Momento Literário

A história da proibição


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No primeiro dia de 2014 o Colorado passou a ser o primeiro Estado, dos Estados Unidos a legalizar a cannabis para uso medicinal. Rompia-se na América do Norte, nesse primeiro dia de 2014, um ciclo de proibicionismo com 75 anos.

É na verdade estranho para nós pensar que a erva já foi legal, tanto para consumo indiscriminado, como para produção têxtil e uso industrial.

Não será errado de dizer, que a independência dos Estados Unidos foi assinada, por George Washington, numa folha de papel, feita a partir de cannabis. Não será errado atribuir a mesma origem às velas das caravelas portuguesas que chegaram ao Brasil.

O mesmo país que lançou uma campanha mundial para a proibição e se possível, extinção, deste perigoso narcótico, foi exatamente o mesmo que, entre 1920 e 1933, num estilo de alucinação política, proibiu o álcool. A lei seca foi revogada no governo de Roosevelt, e do seu rasto, sobrou a violência, a máfia e a corrupção. Durante este período, praticamente todos os americanos beberam álcool, assim como bebem nos dias de hoje. E da erva, poder-se-á dizer a mesma coisa?

A guerra às drogas, foi uma campanha criada nos Estados Unidos por Donald Regan, alimentada pelos Kennedy´s, aliciada pelos Bush e financiada pelo Nixon. Esta campanha de proporções mundiais, não merece ser analisada enquanto um ato político racional, mas antes uma projeção internacional de um surto psicótico doméstico.

Felizmente este circulo de proibição, que insiste em tratar criminalmente, aquilo que em última estância será um problema de saúde pública, foi quebrado por Barack Obama, e a Donald Trump agrada-lhe, o “taxe income “ fruto da legalização da cannabis recreativa em 12 Estados.

Os argumentos que levaram ao combate cerrado à cannabis em termos mundiais, foram oriundos dos Estados Unidos. Quando em 1910 as fronteiras entre o México e os EUA eram móveis, deixando um México mais pequeno, e um maior número de Estados Unidos, milhares de imigrantes, dependendo da perspetiva, mexicanos procuraram vida no grande colosso.

Plantava-se nessa altura cannabis por toda a América. E a planta enriquecia grandes industriais têxteis do Norte ao Sul do país.

Como na terra prometida, quase ninguém é bem recebido, o mesmo aconteceu com estas vagas de imigrantes, que traziam do seu país, méxico, o hábito de fumar erva. Entre não gostar de imigrantes mexicanos, a não gostar do que eles fumam, foi um processo instantâneo, para legisladores em todo o território: land of the brave, home of the free. Claro que no passado, nunca havia sido posta em causa tal necessidade legislativa, afinal, nunca nos Estados Unidos houve o hábito de colocar industriais atrás das grades.

Os loucos 60 haviam de chegar em força. E a ilegalização da cannabis nos Estados Unidos, contribui, estupidamente, para a sua popularização no mundo inteiro. O Woodstock revolucionou o planeta.

Em perspetiva histórica e social a maioria das drogas hoje ilegais, foram ilegalizadas não pelos seus efeitos, mas antes pelos grupos sociais que as consumiam. Será então legítimo pensar que se os principais consumidores de cocaína fossem homens brancos de terceira idade, e os principais consumidores de viagra fossem adolescentes dos subúrbios, a cocaína estava à venda em farmácias sem prescrição médica, e uns 8 anos de cadeia os quem fosse apanhado com 2 comprimidos de viagra no bolso.



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