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Como vai você?
Tudo bem? Espero que sim!
Hoje, diante do crescimento absurdo dos casos de violência doméstica que temos visto, nossa news é voltada para falarmos sobre a relação direta da infância - e da relação parental - com a violência contra mulheres.
Como ponto de partida, entenda:
Esse é um assunto complexo, com camadas profundas e não há uma resposta simples do ponto de vista emocional e comportamental.
A reflexão que vem a seguir é de fundamental importância, e tem como propósito ampliar nossa percepção sobre como podemos nos posicionar contra a violência dentro das nossas casas e diante do mundo que existe do lado de fora.
REALIDADE
Vou começar te contando uma história real, que aconteceu em março desse ano.
Ela tem pouco mais de 20 anos. Se mostrava dona de um discurso empoderado e morava com o noivo. Certo dia, os vizinhos começaram a ouvir as brigas do casal.
Ouvia-se mais ela do que ele. Ela gritava, e, às vezes, chorava. Quando isso acontecia, por várias vezes, os vizinhos mandavam mensagens e o zelador do prédio batia na porta do apartamento deles para verificar o que estava acontecendo. A resposta era sempre a mesma: “está tudo bem”, “não se meta”.
Até que um dia, a situação saiu de dentro de casa e chegou à porta do prédio. Nesse dia, em meio a mais uma discussão barulhenta entre o casal, a mãe dela estava presente e tentou tirá-la dali. De repente, o noivo atacou a mãe, literalmente enforcando-a.
Como o prédio estava em alerta e monitorava a movimentação, rapidamente conseguiram conter o agressor e chamaram a polícia. A mãe e a moça foram acolhidas; ele saiu de cena. Lembro da mãe dela dizendo: “ele não é assim, só está fora de si porque misturou remédios controlados à bebida”.
O fato dos vizinhos presenciarem a cena e chamarem a polícia fez com que ela fosse à delegacia formalizar a queixa. A polícia rapidamente encontrou o agressor e o prendeu. O que veio em seguida? A justificativa: Ele não era mau, foi só um momento de confusão. E assim, ela mesma buscou soltá-lo para não prejudicá-lo.
Dias depois, ouvi da boca dela: “ele quer voltar comigo. Eu disse que a gente precisa de um tempo e que ele precisa se tratar primeiro”. No mesmo dia, descobri que, como a entrada dele fora proibida no prédio onde tudo aconteceu, ela havia mentido para mim, e já estava tentando alugar outro apartamento para voltar a morar com ele.
Nunca mais ouvi falar dela. E te pergunto:
Amanhã, ela poderá ser a próxima vítima fatal de um feminicídio? É possível.
Ela sabe? Foi-lhe dito. Acredita? Não.
Esta é uma das muitas e diversas histórias que envolvem a violência doméstica contra a mulher. Mas, independe da singularidade que cada uma dessas histórias carrega, há uma similaridade terrível entre todas elas:
A enorme dificuldade de muitas mulheres reconhecerem que estão em risco enquanto ainda há tempo de agir.
A violência contra mulher extrapola classe social e nível intelectual. E o ciclo é ainda mais desafiador se há filhos, dependência financeira, negócios conjuntos, influência familiar, o desejo de ser pra sempre, de fazer dar certo, o medo ou a vergonha de reconhecer a realidade.
Muitas mulheres, mesmo vivenciando algum tipo de violência, abuso, relacionamento tóxico ou doentio, permanecem com seus parceiros. E é comum não conseguirmos compreender por que isso acontece. Tentamos alertá-las, tentamos ajudá-las, mas parece que estão cegas. E é verdade! Mas, essa cegueira tem raízes profundas.
A CONEXÃO ENTRE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA E A INFÂNCIA
Entre especialistas, há um consenso que prevalece:
Experiências familiares disfuncionais tendem a criar crenças internas equivocadas sobre relacionamentos.
O disfuncional se torna padrão, justificado com afirmações como estas: “conflitos são normais”, “sofrer faz parte do amor” ou “afeto só vem acompanhado de dor”.
Para muitas mulheres isso se torna rotina, algo “administrável”. Assim, o ciclo de tensão, explosão, pedido de perdão e lua de mel faz com que elas “não acreditem no risco”.
Pior, naturalizam explosão violenta como temperamento difícil, controle como cuidado e ciúme como prova de amor. De fato, elas permanecem crendo na promessa de mudança, na culpa imposta, no medo de ninguém acreditar nelas ou na vergonha de reconhecer sua realidade.
Onde está a raiz disso?
Crianças absorvem condutas sociais de gênero, sobre como homens e mulheres devem se comportar, primeiro em casa. Seja essa experiência negativa ou positiva, ela influenciará suas escolhas profissionais, relacionamentos, expectativas emocionais e comportamentais.
Assim sendo, a criança que cresce em um ambiente no qual predominam aspectos como: ofensa, injustiça, desrespeito, controle através do medo, rejeição, indiferença, negligência, ausência parental, dentre outras tantas formas de maus-tratos velados, internaliza que “não merece ser bem tratada”, e isso afeta diretamente sua confiança, autoestima, percepção de valor pessoal e a sua noção de “risco emocional”.
