Comecei a escrever essa news há alguns dias após ler um alerta que voltou a ser destaque na comunicação de especialistas comportamentais: o aumento da tendência das taxas de suicídios para meninas e adolescentes (10 a 19 anos).
Quando um assunto como esse surge em alguma roda de conversa, ele tende a ser abordado de forma temerosa, com naturais lamentos e, por vezes, até sendo rejeitado, com algumas pessoas não querendo ouvir a respeito. Em situações como essa, já ouvi algumas mães repetindo frases como:
* Que horror!
* Deus me livre!!
* Vamos mudar de assunto que não quero nem imaginar isso!
Lamento informar: o medo, a rejeição do tema não vai nos livrar dele. Este é um assunto que requer nossa atenção. Por isso, é importantíssimo produzirmos conteúdos preventivos que nos façam pensar sobre o tema com a correta atenção.
É o que apresentamos a seguir: informações que nos ajudarão a compreender esse cenário e a agir de forma preventiva, não apenas por nossas meninas e meninos, mas por toda a família.
UM CUIDADO IMPORTANTE ANTES DE SEGUIR
Falamos aqui de prevenção, mas sabemos que para algumas famílias esse tema não é estatística: é dor presente. Se você, sua filha, filho ou alguém que você ama está passando por sofrimento emocional intenso ou pensamentos de tirar a própria vida, não espere. Buscar ajuda não é fraqueza.
A seguir, reforço: vamos entender melhor o cenário atual e como podemos agir de forma preventiva.
DADOS INTERNACIONAIS
Desde 2023, Zach Rausch (pesquisador do bestseller A Geração Ansiosa) já nos informava sobre a crise internacional de saúde mental. Em um dos seus artigos publicados aqui no Substack (na página AfterBabel, onde atua junto com Jon Haidt), ele destaca:
A crise de saúde mental entre os mais jovens é internacional e começou muito antes da pandemia de 2020.
O assunto não é novo, quem acompanha os dados publicados periodicamente já ouviu muito sobre isso, especialmente pós-pandemia. Mas o que eles vêm defendendo e comprovando através de estudos e pesquisas de um colegiado de especialistas, é como as taxas de suicídio já vinham aumentando entre adolescentes, especialmente meninas, não apenas nos países de língua inglesa mas também na Europa, Japão e Coreia do Sul desde o início de 2010 até 2020, ou seja, pré-pandemia.
É claro que o impacto da pandemia teve seu preço. Em outro artigo publicado em AfterBabel, assinado por Thomas Potrebny e Karen Schrijvers, eles compartilham dados relevantes e afirmam:
“As queixas de saúde psicológica e somática (física) entre adolescentes dobraram nos 41 países analisados nas últimas três décadas (1994-2022). Em 2022, quase 60% das adolescentes (meninas) e cerca de 30% dos adolescentes (meninos) relataram apresentar múltiplas queixas de saúde mental por semana. A prevalência desses sintomas varia de país para país, mas a tendência geral é clara e piorou desde o início da pandemia de COVID-19. Embora o aumento do sofrimento entre adolescentes seja anterior à pandemia, ela parece ter exacerbado e acelerado essas tendências negativas. De fato, em 2022, todos os 41 países registraram a maior prevalência de queixas psicológicas já documentada”.
Clicando aqui você pode conferir o artigo citado na íntegra e quais são os 41 países citados.
Mas, não para aí, ainda que muitos tenham defendido que o impacto da pandemia era o fator mais agravante desse cenário, o fato é que chegamos a 2026 e novos dados apontam que as taxas de suicídio juvenil continuam aumentando internacionalmente, particularmente entre as meninas. Vale ainda destacar que ao longo das séries de mapeamento dos dados quanto ao perfil de gênero, a liderança sempre foi masculina. Portanto, essa mudança de perfil requer uma observação mais apurada.
Em outro artigo, publicado no último dia 2 de julho, a psicóloga Jean M. Twenge analisa dados e fontes que confirmam: “as taxas de suicídio entre adolescentes do sexo feminino estão, de fato, aumentando em muitos países ao redor do mundo”.
