Clube Orekare Podcast

A ERA DO CANSAÇO: QUANDO A PRODUTIVIDADE ESCONDE O ADOECIMENTO


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Olá, tudo bem?

Como está você? Espero que bem!

Hoje, nosso convite para cuidar bem da sua saúde emocional começa com uma pergunta bem simples: aí, do seu lado da tela, está faltando ou sobrando ânimo?

Mas, afinal o que, de fato é ânimo?

Dando uma olhada no dicionário etimológico, encontrei a seguintes descrição:

A palavra ânimo vem do latim animus, que significa a alma, os pensamentos. Em latim, animus era o lado psicológico do homem, a sede dos pensamentos, das ideias, da vontade, das emoções e do caráter. Animus representava a parte do homem que não é física, mas que forma a identidade. Em português, o animus seria a alma, a mente, o coração.

E porque falar sobre isso importa?

Porque, às vezes, confundimos desgaste emocional com cansaço físico, falta de foco, procrastinação, preguiça… e chamamos isso de desânimo. Normalmente, isso acontece porque estamos tão condicionados a performar, a sorrir no automático e fingir que “tá tudo bem”, que ultrapassamos o limite do saudável e não reconhecemos a falta de ânimo como um sinal de alerta emocional.

Para além das nossas questões profissionais e individuais, naturalmente, mães e pais lidam com múltiplas responsabilidades, e rotinas extenuantes geram cansaço físico.

Cansaço físico é resolvido com descanso.

Contudo, descanso físico não garante descanso mental. E como isso é possível?Tendemos a não prestar atenção ao que pensamos, porque pensamos e como isso nos afeta.

Você já ouviu falar sobre estresse adaptativo? Ele acontece quando alguém se habitua tanto a viver sob pressão que passa a ter a sensação de que dá conta de tudo; pois realmente consegue dar conta de atender prazos insanos, virando noites, trabalhando em fins de semana, imparávelmente, e fazendo isso com as melhores intenções e justificativas.

E aqui vale uma observação interessante:

Quando seu cérebro entende que você está diante de alguma sobrecarga seja ela física, emocional ou cognitiva, ele puxa o freio como quem diz: você precisa corrigir a rota!

É por isso que um dia a conta chega. Quando o corpo faz os primeiros alertas, a saúde física começa a sair do eixo. Se não damos a devida atenção, a mente reage em busca de soluções e grita com crises de pânico, ansiedade, depressão… os chamados transtornos mentais que nascem da nossa falta de prevenção e cuidado com a nossa saúde emocional.

Agora, veja como isso tem repercutido, por exemplo, no mercado de trabalho brasileiro:

Esses dados do Ministério da Previdência Social nos mostram que o Brasil teve mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025, batendo recorde nesse quesito pela segunda vez em 10 anos.

Infelizmente, banalizamos o uso do termo “estresse”, como se ele fosse parte normal da nossa rotina. Claro que momentos de estresse são sim naturais, contudo viver em estresse, sem reconhecer que existem limites que não podem ser ignorados, é insustentável.

É preciso compreender que a grande maioria das pessoas pode facilmente confundir cansaço com estresse. Para te ajudar a compreender isso melhor, quero te contar a minha história.

A MINHA HISTÓRIA

Em 2024, escrevi o livro "O QUE HÁ EM VOCÊ" - disponibilizado como parte da entrega para quem participou do grupo Beta do Clube Orekare, um grupo muito especial de pessoas desejosas por cuidar melhor da saúde emocional de suas famílias e que nos ajudou a chegar a este formato atual.

Nesse livro, relato como, devido à normalização do cansaço, quem está diariamente procurando fazer seu melhor muitas vezes ignora sinais de alerta quanto à sua saúde mental.

Abaixo, compartilho um trecho dele, no qual conto como o adoecimento emocional pode alcançar quem a gente menos imagina: nós mesmos.

ACONTECE ONDE MENOS IMAGINAMOS.

