Este modo de pensar, que chamo sentir.
Senti que possuía cabeça, mãos, pés e todos os outros membros.
Senti que esse corpo estava colocado entre muitos outros, dos quais era capaz de receber diversas comodidades e incomodidades e advertia essas comodidades por certo sentimento de prazer ou de voluptuosidade e essas incomodidades por um sentimento de dor.
Sentia também em mim a fome, a sede e outros semelhantes apetites, como também certas inclinações corporais para a alegria, a tristeza, a cólera e outras paixões semelhantes.
Eu acreditava sentir coisas inteiramente diferentes de meu pensamento.
Elas se apresentavam ao meu pensamento sem que meu consentimento fosse requerido para tanto.
Não podia sentir objeto algum, por mais vontade que tivesse, se ele não se encontrasse presente ao órgão.
As ideias que recebia pelos sentidos eram muito mais vivas, mais expressas e mesmo, à sua maneira, mais distintas do que qualquer uma daquelas que eu mesmo podia simular, em meditando, ou do que as que encontrava impressas em minha memória, parecia que não podiam proceder de meu espírito
De sorte que era necessário que fossem causadas em mim por quaisquer outras coisas.
Coisas das quais não tendo eu nenhum conhecimento senão o que me forneciam essas mesmas ideias, outra coisa me podia vir ao espírito, só que essas coisas eram semelhantes às ideias que elas causavam.
Me lembrava também que me servira mais dos sentidos do que da razão e reconhecia que as ideias que eu formava por mim mesmo não eram tão expressas quanto aquelas que eu recebia dos sentidos e, mesmo, que eram, as mais das vezes, compostas de partes destas, eu me persuadia facilmente de que não havia nenhuma ideia em meu espírito que não tivesse antes passado pelos meus sentidos.
Não era também sem alguma razão que eu acreditava que este corpo (que, por certo direito particular, eu chamava de meu) me pertencia mais propriamente e mais estreitamente do que qualquer outro.
Jamais eu podia ser separado dele como dos outros corpos
Sentia nele e por ele todos os meus apetites e todas as minhas afecções [sou apaixonado pelo meu corpo]; e, enfim, eu era tocado por sentimentos de prazer e de dor em suas partes e não nas dos outros corpos que são separados dele.
Aprendi outrora de algumas pessoas, que tinham os braços e as pernas cortados, que lhes parecia ainda, algumas vezes, sentir dores nas partes que lhes haviam sido amputadas; [dor fantasma] isto me dava motivo de pensar que eu não podia também estar seguro de ter dolorido algum de meus membros, embora sentisse dores nele.
E a essas razões de dúvida acrescentei ainda, pouco depois, duas outras bastante gerais. A primeira é que jamais acreditei sentir algo, estando acordado, que não pudesse, também, algumas vezes, acreditar sentir, ao estar dormindo; e como não creio que as coisas que me parece que sinto ao dormir procedam de quaisquer objetos existentes, não via por que devia ter antes essa crença no tocante àquelas que me parece que sinto ao estar acordado. E a segunda é que, não conhecendo ainda ou, antes,
Fingindo não conhecer o autor de meu ser.
Se eu fosse eu próprio o autor de meu ser.