, foram os maiores adversários dos persas xiitas, e responderam pelas maiores ameaças do mundo islâmico à cristandade, mas também pelas melhores alianças. O próprio Suleiman, que personifica o estereótipo do “despotismo turco”, também simboliza os sonhos do Ocidente pelo “luxo oriental”. “O Magnífico” foi um nome dado pelos europeus. Para os muçulmanos ele é “O Legislador”. Os sultões e vizires estão entre os maiores mecenas de todos os tempos. Suas mesquitas abobadadas espelhadas nas basílicas bizantinas são um monumento à glória de Alá jamais igualado na arquitetura islâmica. Como eles ergueram seu império? Como ele desmoronou? Qual o seu legado para a Turquia, suas antigas províncias, o Islã e o mundo contemporâneo?

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    Santa Sofia e a Mesquita Azul, em Istanbul (Miwok, Flickr)

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    Convidados:

    Heitor Loureiro: Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista e pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio.

    Karabekir Akkoyunlu: Professor de história e política comparada da Escola de Relações Internacionais da FGV, e coautor de Guardianship and Democracy in Iran and Turkey.

    Monique Sochaczewski:  Professora do IDP, Cofundadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio e autora de “Do Rio a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano”.

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    Apresentação: Marcelo Consentino.

    Produção técnica: Compasso Coolab.

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    1 hr
  • Nanotecnologia

    Entrevista com Ado Jorio de Vasconcelos, Aldo José Gorgatti Zarbin e Ernesto Joselevich. Por Marcelo Consentino.

    Rádio Estado da Arte.

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    No século XVII, o místico, filósofo e cientista Blaise Pascal dizia que o ser humano é uma criatura irremediavelmente perdida entre os dois extremos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno. Mas as últimas gerações de cientistas parecem infinitamente mais próximas do pequeno. Já em 1959, o físico laureado com o Nobel, Richard Feynman, previu a miniaturização extrema da tecnologia até a manipulação de moléculas e átomos como blocos de construção. Desde os anos 80, invenções e descobertas na fabricação de nano-objetos têm atestado esta visão. Em poucas décadas a nanotecnologia tornou-se um mercado trilionário, que move universidades, corporações, militares e governos em travessias multidisciplinares entre as fronteiras da química, biologia molecular, ciência dos materiais e física da matéria condensada para compreender a alterar propriedades inesperadas. Desde 1999, há um crescimento anual da ordem de 15% de nanodispositivos no mercado. Alguns pensam que a nanotecnologia trará a próxima revolução tecnológica, após a revolução industrial e a revolução digital, com efeito combinando e amplificando ambas. Desde já, materiais compostos utilizam elementos em nanoescala para tornar todo tipo de coisa melhor, mais forte e mais rápida – de tecidos e cosméticos a telas de TV e painéis solares. Estruturas ultra-leves para aeronaves e microchips com hiper-memória já estão no horizonte. Provavelmente não há nenhum aspecto da vida humana que não será em algum momento afetado.

    Enquanto a nanotecnologia avança para cobrir a lacuna entre a fantasia e a realidade, os visionários a veem como uma panaceia capaz de eliminar a poluição nos países ricos e a fome nos países pobres, reconstruir plantas e animais extintos, e diagnosticar e curar todos os nossos males. Fala-se até em nano-robôs que “viverão” em nossos corpos, eliminarão patógenos, reverterão traumas e turbinarão nossas capacidades físicas e mentais. Para os céticos isso nunca será mais que um delírio futurista. Os alarmistas enxergam o próximo passo na guerra química e biológica, com nano-robôs fugindo aos laboratórios para evoluírem como seres sensíveis que escaparão ao controle da humanidade e finalmente a substituirão.

    Mas o que realmente acontece quando o ser humano se torna capaz de redesenhar e reconstruir com precisão atômica as partículas que compõem o tecido da existência? Quais as conquistas da nanotecnologia hoje? Quais os desafios para o futuro? E quais os dilemas éticos e regulatórios envolvidos nessa aventura?

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    Nanopartícula de vidro suspensa em uma cavidade ótica (Wikimedia Commons)

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    Convidados

    Ado Jorio de Vasconcelos: professor de física da Universidade de Minas Gerais.