Minha rotina era intensa. Eu produzia, dirigia, era repórter e apresentadora de um programa de tv; além de trabalhar também como assessora de imprensa. A demanda era alta e me fazia viajar muito. Lembro de uma sequencia de viagens que me deixou tão cansada que certo dia ao acordar, olhei em minha volta e pensei: “Caramba, isso aqui parece a minha casa”. Eu estava em casa, e começava ali a acordar e precisar de um tempo para saber onde estava. Achei engraçado, tipo: “acho que acordei, mas minha alma ainda não voltou ao corpo”. E nem pensei em dar qualquer tipo de atenção a isso.

Eu não parava! Trabalhava a semana toda e gravava nos finais de semana. Minha vida social e meu círculo de amigos eram muito conectados ao meu trabalho e tudo parecia uma grande festa, só que não. E, como eu amava esse ritmo frenético, não notava que vivia sob pressão, nem como também pressionava outros a andarem no meu ritmo. Muito pelo contrário, eu era dura na queda e a meu ver isso era bem positivo. Emocionalmente, eu sentia que havia algo... que eu não sabia bem o que era... mas tirava por cima. Deu ruim, levanta e vai.

Mesmo sentido que havia algo errado comigo, eu olhava para o meu corpo e não para a minha mente ou para as minhas emoções. Por volta 2004 surgiram alguns problemas de saúde e, após alguns exames, o médico disse: seu problema é estresse.

Olhando para traz, hoje, sei que naquele momento, meu maior problema era que, além de não saber o que era estresse, havia algo em mim que precisava de ajuda, de cuidado, mas eu também não sabia o que era.

As primeiras mudanças mais significativas demoraram a chegar. Somente alguns anos depois comecei me sentir desmotivada, desanimada, tomada por uma tristeza diferente... Eu achava que a vida era assim mesmo.

O tempo foi passando e eu segui como um trator, ignorando qualquer alerta. Mais ou menos em 2009, quando sai da tv e passei a me dedicar a assessoria de imprensa, trabalhando em um outro tipo de demanda, notei que estava perdendo concentração, produtividade e memória. Mas, quem não perde a chave do carro todo dia?

A tristeza começou a incomodar mais, e na primeira avaliação clínica a depressão foi descarta. Assim, seguindo orientação médica, fui fazer terapia por um tempo. Até que, no final de 2016, após outros tantos sinais ignorados, vi apagar da minha mente a responsabilidade de estar presente em um evento no qual eu deveria estar recebendo os jornalistas; convidados por mim mesma. Acordei com minha cliente ao telefone me perguntando onde eu estava e, só aí, eu entendi que precisava urgentemente de respostas.

Fui diagnosticada com distimia, um tipo de depressão crônica que no meu caso afetou não apenas minha memória, mas em especial minha capacidade de concentração, produtividade e desempenho físico…. Foi quando comecei a entender que fatores emocionais como o desânimo, a tristeza e outros sentimentos incômodos, eram alertas reais que poderiam ter sido melhor percebidos, diagnosticados e tratados de forma preventiva.

A distimia leva em média dois anos para ser diagnosticada. É caracterizada por uma irritabilidade constante que torna as relações mais difíceis, eleva o senso da autocrítica, da baixa autoestima, do desânimo e da tristeza, além da dificuldade de se concentrar; dentre outros sintomas que podem ser variáveis a depender do grau e da pessoa. Ela pode surgir por fatores bioquímicos, genéticos ou emocionais. O maior risco ocorre quando o paciente apresenta a chamada "Depressão Dupla", que é quando uma crise de Depressão Maior se sobrepõe à distimia pré-existente. A Depressão, especialmente a maior, em casos graves, afeta pessoas de todas as idades e, de 15% a 20% dos seus pacientes tentam ou tentarão o suicídio.

Quando eu precisei contar para algumas pessoas porque era urgente mudar meu ritmo de vida e me cuidar, 100% delas me responderam que: ou conheciam alguém muito próximo a elas que tinha o mesmo problema, ou, se reconheciam no mesmo lugar.