Quando adulta, essa criança, seja ela ou ele, tende a carregar essa mesma dinâmica para seus relacionamentos futuros, pois a forma como se relaciona com seus cuidadores molda o seu entendimento de amor e define as suas expectativas afetivas no futuro.
A IMPORTÂNCIA DE UM LAR SAUDÁVEL
É a Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicólogo britânico John Bowlby, que comprova: a forma como nos relacionamos com nossos pais molda o nosso entendimento sobre como o amor deve funcionar.
Assim, as experiências de relacionamentos iniciais de uma pessoa com seus pais - ou cuidadores - explicam por que alguns adultos são mais inseguros, agressivos, dependentes ou insensíveis do que outros.
Essas características psicológicas indicam como sua identidade emocional se desenvolveu ao longo da vida, tendo como base seus relacionamentos da infância.
E mais, essa influência tem relevância tanto para a vítima quanto para o agressor, e se conecta com o Estudo ACEs ( Experiências Adversas na Infância) uma das pesquisas mais respeitadas quanto à experiência familiar na infância e sua influência na vida futura. Conduzido pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e pela Kaiser Permanente, ainda nos anos 1990, esse estudo mostrou que:
Experiências adversas na infância - como formas de abuso, negligência ou testemunhar violência entre os pais - estão associadas a uma probabilidade maior de, na vida adulta, levar o indivíduo a ser vítima ou perpetrador de violência em seus relacionamentos íntimos.
Portanto, experiências adversas na infância aumentam a probabilidade de transmitirmos traumas às gerações seguintes, perpetuando um ciclo de adversidade e disfunção familiar. Quanto maior for a exposição, maiores os riscos futuros.
A vítima adulta de hoje é a menina de ontem. O agressor de hoje é também o menino de ontem. E os meninos e meninas de hoje, estão ainda mais vulneráveis que os de ontem. As redes sociais nos mostram isso. Crianças e adolescentes em busca de pertencimento, de visibilidade, de atenção e afeto já se tornam vítimas e agressores bem antes dos 18 anos.
A família é a base da sociedade, quando ela não vai bem, todo o entorno sofre. Isso ocorre porque esse é um problema intergeracional.
Em 2024, no Brasil, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública publicado este ano, o 190, serviço de emergência da polícia militar, registrou 1.067.556 chamadas sobre violência doméstica. Nesse mesmo período foram registradas 3.870 tentativas de feminicídio que resultaram em 1.492 mulheres mortas.
Até o último registro de 2025, de janeiro a setembro, segundo dados do Ministério da Justiça, mais de 2.700 mulheres sofreram tentativas de feminicídios e outras 1.075 se tornaram vítimas. Todos os dias, a mídia tem divulgado casos revoltantes como forma de denúncia.
Portanto, é natural querermos leis mais duras, mais ação policial, melhor eficiência no combate à violência e na proteção da mulher. Tudo isso é importante. Contudo…
Quando a nossa indignação foca no fim da cadeia e não na raiz do problema, se torna ainda mais difícil mudarmos essa realidade.
COMO MUDAR ESSE CENÁRIO
Para mudar o presente precisamos entender que a resposta começa em nós. E, uma das coisas mais incríveis a nosso respeito é que, ao compreendermos nossas experiências emocionais na infância e ao longo da vida, sejam elas construtivas ou adversas, podemos redefinir o que permitiremos ou não que prevaleça em nós.
É fundamental termos consciência de que:
Nossa maior ação preventiva é oferecer um lar emocionalmente sadio para meninas e meninos.
Entretanto, não vamos conseguir ter um lar estável sem estarmos saudáveis - emocionalmente - para lidar com a vida e seus altos e baixos.
Assim sendo, a primeira ação preventiva que pais e mães podem e devem fazer por seus filhos é:
Cuidar bem da sua própria saúde emocional para que possam cuidar bem de seus filhos e prepará-los para serem adultos aptos a construírem relacionamentos saudáveis.
RECOMEÇANDO
Ouvimos muito sobre como educar meninos para, no futuro, tratarem bem mulheres, ou, como educar meninas para serem independentes e não se submeterem à estrutural patriarcal. Ouvimos sobre masculinidade tóxica, machismo, feminismo e outros tantos ismos.
Considerando estudos, pesquisas e dados sobre a infância, o que percebemos é que famílias bem estruturadas emocionalmente, com seus papéis parentais bem definidos e equilibrados, mesmo com seus erros e acertos, tendem a derrubar a violência, o preconceito, o desrespeito, as circunstâncias contraditórias e o medo.
Vale ressaltar que pais saudáveis nem sempre vieram de famílias saudáveis, parte deles vieram de contextos complexos. Mas, decididos a quebrar o ciclo de abuso, buscaram formas de transformar legados adoecidos em recomeços poderosos.
CHECK LIST EMOCIONAL FAMILIAR
Relacionamentos podem ser nossa melhor escola de amor, respeito, caráter e valor humano. Essa receita arranca o mal pela raiz, trata a terra para receber novas sementes e dá bons frutos.