Ela destaca:
“Os dados mostram um aumento de 2010-14 a 2020-22 - em todos os três grupos etários de adolescentes e jovens adultos (10-14, 15-19 e 20-24 anos) no Norte da Europa (que inclui Dinamarca, Finlândia, Islândia, Irlanda, Noruega, Suécia e Reino Unido). E o aumento não é pequeno — gira em torno de 50%. Também houve aumentos na taxa de suicídio feminino nesses três grupos etários na Europa Ocidental (Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo, Holanda e Suíça) e na UE como um todo, e em dois dos três grupos etários (10-14 e 15-19 anos) no Sul da Europa (Grécia, Itália, Malta, Portugal e Espanha). A única região sem aumentos foi a Europa Central/Oriental (por exemplo, República Tcheca, Hungria, Romênia, Sérvia) — e mesmo lá, as reduções na taxa de suicídio foram menores para adolescentes do que para mulheres adultas.
Uma ressalva: Mais do que outros indicadores de saúde mental, as taxas de suicídio podem ser influenciadas por muitos fatores... Existem também diferenças culturais e desenvolvimentos específicos de certos países ou regiões. Portanto, não se espera que as taxas de suicídio apresentem tendências semelhantes em todos os países”.
Em outras palavras: estamos falando de um termômetro trágico, porém mais objetivo, pois quando diferentes países começam a apontar para a mesma direção ao mesmo tempo, isso indica um fenômeno global ou estrutural.
ENQUANTO ISSO, NO BRASIL
Em matéria publicada pelo G1 em agosto do ano passado (2025), foi apresentado um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde que revelou o seguinte:
A cada ano, cerca de mil adolescentes perdem a vida por suicídio no país.
A cada dez minutos, um adolescente comete algum tipo de autolesão ou tenta tirar a própria vida no Brasil.
A análise afirmava ainda que, “apenas nos últimos dois anos, a média diária chegou a 137 atendimentos a jovens entre 10 e 19 anos. E que, de forma geral, as estatísticas acompanham a densidade populacional”.
Outra informação que vale nossa atenção são os dados divulgados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE/ IBGE), que escancaram a gravidade do cenário: 28,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos relatam tristeza frequente. No entanto, o recorte por gênero revela: enquanto 41% das meninas dizem se sentir tristes, a taxa entre os meninos é de 16,7%. Além disso, 25% das alunas — 1 em cada 4 — afirmam sentir que a vida não vale a pena ser vivida (frente a 12% dos meninos)
Dados públicos existem para nos alertarem sobre reações que precisamos ter. Sabemos que vivemos em uma era onde precisamos reaprender a educar crianças e adolescentes diante de um mundo bem diferente do que vivemos décadas atrás. A escola não é mais a mesma, a cultura e a forma como a consumimos mudou, os relacionamentos estão inseridos em outras dinâmicas comportamentais e a estrutura familiar vem sentindo o preço de tudo isso.
Antes de fechar conteúdos como esse, gosto de bater um papo com Jota Coelho, nosso especialista em combate à violência e ao bullying que atua em escolas e como conselheiro familiar. Jota vivencia o dia a dia de escolas e lares, ouvindo demandas familiares inimagináveis para muitos de nós. E ele nos alerta:
“Quando olhamos de fora para dentro, tendemos a buscar a raiz do problema como algo que invade nossa casa, rouba nossas crianças e adolescentes, nos tornando todos vítimas de uma mesma tragédia social. Contudo, há um lugar que precede o ambiente social e digital: o ambiente familiar. É nele que podemos atuar de forma preventiva e ativa para a saúde emocional dos nossos filhos”.
Abaixo, juntos, vamos mais aprofundar isso.
CONECTIVIDADE AFETIVA
Considerando as restrições de telas já impostas e um forte trabalho de conscientização que vem sendo feito, precisamos olhar para além do consumo das redes sociais e questionar:
Por que ansiedade, baixa satisfação com a vida, sofrimento emocional, má saúde mental e solidão continuam a crescer entre adolescentes e/ou jovens adultos em muitos países ao redor do mundo?
O ponto crucial aqui é compreendermos que:
A saúde emocional familiar está fundamentada na sua conectividade afetiva.
Podemos viver sob o mesmo teto, conviver diariamente e ainda assim não estar conectados. Sem pertencimento, acolhimento, confiança e laços profundos o suficiente, uma criança ou adolescente pode não se sentir vista nem valorizada, e, portanto, crescer desconectada e insegura em sua própria família.