Após ser diagnosticada recebi a primeira medicação. Era um antidepressivo leve, fácil de entrar e sair dele. Como não surtiu efeito, o psiquiatra que me atendia decidiu dobrar a dose. Eu estava com uma viagem marcada para ficar um tempo no Hawaii e pensei: Como não vou ficar bem? Um mês longe de tudo e de todos, medicação ajustada. Hawaii! Vai dar bom!

Não deu.

Eu era forte, cheia de fé, cercada de gente boa, trabalhava com o que gostava, ganhava bem... contudo, não entendia muita coisa que sobre mim. Só então comecei a descobrir traumas bem escondidos, alguns esquecidos, e, sem ter consciência disso, lidava todos os dias com um furacão de emoções exaustivas.

No meu caso, apesar do meu corpo também sentir o impacto, a minha maior perda foi realmente cognitiva. Concentração, produtividade, memória e desempenho físico nunca mais voltaram a ser como antes. Ficou claro que era urgente me auto conhecer. Caso não fizesse isso, corria o risco de, por não conseguir mais alcançar a performance que eu entendia que precisava ter, fazer com que naturalmente isso me levasse a um nível de frustração e tristeza cada vez maiores. A consequência seria acabar tendo que lidar com a Depressão numa dimensão maior.

Cabeça e corpo são uma coisa só. É tolice acharmos que o que afeta uma parte não afetará a outra. Trabalhar minha mente e meu corpo para reaprender a conviver com as novas limitações foi o que me tornou livre da medicação antidepressiva.

A lição foi aprendida com sucesso, mas a duras penas. Criei minha própria dinâmica de autogestão e ela funciona bem até hoje. Não preciso de nenhum tipo de medicação antidepressiva ou que seja minimamente similar, como remédio para dormir ou algo parecido. As crises de concentração diminuíram bastante, mesmo assim quando começo a entrar em “looping mental”, que é quando não consigo me concentrar em nada e a produtividade vai para as "cucuias", parar e descansar faz total sentido. A atividade física, qualquer que seja, é fundamental. Se os dias de estresse crescem, cabe primeiro a mim ser paciente e lembrar que é só um dia ruim, ele passa.

Lido bem com gatilhos, porque quando o processo de cura está ativo o problema não está neles. Pelo contrário, aprendi a estar atenta a chegada de sentimentos ou pensamentos inadequados e estou pronta para lidar com eles. Estar alerta acaba sendo orgânico porque eles sempre voltam. Afinal, vivemos em mundo onde somos bombardeados de forma cruel por tantas coisas que valeria um livro só para falar disso. O ponto é: por mais que pensamentos indevidos batam à porta e tentem entrar, eu não permito mais que permaneçam na minha mente.

Nesse meio tempo me tornei mais criativa, corajosa, resiliente. Recebi a oportunidade de trocar de carreira, de cidade, de vida e continuo a ver minha evolução dia a dia. Considero que o meu passado, com todos os meus erros e acertos, fracassos, frustrações, problemas e dificuldades, somou a meu favor. Aprendi onde e como consigo render mais. Cresci em conhecimento sobre o tema e, no meu caso, até espiritualmente quando passei a compreender que, a Bíblia - eu sou cristã, é minha grande aliada na busca pelo autoconhecimento, sabedoria e pela mudança de mente.

Aprendi a pensar sobre o que penso, e essa chave mudou todo.

“O QUE HÁ EM VOCÊ” compõe a série de livro do Clube Orekare e está disponível gratuitamente para assinantes pagos. Se você entende a importância do nosso trabalho e deseja nos apoiar, clique no botão abaixo, faça upgrade para uma assinatura paga e receba o ebook “O QUE HÁ EM VOCÊ” como parte da nossa entrega.

A NORMALIZAÇÃO DO CANSAÇO NÃO É SAUDÁVEL

Ânimo vem de alma, vontade, daquela força interior que te mantém firme mesmo diante dos percalços da vida. Há quem defenda que ele nem é emoção, nem pensamento, mas uma energia emocional para agir.