    Aldo José Gorgatti Zarbin: professor de Química da Universidade Federal do Paraná.

    Ernesto Joselevich: professor do Departamento de Materiais e Interfaces Instituto de Ciência Weizmann em Israel.

    Apresentação: Marcelo Consentino.

    Produção técnica: Compasso Coolab

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    1 hr
  • Reprodutibilidade científica

    Entrevista com Marcus Vinícius Baldo, Maria Elice de Brzezinski Prestes e Olavo Amaral. Por Marcelo Consentino.

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    Como os teólogos na Idade Média, os cientistas são a suprema autoridade intelectual no nosso tempo. Veja a confiança que inspiram fórmulas como “cientificamente comprovado” ou “cientistas demonstram que…”. Nossa esperança pelo progresso vive da fé na ciência. E a pedra angular da ciência é a reprodutibilidade. Se o resultado de um experimento é real e robusto, qualquer pesquisador deve ser capaz de obtê-lo reproduzindo os mesmos procedimentos.

    Mas em 2005 um médico e cientista constatou: a maioria dos resultados reproduzidos em pesquisas são falsos. No artigo que caiu como uma bomba na comunidade científica, John Ioannidis demonstra que a maioria das publicações não atinge padrões mínimos de evidência. Desde que a chamada “Crise da Reprodutibilidade” foi detonada, os cientistas têm aprimorado a verificação de evidências (ou de sua ausência), naquilo que alguns chamam “Metaciência”. Mas quanto ainda podemos confiar nos cientistas? Até onde seus vieses alteram a produção e a reprodução de seus dados? Será verdade, como disse um filósofo, que não existem fatos, só interpretações?

    A bem da verdade, não existe a Ciência, só as ciências, cada qual com seus objetos e métodos. A crise não é igualmente crítica para as ciências humanas, as biológicas e as físicas. A própria crítica hiperbólica de Ioannidis se referia, mais restritamente, às pesquisas médicas, e significa, mais rigorosamente, não que os resultados são majoritariamente “falsos”, mas que “não foram comprovados” ou na pior das hipóteses “não podem ser”.

    Como atividade humana, a ciência é por definição falível, falsificável, deturpável a ponto de se tornar um culto. Mas mesmo que um certo obscurantismo ou um ceticismo extremado apontem as inconsistências, fraquezas e vícios dos cientistas para desacreditá-los, podemos confiar que, junto com filósofos ou teólogos, cada qual com seus objetos e métodos, eles aproximam a humanidade da verdade. Se, como disse o filósofo Karl Popper, “acontecimentos singulares não reprodutíveis não têm importância para a ciência” — e nossas experiências mais singulares da beleza, do bem, da verdade, são por definição irrepetíveis, únicas —, a boa ciência sabe que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia e o coração tem razões que a razão desconhece. Mas ela ainda é a mais formidável máquina de verificar fatos, revelar as leis que os regem, e alavancar inovações tecnológicas. É razoável e demonstravelmente racional confiar o progresso humano à vigilância dos cientistas. Mas quem vigia os vigilantes? E como vigia?..

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    Convidados

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    Marcus Vinícius Baldo: professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

    Maria Elice de Brzezinski Prestes: professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

    Olavo Amaral: professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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    Apresentação: Marcelo Consentino.

    Produção técnica: Compasso Coolab.

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    1 hr
  • As provas da existência de Deus

    Entrevista com Agnaldo Portugal, Fabio Bertato e Roberto Covolan. Por Marcelo Consentino.

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    Na mesma época em que o louco da parábola de Nietzsche proclamava que “Deus está morto”, o filósofo russo Vladimir Soloviov era indagado após uma conferência: “— Mas o senhor acredita realmente em Deus?” “— Senhor, eu só acredito em Deus”, respondeu, sugerindo que só um ser supremo absolutamente bom é digno da nossa absoluta confiança.

    Hoje, pelo menos 90% da população mundial se diz religiosa ou espiritualizada, 70% acredita na existência de Deus. Mas podem prová-la? Entre os profissionais da argumentação racional, os filósofos acadêmicos, estima-se que 7 em 10 sejam descrentes. Com boas razões: as ciências parecem explicar a mecânica do universo sem necessidade de Deus; um ateu pode ser tão razoável e decente quanto o melhor dos crentes, e mesmo profundamente religioso e até santo, como alguns budistas. De resto, como Deus pode tolerar o mal, o sofrimento de crianças inocentes, para não falar da crueldade eterna do inferno? Na pior das hipóteses, as religiões parecem ser tiranias obscurantistas adoradoras de um ditador cósmico; na melhor, o conforto de um placebo superlativo —  em todo caso, uma ilusão sem futuro.