Talvez esse seja o nosso maior desafio atualmente. Olharmos para dentro de casa e compreendermos que vivemos todas as nossas relações em duas dimensões, a visível e a invisível.
Na invisível: é onde a saúde emocional de todos os membros de uma família tem suas raízes profundas, pois é nela que o amor exerce a afetividade que nutre tudo que se tornará visível depois: relacionamentos, comportamentos, escolhas, e tudo isso depende da conectividade para se tornar bom fruto.
Na visível: seguindo essa metáfora, na dimensão visível podemos até olhar para uma árvore e do nosso ponto de vista ela ser frondosa, mas seus frutos nos dirão se suas raízes estão saudáveis ou não.
Raízes bem nutridas e irrigadas são a estrutura que fundamenta a conexão afetiva, desempenhando um papel fundamental para sua relação com o solo, sua força e resiliência diante de todos os tipos naturais de estresse e intempéries que virão.
Assim como toda árvore enfrentará desafios naturais, a família também será impactada por seu ambiente, cultura, circunstâncias e tudo que afeta cada um de nós, tanto de forma positiva quanto negativa.
NÃO ENTENDER ISSO CORRETAMENTE VEM SENDO NOSSO MAIOR PROBLEMA
Na literatura científica existe o termo vínculos familiares = family connectedness (ou parent-child connectedness), consolidado a partir do estudo Add Health (Resnick et al., 1997, JAMA), considerado um dos maiores levantamentos longitudinais sobre adolescência já feitos nos EUA. E, a conclusão central dele é:
A conectividade com a família foi o fator protetivo mais forte encontrado contra sofrimento emocional, ideação suicida, violência, uso de substâncias e iniciação sexual precoce.
A conectividade pontuou acima da estrutura familiar, renda ou escolaridade dos pais. Isso conversa diretamente com o Harvard Study (Waldinger) que afirma: a qualidade dos vínculos é o preditor mais robusto de saúde e bem-estar ao longo da vida.
E há ainda a prova pelo avesso. O maior estudo já feito sobre traumas de infância, o estudo ACEs, de Vincent Felitti e Robert Anda, mostra que a ruptura desses vínculos está no núcleo das experiências adversas que marcam a saúde física e emocional pela vida inteira.
Ou seja:
A mesma ciência que comprova que a conexão protege, comprova que a desconexão adoece.
COLOCANDO EM PRÁTICA
A nossa conectividade afetiva deixa pistas claras no cotidiano. Se estivermos atentos, é possível observá-la e até medir sua qualidade. Para diagnosticar como está a sua, reflita sobre os tópicos abaixo:
Diálogo que flui com facilidade
* Como vai seu tempo de interação real em casa?
* Suas conversas com seus filhos fluem de forma natural, leve e agradável?
* Quando seus filhos têm alguma dificuldade pessoal, seja ela emocional ou prática, como medo, angústia, problemas pessoais, seja na escola, com amigos ou qualquer outra coisa, eles recorrem a você - pai ou mãe - para contar, pedir conselhos ou desabafar?
Todos nós, inclusive eu e você, só desabafamos ou pedimos ajuda a alguém que confiamos, que se importa com o que sentimos e que cremos que vai nos ajudar. Quando fazemos isso e recebemos respostas superficiais ou desinteressadas, dificilmente voltaremos a esse lugar e vamos buscar acolhimento em outro.
Vou te dar um exemplo pessoal: minha mãe vivia me dizendo que o que ela mais queria era ser minha amiga, e o quanto admirava esse tipo de relacionamento. Contudo, todas as vezes em que tentei conversar com ela algo mais íntimo e confidencial, as respostas deixavam claro que ela não havia entendido o que falei porque não sabia me ouvir. E acontece muito!
Por outro lado, existe hoje uma confusão sobre responsabilidade parental e amizade, como se a conexão entre pais e filhos precisasse começar na amizade. Isso não é verdade. A amizade dentro da relação entre pais e filhos é diferente da amizade comum que nos cerca.
Pense um instante: quando ouvimos filhos que relatam que seus pais são seus melhores amigos, o que eles dizem sobre essa relação?
