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A pressão da relevância


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relevância

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engagement

relatable

são palavras que se repetem indefinidamente no marketing, muitas vezes usadas sem realmente sabermos o que significam, mas são, mais do que isso, palavras que interferem no nosso bem estar porque nos confrontam com o dilema da relevância versus a irrelevância. Dizem-nos que temos de ser relevantes e, como o contrário de relevância será a irrelevância, quer isso dizer que, se não formos relevantes, seremos irrelevantes?

Não. Seremos sempre relevantes para alguém.

A pressão da relevância é um dilema moderno, bastante recente, com ares de que sempre existiu. De facto, não é uma questão nova, mas a sua ampliação em termos de dinâmica e dimensão, transforma-a num problema completamente novo, especialmente porque nem sabemos definir, muito bem, o que isso da relevância.

E também falo sobre isso no meu livro que, entretanto, antecipou a pré-venda.

Um bocadinho como o viral (ou a ideia de que podemos criar um conteúdo viral), a relevância tornou-se na palavra da moda e não há pior do que seguir modas, mais ainda se estas não se adequarem a nós.

Estava a sair do talho do bairro (apesar de ter diminuído drasticamente o consumo de carne, para a minha família, vegetarianismo ainda não se conjuga no presente do indicativo) e a pensar nesta questão da relevância, para concluir que isso da relevância é uma grande mentira que nos andam a impingir porque, com mais ou menos likes, maior ou menor alcance, somos sempre relevantes e a relevância, como o sucesso, deve ser medida com base numa definição individual que apenas cada um de nós é capaz de fazer. Como o sucesso, portanto.

Algo sobre o qual também escrevo muitas vezes e, sobretudo, no meu livro.

Dizem-nos - não dizem de forma concreta, mas mostram-nos, através de mecanismos de condicionamento do comportamento e manipulação do pensamento, que precisamos de estar nas redes sociais digitais para mostrarmos quem somos, ter gostos e seguidores para reforçar a nossa identidade, aparecer em pesquisas no Google para existirmos ou criarmos relações com pessoas que não conhecemos para sermos alguém, além da pessoa que já somos.

Mentira. Mentira. Mentira e, novamente, mentira.

O maior luxo é sermos indetectáveis nas redes e o offline é o the new black.

Quem somos é uma indecifrável mistura entre as entranhas da pessoa que se reflecte ao espelho e a que deixamos que o mundo veja, pelo que não precisamos de rede nenhuma para que a nossa identidade se defina. Pelo contrário, tende a redefinir-se pela validação digital qual nos vergamos e a pressão a que somos sujeitos, alinhando a pessoa que realmente somos com a que queremos mostrar e a que os outros desejam ver. Quem são esses outros e porque importam para nós?

Da mesma forma, sem o reforço que os mecanismos de funcionamento destas redes provocam, no vício para a conquista de gostos e seguidores, equivalente a um jogo de azar no qual raramente ganhamos e habitualmente perdemos, plataformas como o instagram contribuem mais para diminuir a nossa auto-confiança e auto-estima do que para a reforçar, sobretudo quando as usamos com uma intenção de crescer, negociar ou dar a conhecer o nosso trabalho. O novo luxo é mesmo estarmos incógnitos, não aparecermos nos resultados das pesquisas do Google, não termos a nossa imagem espalhada pela web numa multiplicidade de sites. O verdadeiro luxo é o mistério associado à pessoa que somos, para a dar a conhecer em momentos e locais adequados. A web não é um deles, servindo mais para um modelo multimédia de páginas amarelas do que aquilo em que se transformou, uma espécie de centro comercial no qual há bibliotecas e museus, mas também escolas e painéis com informação em tempo real.

Caos. Cacofonia. Babel. Fim.

Conclusão?Da mesma forma que aquele talho, de bairro, é relevante para mim (mais ainda para a minha família), também cada um de nós encontrará uma forma de ser relevante, pessoal e profissionalmente. Sem gostos ou seguidores, consciente da sua natureza e características, aproveitando as redes para aquilo que melhor fazem: dar-nos uma ideia (aproximada) do real e do que acontece (ou do que nos mostram) no mundo…

Ainda sobre relevância e apenas para quem chegou até ao fim, duas vozes que ecoam no silêncio, fazendo-nos tremer. Admito que me apaixono por uma voz com muita facilidade e há por aí umas vozes que me fazem tremer. Carreguei em play, sabia ao que ia mas ouvi-los, assim, despidos de qualquer acessório que não a voz, sem a imagem que lhes conhecemos é uma experiência sonora que recomendo: the renegades, born in the USA, o podcast de Barak Obama e Bruce Springsteen.

Se quiserem acompanhar com O Silêncio, de Don DeLillo, garanto 45 minutos de magia. Também podem optar por uma versão menos tchan e conhecer o meu livrinho, ou ouvir a sua versão áudio. Arriscam?

Como não gostar?



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