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‘Da Guerra’, de Clausewitz


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Para alguns pensadores, a história humana é basicamente a história da cultura. Para outros, a história da economia. Mas há quem diga que ela nada mais é que a história da guerra. É plausível. Por que procurar a mola-mestra da História no poder das ideias ou no poder do dinheiro, e não simplesmente no poder do poder? Quer dizer: a força pura de dobrar os outros à sua vontade – ou aniquilá-los –, seja lá quão brilhantes ou ricos sejam.

Muito além dos quartéis e trincheiras, fala-se em guerra por toda parte – “guerras culturais”, “guerras comerciais”, “guerras santas”, a “guerra dos sexos”. Todo mundo maquina suas “táticas” e “estratégias” para tudo. O que são nossos esportes e jogos – do futebol ao xadrez – senão guerras sublimadas?

A guerra está em todo lugar. Mas o paradoxo é quão raros são os livros sobre a guerra. Não entenda mal: as guerras inspiraram obras primas da literatura – das epopeias de Homero aos romances de Tolstoi; toda geração produz toneladas de manuais militares – só para serem soterrados pelos manuais da geração seguinte, a par com as novas tecnologias. Mas e os livros sobre a guerra? Não sobre a guerra do Peloponeso, da Gália, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda ou a Guerra Fria, mas só sobre a guerra. O que é? Como começa? Como termina?

A Arte da Guerra, o clássico do chinês Sun Tzu, é demasiado “clássico” – fruto de um tempo arcaico e heroico onde combates eram travados com escudos, espadas e códigos de honra, milênios antes do poder de destruição em massa da pólvora e do poder de mobilização em massa dos Estados nacionais. Daí a afirmação ousada, mas difícil de refutar, de Bernard Brodie, um dos pais da estratégia nuclear, sobre o tratado do general prussiano Carl von Clausewitz: “Não é só o maior, mas o único grande livro sobre a guerra”. Como disse um estrategista contemporâneo: “Você pode lutar guerras sem ler Clausewitz, mas dificilmente pode entendê-las”.

Escrito no rescaldo das guerras napoleônicas, muito mais do que um manual bélico, o livro é uma meditação sobre a violência organizada e sua relação inextricável com o poder político. Muito além de táticas e estratégias, ele explora a guerra como um espelho da natureza humana, um fenômeno social, psicológico e moral regido pela “admirável trindade”: a “paixão”, o “acaso” e a “razão”, encarnadas no “povo”, nas “forças armadas” e no “governo”.

Como obra inacabada, ela nos lega não só luz, mas lacunas e contradições. Até hoje, contudo, em tempos de drones e guerras híbridas, Clausewitz permanece crucial para entender como e por que os homens lutam. Grandes estadistas – de Bismark a Mao Tsé-Tung, de Lenin a Eisenhower – formam fila com batalhões de generais, pensadores e até artistas para dar testemunho da ponderação do cientista político Christopher Coker: “Clausewitz permanece insubstituível – não porque tenha todas as respostas, mas porque ajuda a fazer as perguntas certas”.

Convidados

Eugênio Diniz: Professor de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais e membro do International Institute for Strategic Studies.

Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos: Professor de Relações Internacionais da Unesp e autor de Clausewitz e a Política.

Sandro Teixeira Moita: Professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.  

Referências
  • Clausewitz e a Política, de Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos.
  • Pensar a Guerra: Clausewitz (Penser la guerre: Clausewitz), de Raymond Aron.
  • Strategy: A History, de Lawrence Freedman.
  • Clausewitz: A Biography, de Roger Parkinson.
  • Clausewitz: A Very Short Introduction, de Michael Howard.
  • The Clausewitz Homepage.
  • Clausewitz and On War, no programa In Our Time, da Radio BBC 4.
  • Clausewitz: His Life and Work, de Donald Stoker.
  • Clausewitz and the State: The Man, His Theories, and His Times, de Peter Paret.
  • Reading Clausewitz, de Beatrice Heuser.
  • Masters of War: Classical Strategic Thought, de Michael I. Handel.
  • Clausewitz’s Puzzle: The Political Theory of War e Clausewitz and Contemporary War, de Antulio J. Echevarria II.
  • Clausewitz and Escalation, de Stephen Cimbala.
  • Clausewitz in the Twenty-First Century, de Hew Strachan e Andreas Herberg-Rothe.
  • Decoding Clausewitz: A New Approach to On War, de Jon Tetsuro Sumida.
  • The Fog of War, documentário de Errol Morris com Robert S. McNamara (A Névoa da Guerra, disponível com legendas em português em diversas plataformas).
  • “Great Strategists: Clausewitz”, série do podcast War Room do U.S. Army War College.
  • Clausewitz for the 21st Century, palestra de Christopher Coker.
  • “Clausewitz on War”, episodio do podcast Cui Bono.
  • Ilustração: Pxhere.com Free Images.

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