Homens e mulheres têm papéis diferentes na arquitetura familiar, contudo, as perguntas que vem a seguir se encaixam tanto para um quanto para o outro.
Primeiro, olhe para você e responda:
Você está bem? Que tipos de dores e sentimentos te acompanham? Você se ama?Que tipo de pensamentos tem a seu respeito? Positivos ou negativos? Sente que precisa de algum tipo de ajuda para lidar bem com sua emoções e sentimentos? Reconhece algum tipo de violência acontecendo dentro da sua casa?
Sobre seu cônjuge, considere:
Como você acha que ele se sente em relação a ele mesmo? Há algum tipo de dificuldade emocional que você reconhece nele? A forma dele de lidar com suas dificuldades emocionais machuca você e/ou seus filhos? A forma como ele expressa amor é saudável? Transmite segurança e compromisso com você e seus filhos?
Sobre seu relacionamento conjugal:
Entre erros e acertos, como você acredita que seu relacionamento é saudável e gera influencia positiva, amor e segurança parental aos seus filhos?
Sobre seus filhos:
Como vai seu relacionamento com seus filhos? Você investe em tempo de atenção e qualidade com eles? Que dificuldades emocionais você identifica neles? Percebe rápido quando algo não vai bem com eles? Vocês tem conversas sobre temas profundos e esse diálogo flui bem? Você os disciplina com amor e autoridade? Eles se sentem seguros para te contar segredos e medos? Você é exemplo de responsabilidade, caráter e atitude para eles?
Como família:
Vocês curtem estar juntos? Há expressões de amor e carinho, em gestos e palavras, fluindo naturalmente no dia a dia? Vocês se sentem seguros por terem um ao outro. Sentem-se amorosamente protegidos um pelo outro? Há respeito e ajuda entre vocês?
Essas perguntas têm como propósito aprofundar seu olhar sobre a saúde emocional da sua família. Fazê-las é exercitar autoconhecimento, que te ajuda a compreender melhor seus sentimentos e emoções, e amplia seu olhar familiar.
TUDO CERTO, MAS ALGO ERRADO
Existem contextos em que mesmo com todas essas questões alinhadas e esforço coletivo, nos deparamos com comportamentos problemáticos. Se isso acontece em sua casa, procure ajuda especializada e busque saber a fundo sobre onde está a raiz do problema.
Como Clube Orekare buscamos, incansavelmente, te dar informações que valem a sua atenção e reflexão. Como você pode ver, comprovadamente, sua saúde emocional não se limita apenas à forma como você se sente e se relaciona, mas revela o legado emocional que você recebeu. A boa notícia é que está em suas mãos definir como seguir adiante, consciente de que legado emocional você quer deixar para os seus filhos.
SE VOCÊ CONHECE ALGUÉM QUE É VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, ATENÇÃO!
Acredite no que ela conseguir compartilhar e ajude com presença e sem pressão. Cada situação tem riscos peculiares ao seu contexto. A violência se sustenta no silêncio e no medo. Não se compare, minimize ou julgue.
Primeiro ouça, isso te permitirá entender como ajudar. Se a mulher mantém algum tipo de dependência - emocional, financeira, seja qual for - ela pode não estar pronta para sair de onde está. Procure manter contato, seja socorro presente quando ela precisar.
Proponha ajuda especializada, sair de um relacionamento doentio é um processo. É preciso coragem, força e enfrentar medos é desafiador. Se a violência é física, o planejamento é essencial para diminuir riscos diante de um rompimento ou fuga.
Como medida de segurança, combine uma palavra-código para pedir socorro. Em casos extremos, combine um lugar seguro para encontro em caso de emergência. Oriente a vítima a manter documentos, dinheiro e contatos importantes acessíveis. Acompanhar essa mulher a uma delegacia ou atendimento médico, lhe ajudará a sentir-se amparada. Algumas precisarão de ajuda com seus filhos, abrigo temporário ou transporte.
Não esqueça, violência doméstica deixa marcas invisíveis. Medo, culpa, confusão emocional, dependência afetiva e financeira, podem fazer a vítima voltar para o agressor mesmo após situações absurdas e claramente violentas. Isso não é fraqueza, é consequência das suas vulnerabilidades.
Se houver risco iminente, ligue 190. Proteger uma vida é mais importante do que “não se envolver”.
MAIS IMPORTANTE AINDA
Se você se reconheceu como vítima de violência doméstica e não sabe como lidar com essa situação, peça ajuda. Não se envergonhe, nem se culpe. Caso o medo seja seu maior obstáculo, procure ajuda fora do seu círculo social.
Você pode fazer isso ligando para:
Se quiser falar conosco de forma privada, envie uma mensagem.
POR FIM
Esse é um assunto muito sério e essa news tem dois propósitos: ajudar você a entender como pode se tornar um agente de prevenção, e alcançar mulheres que precisam achar uma saída.
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Por hoje, eu fico por aqui!
Nos vemos em breve!
Até lá!
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