Seu cérebro - razão sobre emoção - solta o alerta de forma preventiva para que você apure a causa. Acostumados com o ritmo de vida atual, tendemos a desconsiderar avisos importantes e, ao seguir sem dar ouvidos, é aí que, um dia, a conta chega.

De toda forma, quando estamos diante de desafios nossa mente busca soluções, e, se não as encontrarmos, naturalmente vamos alimentar as nossas preocupações. Como resultado, nossa mente tende a ficar agitada, inquieta, e quando não atentamos para isso, e não tomamos às rédeas do nosso controle mental, essa inquietação se torna o estopim para que o desgaste emocional se instale.

PORTANTO

Autoconhecimento começa quando nos auto observamos para melhor compreender o que sentimos e como isso afeta o que pensamos a nosso respeito.

Se você se sente estressado ou desanimado e essa mensagem fala com você, te pergunto:

* Você sente que há algo te incomodando mas não sabe definir o que é?

* Sente algum tipo de “peso” ou “cansaço” que mesmo após uma boa noite de sono ou dias de descanso, não te larga?

* O desânimo e a falta de motivação passaram a te fazer companhia constante?

* Como estão suas emoções? Elas dominam suas reações? Ou você as guarda tão bem que seu “sorriso” se tornou disfarce mesmo com um vazio escondido em um lugar que ninguém vê.

Se suas respostas foram sim, então, você precisa de ajuda mas também precisará se ajudar. Por isso, é importante ressaltar que investir em autoconhecimento é muito mais fácil do que a maioria de nós imagina. Aqui no Clube, semanalmente, te entregamos conteúdos que te ajudam a estabelecer passos firmes nessa jornada.

Se surgirem dúvidas quanto à forma como você está enxergando seu cenário, ou, se diante das perguntas acima, sua resposta for: não consigo entender o motivo de tanto cansaço, angústia, tristeza…. não sei como lidar com isso… então, busque ajuda médica especializada. Isso é sinal de força, não de fraqueza.

Se precisar de indicação ou suporte, envie uma mensagem e te direcionaremos de acordo com sua necessidade.

E importantíssimo! Muito cuidado com automedicação, uso de ansiolíticos ou antidepressivos desnecessários. Lembre-se: Toda medicação psicotrópica deve ser usada apenas sob rigorosa indicação e acompanhamento médico (psiquiatra). Ansiolíticos e remédios para dormir as vezes parecem inofensivos, mas podem causar dependência e até danos cognitivos.

ATENÇÃO!!

Aquilo que te afeta, também afetará quem está no seu entorno, seja família - cônjuge e filhos - amigos, ambiente de trabalho. Por mais que nos esforcemos para esconder nossas dores, de alguma forma, elas repercutem através de nós. Assim, como a de outras pessoas também nos alcançam, seja de forma positiva ou negativa.

Se é alguém próximo à você que precisa de ajuda, é importante te dizer que nem sempre quando estamos passando por isso conseguimos expressar o que sentimos e pensamos. As vezes nem a gente entende, então, paciência será necessária para encontrar a forma oportuna de bater um papo à respeito, entregar um conteúdo como este para a pessoa ouvir o que pode despertá-la para baixar a guarda e receber ajuda.

Se você tem alguém próximo a você diagnosticado com algum transtorno, procure compreender as características predominantes e aprender como lidar com isso. Em breve, traremos mais informações sobre isso aqui.

CLUBE OREKARE

Nosso propósito como Clube Orekare é promover desenvolvimento e saúde emocional para você e sua família. Portanto, se você quiser mais informações e conteúdos sobre temas que ainda não abordamos aqui, mas que são relevantes para o seu dia a dia em família, comenta abaixo quais são eles e vamos falar a respeito.

E, se você conhece alguém que precisa ter acesso a essas informações, compartilhe esse artigo. Esse conteúdo está disponível e acessível gratuitamente, aqui no Substack em texto e áudio, e também no Spotify e no Youtube.

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Nos vemos na próxima semana,

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