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Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga


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Seja qual for a sua espiritualidade, imagine o ritual que mais eleva o seu coração. Pense também na celebração cívica que mais excita suas paixões patrióticas. Agora, imagine uma cúpula geopolítica – com chefes de Estado, embaixadores e suas delegações. Um festival cultural – com arquitetura monumental, galerias de esculturas, récitas de poetas e filósofos, música, dança, truques de mágica. Acrescente uma feira de mercadores e inventores. Agora, coloque tudo isso sob o mesmo sol, e, bem no centro, atletas nus em competições de alta performance. Pronto, agora você tem um vislumbre do que eram os jogos olímpicos na Grécia Antiga.

A disputa foi a quintessência da vida grega, o combustível de sua cultura. As cidades competiam entre si em leis e instituições; os poetas, em versos; os filósofos, em argumentos. Hesíodo desafiou Homero. Ésquilo e Sófocles concorriam nos festivais teatrais de Dionísio. Xenófanes contestava os poetas; Sócrates, os sofistas; os estoicos, epicuristas e céticos contestavam uns aos outros. A historiografia de Heródoto nasceu da guerra contra os persas e a de Tucídides da guerra entre Esparta e Atenas. A democracia era uma arena onde cidadãos disputavam o poder pela força da palavra. Os espaços de treino e disputas físicas foram sublimados e hoje consagram os nomes de nossas instituições culturais e educacionais: as palestras, a academia, os liceus, o ginásio.

Mas se o espírito agônico dos helênicos foi destruição criativa, foi também criação destrutiva, que os impediu de forjarem uma nação, os mergulhou em guerras fratricidas e levou à sua capitulação sob potências estrangeiras. 

A política dividia as cidades gregas, a religião fracassou em uni-las – mas o esporte conseguiu. Nos jogos, o conflito se transformava em espetáculo e a rivalidade em celebração. Guerras eram suspensas pela trégua sacrossanta; caravanas atravessavam mares e montanhas; e a Grécia, eternamente dilacerada, conhecia por instantes a comunhão. Sob o calor e a poeira de Olímpia, sacrifícios e procissões conviviam com o ruído das corridas, o brilho das armaduras, o sangue e o suor das lutas. Menandro resumiu a cena em cinco palavras: “multidão, feira, acrobatas, entretenimento, ladrões”. 

Os jogos foram um microcosmo da cultura helênica e também sua apoteose; o ponto de fusão entre arte, política e fé, onde a Grécia não só reverenciava os deuses, mas celebrava o vigor humano. O atleta grego era uma encarnação do equilíbrio cósmico, um sacerdote do corpo. A coroa de oliveira, rústica e efêmera, valia mais que qualquer tesouro, porque simbolizava a consagração do indivíduo diante da eternidade – e a santificação da alegria coletiva. Os gregos humanizaram os deuses para divinizar os homens. E os jogos os treinavam nessa pedagogia da glória, ensinando-os a vencer sem soberba e a perder com dignidade, e os imergiam numa teologia do júbilo, unindo a religião e o prazer, a guerra e a dança, o esforço e a graça, a beleza e o bem – o corpo esculpido pelo exercício e a alma disciplinada pela virtude.

Convidados

Delfim Leão: Professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra.

Gilberto da Silva Francisco: Professor de História Antiga na Universidade Federal da São Paulo.

Nuno Simões Rodrigues: Professor de Letras Clássicas da Universidade de Lisboa.

Referências
  • O Espírito Olímpico no Novo Milênio, coordenação de Francisco Oliveira.
  • A Brief History of the Olympic Games, de David C. Young
  • Olympia. Robin Waterfield. 
  • Los Juegos Olimpicos y el Deporte em GreciaI, de Fernando García Romero. 
  • The Olympic Games. The First Thousand Years, de M.I. Finley e H.W. Pleket.
  • Olympia. The Classical Hellenic City-State Culture, de Thomas Heine Nielsen.
  • “A ascensão da Grécia”, em A História da Civilização. V. II. A Vida da Grécia, de Will Durant.
  • “Ancient Olympics”. Documentário do History Channel.
  • “Olimpíadas”, no podcast História em Meia Hora. 
  • “The Olympic Games”, em The Games Odyssey Podcast.   
  • “Origins of the Olympics”, no podcast The Ancients. 
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