
Sign up to save your podcasts
Or


Para alguns pensadores, a história humana é basicamente a história da cultura. Para outros, a história da economia. Mas há quem diga que ela nada mais é que a história da guerra. É plausível. Por que procurar a mola-mestra da História no poder das ideias ou no poder do dinheiro, e não simplesmente no poder do poder? Quer dizer: a força pura de dobrar os outros à sua vontade – ou aniquilá-los –, seja lá quão brilhantes ou ricos sejam.
Muito além dos quartéis e trincheiras, fala-se em guerra por toda parte – “guerras culturais”, “guerras comerciais”, “guerras santas”, a “guerra dos sexos”. Todo mundo maquina suas “táticas” e “estratégias” para tudo. O que são nossos esportes e jogos – do futebol ao xadrez – senão guerras sublimadas?
A guerra está em todo lugar. Mas o paradoxo é quão raros são os livros sobre a guerra. Não entenda mal: as guerras inspiraram obras primas da literatura – das epopeias de Homero aos romances de Tolstoi; toda geração produz toneladas de manuais militares – só para serem soterrados pelos manuais da geração seguinte, a par com as novas tecnologias. Mas e os livros sobre a guerra? Não sobre a guerra do Peloponeso, da Gália, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda ou a Guerra Fria, mas só sobre a guerra. O que é? Como começa? Como termina?
A Arte da Guerra, o clássico do chinês Sun Tzu, é demasiado “clássico” – fruto de um tempo arcaico e heroico onde combates eram travados com escudos, espadas e códigos de honra, milênios antes do poder de destruição em massa da pólvora e do poder de mobilização em massa dos Estados nacionais. Daí a afirmação ousada, mas difícil de refutar, de Bernard Brodie, um dos pais da estratégia nuclear, sobre o tratado do general prussiano Carl von Clausewitz: “Não é só o maior, mas o único grande livro sobre a guerra”. Como disse um estrategista contemporâneo: “Você pode lutar guerras sem ler Clausewitz, mas dificilmente pode entendê-las”.
Escrito no rescaldo das guerras napoleônicas, muito mais do que um manual bélico, o livro é uma meditação sobre a violência organizada e sua relação inextricável com o poder político. Muito além de táticas e estratégias, ele explora a guerra como um espelho da natureza humana, um fenômeno social, psicológico e moral regido pela “admirável trindade”: a “paixão”, o “acaso” e a “razão”, encarnadas no “povo”, nas “forças armadas” e no “governo”.
Como obra inacabada, ela nos lega não só luz, mas lacunas e contradições. Até hoje, contudo, em tempos de drones e guerras híbridas, Clausewitz permanece crucial para entender como e por que os homens lutam. Grandes estadistas – de Bismark a Mao Tsé-Tung, de Lenin a Eisenhower – formam fila com batalhões de generais, pensadores e até artistas para dar testemunho da ponderação do cientista político Christopher Coker: “Clausewitz permanece insubstituível – não porque tenha todas as respostas, mas porque ajuda a fazer as perguntas certas”.
Eugênio Diniz: Professor de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais e membro do International Institute for Strategic Studies.
Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos: Professor de Relações Internacionais da Unesp e autor de Clausewitz e a Política.
Sandro Teixeira Moita: Professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
Ilustração: Pxhere.com Free Images.
O post ‘Da Guerra’, de Clausewitz apareceu primeiro em Estado da Arte.
By Estado da ArtePara alguns pensadores, a história humana é basicamente a história da cultura. Para outros, a história da economia. Mas há quem diga que ela nada mais é que a história da guerra. É plausível. Por que procurar a mola-mestra da História no poder das ideias ou no poder do dinheiro, e não simplesmente no poder do poder? Quer dizer: a força pura de dobrar os outros à sua vontade – ou aniquilá-los –, seja lá quão brilhantes ou ricos sejam.
Muito além dos quartéis e trincheiras, fala-se em guerra por toda parte – “guerras culturais”, “guerras comerciais”, “guerras santas”, a “guerra dos sexos”. Todo mundo maquina suas “táticas” e “estratégias” para tudo. O que são nossos esportes e jogos – do futebol ao xadrez – senão guerras sublimadas?
A guerra está em todo lugar. Mas o paradoxo é quão raros são os livros sobre a guerra. Não entenda mal: as guerras inspiraram obras primas da literatura – das epopeias de Homero aos romances de Tolstoi; toda geração produz toneladas de manuais militares – só para serem soterrados pelos manuais da geração seguinte, a par com as novas tecnologias. Mas e os livros sobre a guerra? Não sobre a guerra do Peloponeso, da Gália, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda ou a Guerra Fria, mas só sobre a guerra. O que é? Como começa? Como termina?
A Arte da Guerra, o clássico do chinês Sun Tzu, é demasiado “clássico” – fruto de um tempo arcaico e heroico onde combates eram travados com escudos, espadas e códigos de honra, milênios antes do poder de destruição em massa da pólvora e do poder de mobilização em massa dos Estados nacionais. Daí a afirmação ousada, mas difícil de refutar, de Bernard Brodie, um dos pais da estratégia nuclear, sobre o tratado do general prussiano Carl von Clausewitz: “Não é só o maior, mas o único grande livro sobre a guerra”. Como disse um estrategista contemporâneo: “Você pode lutar guerras sem ler Clausewitz, mas dificilmente pode entendê-las”.
Escrito no rescaldo das guerras napoleônicas, muito mais do que um manual bélico, o livro é uma meditação sobre a violência organizada e sua relação inextricável com o poder político. Muito além de táticas e estratégias, ele explora a guerra como um espelho da natureza humana, um fenômeno social, psicológico e moral regido pela “admirável trindade”: a “paixão”, o “acaso” e a “razão”, encarnadas no “povo”, nas “forças armadas” e no “governo”.
Como obra inacabada, ela nos lega não só luz, mas lacunas e contradições. Até hoje, contudo, em tempos de drones e guerras híbridas, Clausewitz permanece crucial para entender como e por que os homens lutam. Grandes estadistas – de Bismark a Mao Tsé-Tung, de Lenin a Eisenhower – formam fila com batalhões de generais, pensadores e até artistas para dar testemunho da ponderação do cientista político Christopher Coker: “Clausewitz permanece insubstituível – não porque tenha todas as respostas, mas porque ajuda a fazer as perguntas certas”.
Eugênio Diniz: Professor de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais e membro do International Institute for Strategic Studies.
Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos: Professor de Relações Internacionais da Unesp e autor de Clausewitz e a Política.
Sandro Teixeira Moita: Professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
Ilustração: Pxhere.com Free Images.
O post ‘Da Guerra’, de Clausewitz apareceu primeiro em Estado da Arte.