Que neles encontram proteção, acolhimento, conforto, consolo… que ensinam através da forma como vivem… como seu caráter é expresso em suas palavras e ações, como seus conselhos são sábios para as dúvidas e dores da vida. Percebe? Autoridade, confiança e segurança conquistadas por se tornarem referências de vida. Não por permissividade, não por liberdade excessiva, muito menos por falta de disciplina e limites.
Um pai ou uma mãe se tornam os melhores amigos dos seus filhos quando os filhos veem neles a inspiração dos mestres que os ensinam sobre a vida.
Tempo prazeroso juntos
* Qual o nível de prazer que vocês têm em estar juntos?
* Seus filhos curtem estar na companhia dos pais e dos irmãos?
* Vocês têm tempo de qualidade juntos e se divertem sem telas?
Na época da pandemia, um dos maiores desafios que muitas pessoas encontraram foi não suportarem estar imersos no seu ambiente familiar.
Quando o confinamento se tornou regra, e fomos obrigados a sair de uma rotina automatizada, alguns não suportaram o dia a dia com filhos e cônjuges. E diante do medo, do estresse e de tempos de incertezas, muitos não conseguiram se apoiar mutuamente e se sentiram ainda mais solitários e infelizes.
Como sempre reforçamos aqui, pais e mães que não sabem lidar bem com seus sentimentos e emoções, precisam se autoconhecer melhor para que possam ser bons educadores emocionais de seus filhos. E também para o seu próprio bem-estar.
Siga para o próximo ponto e considere: parte do prazer de estarmos juntos vem também da rotina que conseguimos desenvolver em família.
Rotina familiar saudável
* Passeios em família, conversas olho no olho, com ouvido atento ao que filhos pensam e falam, exercitando atenção curiosa antes de repreender sobre algo ou cortar o assunto, valem ouro.
* Pequenos gestos como um boa noite ou bom dia afetuoso, fazer ou comprar aquele bolo que alguém ama, demonstrações espontâneas e afetuosas de carinho (abraços, beijos, um “eu te amo” expresso de verdade).
* Sentar-se à mesa para as refeições diárias é um ato simples e poderoso, uma oportunidade de criar momentos de conversa e troca reais, sem telas ou outras dispersões.
* Disciplina e limites são necessários para a construção saudável de respeito e valor por si mesmo e pelos outros.
* Ouvir música, assistir um filme ou uma série juntos, e conversar sobre tudo isso, são formas de dialogar sobre cultura a partir de pontos positivos e agregadores.
* Cuidar da casa de forma conjunta, com incentivos e tarefas de acordo com a faixa etária, também ensina a colocar a vida em ordem.
* Até a espiritualidade precisa demonstrar: o que se fala, se pratica.
Todos os tópicos acima são apenas exemplos simples de como uma família pode exercitar conectividade afetiva no dia a dia. A conexão não nasce do convívio por si só. O amor contribui, mas até ele precisa da nossa escolha diária.
Quando cultivamos uma rotina que nos permite exercitar atenção e percepção apurada sobre o outro, reconhecemos olhares, expressões, e até, no silêncio, aprendemos a reconhecer o que não está sendo dito.
ENQUANTO ISSO
Se você, sua filha, filho ou alguém que você ama está passando por sofrimento emocional intenso ou pensamentos de tirar a própria vida, não espere. Peça ajuda!
CVV — Centro de Valorização da VidaLigue 188 — ligação gratuita, sigilosa, 24 horas por dia, todos os dias.Chat e e-mail em cvv.org.br
Em situações de emergência, procure o SAMU (192), uma UPA ou o pronto-socorro mais próximo. E lembre-se: pediatras, psicólogos e psiquiatras são aliados da família. Nenhuma criança ou adolescente deve atravessar isso sem acompanhamento profissional.
POR FIM
Hoje falamos sobre ações preventivas acessíveis e exercitáveis. Podemos agir de forma direta, em família, sem esquecer que existem fatores biológicos, psicológicos, sociais e relacionais que também contribuem para o cenário crítico que vivemos. Na próxima news vamos falar sobre como reconhecer e agir quando o problema já está dentro de casa.
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A gente se encontra na próxima semana,
Até lá!
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