    Por outro lado, se nada no universo vem do nada, como o próprio universo pode vir do nada? Que da matéria bruta surjam seres vivos, capazes de amar e se reproduzir; ou que da brutalidade e inocência do mundo animal surjam mentes racionais, capazes de compreender o universo e agir com suprema magnanimidade —  mas também com perversidade destrutiva —, mesmo para com todas as criaturas, parecem eventos tão improváveis que só podem ser definidos como um mistério, quando não um milagre. E de onde viria o nosso apetite pela beleza infinita, senão de um ser infinitamente belo? Ainda que as leis morais pareçam infinitamente variáveis, de onde viria a intuição universal de uma lei moral, senão de um supremo legislador? E que dizer da experiência pessoal da maioria da humanidade hoje e em todos os tempos? O testemunho de filósofos como Confúcio, Platão, Aristóteles, Descartes ou Kant; de cientistas como Galileu, Newton ou Einstein; de artistas como Michelangelo, Bach, Dostoievski; ou de profetas, como Moisés e Maomé, para não falar do chamado Filho de Deus e sua mãe, não será, senão uma “prova” racional da existência de Deus, um indício de que a crença nele é perfeitamente razoável? E não será possível, como disse Pascal, que Deus queira aparecer abertamente àqueles que o buscam com todo o coração, e se esconder daqueles que o evitam com todo o coração?

    Entre tantas incertezas, uma coisa é certa: a questão sobre a existência de Deus é aquela sobre a qual não se pode conceber nenhuma maior. Afinal, a resposta é a única que muda, bastante literalmente, tudo.

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    Kharps (iStockphotos)

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    Convidados

    Agnaldo Portugal: professor de filosofia da religião e filosofia da ciência da Universidade de Brasília.

    Fabio Bertato: pesquisador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp.

    Roberto Covolan: vice-presidente da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência.

    Apresentação: Marcelo Consentino

    Produção técnica: Compasso Coolab.

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    1 hr
  • Romances de formação

    Entrevista com Daniel Bonomo, Marcus Mazzari e Rogério Puga. Por Marcelo Consentino.

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    Embora seja apenas um subgênero literário, o romance de formação é uma das expressões artísticas mais universais e familiares. Quase nenhum leitor viveu nas paisagens bucólicas da poesia pastoril, ou sobreviveu às aventuras das epopeias ou aos dramas letais das tragédias — e qualquer um evita ser protagonista das farsas cômicas —, mas todo mundo já foi, ou é, jovem. Todos provaram as primeiras emoções do amor e do sexo; tiveram dúvidas sobre seu destino pessoal, sua vocação profissional, seu papel no teatro social e político; se deslumbraram com visões metafísicas, éticas e estéticas, e se frustraram com suas incongruências. Todo adulto se formou quando jovem e forma os jovens de hoje.

    Para o filósofo Wilhelm Dilthey, um dos criadores do termo Bildungsroman, suas narrativas “apresentam o jovem de seu tempo à medida em que adentra a vida em alegre ignorância, buscando almas afins, provando a amizade e o amor, enquanto luta com as duras realidades do mundo, e assim, em multifacetados encontros com a vida, amadurece, encontra-se a si mesmo, e reconhece sua missão no universo”. Em sentido amplo essa jornada arquetípica já fora vivida por jovens antigos como o babilônico Gilgamesh, passando pelos bíblicos José, Moisés ou Davi, até a odisseia do grego Telêmaco ou a do bárbaro cristão Percival. Em senso estrito, o romance de formação nasce em meio às concepções de cultura e educação iluministas, especificamente na Alemanha com os prototípicos Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe.

