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O Cristianismo primitivo


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Quando um carpinteiro de Nazaré foi condenado pelos clérigos hebreus e crucificado por um governador romano, a população de seus seguidores mal encheria uma sinagoga. Vinte séculos depois, eles formam a maior religião do mundo, predominante em quase todos os continentes. Nenhuma instituição fez tanto pelo Bem, a Verdade e a Beleza. Seus orfanatos e hospitais aliviam a humanidade; seu mecenato deu ao mundo dos mosaicos bizantinos às catedrais medievais às obras primas renascentistas e barrocas. A Igreja deu à luz as universidades e continua a inundar o planeta com escolas.

Das ruas poeirentas da Judeia, a pequena seita messiânica floresceu como uma árvore de raízes múltiplas, cujos galhos se espalhavam com inacreditável rapidez entre cidades portuárias, desertos, prisões e palácios, cruzando fronteiras étnicas, morais e culturais para oferecer uma nova fé a judeus e gentios, analfabetos e filósofos, legionários romanos e mulheres gregas. O cristianismo foi vilipendiado, perseguido, ridicularizado, mas cresceu, como cresce a semente sob a terra, regada pelo sangue dos mártires. 

Como se cristalizou, entre torturas e concílios, o que hoje chamamos de ortodoxia? Como se forjou, em meio a uma cacofonia de doutrinas, seitas e evangelhos rivais a fé no mistério tão contra-intuitivo quanto central da Trindade? Como a crença num Deus crucificado, escândalo para judeus e loucura para gregos, sintetizou o universalismo helênico e o profetismo hebraico? Como uma religião que pregava o amor ao inimigo, a castidade, o sacrifício e o perdão conquistou os senadores de Roma, os intelectuais de Alexandria, os comerciantes de Antioquia? Como uma comunidade que pregava desapego às riquezas construiu basílicas de ouro? E o que aconteceu quando Constantino abraçou o símbolo da Cruz: terá a Igreja conquistado o mais formidável império que o mundo já conheceu ou terá sido prostituída por ele? 

Não há como compreender os destinos da civilização humana sem percorrer os passos das primeiras gerações de cristãos, de catacumbas obscuras a palácios imperiais, de Gibraltar à Mesopotâmia. Neles está em germe tanto o império teológico da cristandade medieval quanto as rupturas que o abalaram: da avassaladora onda islâmica ao cisma entre o Oriente e o Ocidente até a Reforma Protestante que escancarou as portas da modernidade. E, talvez, refazendo estes passos – humildes, corajosos, incendiários – os cristãos de hoje possam reencontrar a sua missão: reconciliar-se, anunciar a fé com novo ardor, e preparar, enfim, o mundo para a consumação do Reino de Deus.

Convidados

Marcus Reis Pinheiro: professor de filosofia da Universidade Federal Fluminense e coordenador do grupo de estudos em mística comparada.

Paulo Nogueira: professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autor de Breve história das origens do cristianismo.

Pedro Vasconcellos: professor de história da cultura da Universidade Federal de Alagoas e co-autor de Caminhos da Bíblia – Uma história do povo de Deus.

Referências
  • Breve história das origens do cristianismo, Religião e poder no cristianismo primitivo e Experiência religiosa e crítica social no cristianismo primitivo, de Paulo Nogueira.
  • Caminhos da Bíblia – Uma história do povo de Deus, de Pedro Vasconcellos.
  • História do Cristianismo (A History of Christianity), de Paul Johnson.
  • O Crescimento do Cristianismo (The Rise of Christianity) The Triumph of Christianity, de Rodney Stark. 
  • A Formação da Cristandade (The Formation of Christendom) de Christopher Dawson. 
  • História da Igreja de Cristo (Histoire de l’Église du Christ). Vol. I: A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, de Daniel-Rops.  
  • A História da Civilização (The Story of Civilization). Vol. III: César e Cristo, de Will Durant.
  • A Ascensão do Cristianismo no Ocidente (The Rise of Western Christendom), de Peter Brown. 
  • Domínio. O Cristianismo e a criação da mentalidade ocidental (Dominium), de Tom Holland. 
  • Roots of the Western Tradition: A Short History of the Ancient World, de C.W. Hollister.
  • The Early Church, de Henry Chadwick.
  • The Story of Christianity, de Justo L. Gonzales.
  • Christian History: An Introduction, de Alister McGrath.
  • The Cambridge History of Christianity. Vol. 1: Origins to Constantine, ed. por M.M. Mitchell e F.M. Young.  
  • The First Thousand Years: A Global History of Christianity, de Robert Louis Wilken. 
  • Ilustração: Afresco da Última Ceia na igreja de Meillonnas, França (Dreamstime.com)

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