    Se, como disse Marx, a modernidade é uma “revolução permanente”, a juventude, nas palavras de Franco Moretti, é a “essência da modernidade, o sinal de um mundo que busca o seu sentido no futuro antes que no passado”. E o romance de formação, como narrativa da insatisfação e mobilidade interior da juventude, é a sua forma simbólica. Desde o seu despertar, no romantismo, passando pelo seu amadurecimento, no realismo, até suas sucessivas reformas, deformações e transformações pelos movimentos modernistas, a cultura moderna sempre se viu refletida nos romances de formação. Não à toa quase todo grande romancista — de Dickens, Stendhal e Balzac, passando por Flaubert, Jane Austen, Dostoiévski, Mark Twain até Thomas Mann, J.D. Sallinger ou Philip Roth — experimentou de algum modo o gênero.

    O que esses romances têm a dizer na era pós-moderna? Como eles refletem os jovens de hoje e formam os de amanhã?..

    Convidados

    Daniel Bonomo: doutor em literatura alemã e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

    Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e organizador do livro Romances de Formação: caminhos e descaminhos do herói.

    Rogério Puga: professor de literatura da Universidade Nova de Lisboa e autor de O Bildungsroman. 

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    59 min
  • Rota da Seda

    Entrevista com André Bueno, Daniel Veras e Evandro Menezes de Carvalho. Por Marcelo Consentino.

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    O nome “Rota da Seda” é uma convenção historiográfica do século XIX para designar o fluxo comercial ancestral da Eurásia. Na verdade, a seda era uma mercadoria de várias, e não houve uma rota, mas inúmeras, ao norte e ao sul, através das estepes, desertos, montanhas e mares, conectando desde a costa chinesa do Pacífico às costas atlânticas da Europa e da África; da Escandinávia ao Oceano Índico.

    Desde os tempos neolíticos até se consolidarem há 2000 anos — muito antes das navegações transatlânticas descobrirem um novo Mundo e a aviação conectar todas as regiões do globo — as rotas formaram a principal artéria intercontinental do planeta, por onde trafegavam mercadores, viajantes, missionários e peregrinos permutando mercadorias e ideias, mas também doenças e violência. Através de suas veias e vasos capilares o Oriente e o Ocidente trocaram entre si o melhor de sua comida, indústria e arte, nutrindo os fluxos de ascensão e queda de grandes impérios gregos, iranianos, árabes ou turcos. Nelas os povos bárbaros e exóticos da Europa conheceram as civilizações mais veneráveis da Ásia, e receberam delas tecnologias revolucionárias, como a pólvora ou o papel. Elas canalizaram as conquistas de Alexandre o Grande ou Gengis Khan e as aventuras de Marco Polo e outros comerciantes. Através delas floresceram cidades legendárias, como Persépolis, Samarkand ou Xanadu; os mongóis, e, em nosso tempo, os russos, ergueram os mais vastos impérios do mundo; os califas muçulmanos e os imperadores chineses se bateram; as antigas religiões do Oriente Médio, como o judaísmo, o zoroastrismo, o maniqueísmo e as primeiras seitas cristãs confluíram para a Ásia profunda, e o budismo e o Islã disseminaram-se ao norte, sul, leste e oeste tornando-se religiões mundiais. Nelas, uma das duas civilizações mais antigas do mundo e uma das duas mais poderosas de nosso tempo, a China, se encontrou com aquela que foi comparativamente a mais poderosa de todos os tempos, Roma.

    Após as navegações transatlânticas, as rotas perderam muito de seu apelo, mas ainda catalisaram maravilhas modernas como o Canal de Suez ou a Ferrovia Trans-Eurasiana. E em nosso tempo a China planeja investimentos trilionários na “Nova Rota da Seda” que impactarão diretamente as economias da Ásia, Europa e África, e plasmarão a nova ordem geopolítica global. Ao fim, por mais convencional que seja, o nome Rota da Seda não é ruim: a “rota” é uma metáfora para o eterno percurso do sol crescente ao sol poente e vice-versa. E para o comércio internacional e seus bens — o ouro, o luxo, a aventura, o poder — nada simboliza melhor que a “seda” a cor, a luz, a leveza e a fugacidade que tecem estes sonhos.

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    Caravana de Marco Polo, do Atlas Catalão de Carlos V, 1375

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    Convidados

    André Bueno: professor de história e filosofia chinesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

    Daniel Veras: pesquisador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

    Evandro Menezes de Carvalho: pesquisador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas.

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