«Com um ano de vida tivemos de fazer à pressa o luto de um filho saudável mas foi com naturalidade porque eu estava lá e vi tudo a acontecer”, recorda.
Quando as pessoas dizem «Porquê a mim?» eu pergunto, porque não a mim? Quando a doença acontece, pode parecer fácil falar porque o sofrimento físico não era meu – às vezes, porque muitas vezes sentia como se fosse meu – mas porque não a mim? A nós? Se o meu filho nunca me fez duvidar disso, quem sou eu, sozinha, para duvidar? Eu não consigo explicar como é que aceitei a doença do meu filho mas aceitei a cada passo. Senti-me sempre reconfortada, apesar de haver alturas em que estava aflita com o seu estado de saúde”.
“O João participou de todas as decisões que havia a tomar sobre a sua morte. Ele tinha consciência da doença grave e sabia que não estaria connosco muito tempo. Ele escolheu onde queria morrer, as músicas que deveríamos ouvir ou não. Nós íamos fazendo as perguntas e ele ia dizendo o que queria ou não”, recorda.
Eu abandono-me nas mãos de Deus, quando sinto que se está a aproximar o desespero, seja por que motivo for, ou a doença do João, o quadro demência da minha mãe, a falta de trabalho, faço o que a minha mãe me ensinou a fazer – entregar-me nas mãos de Deus. Não é uma relação qualquer a minha relação com Deus, é a relação, e dela partem todas as relações. A minha fé saiu reforçada, por mais que seja difícil este tempo sem ele fisicamente comigo”.
Sílvia Artilheiro Alves foi cuidadora informal do seu filho, que faleceu com 16 anos. Num processo que teve início quando o João tinha apenas um ano, Sílvia e o marido foram aprendendo a cada passo a aceitar e a cuidar de um filho que tiveram de descobrir.
Esta é a história da relação de uma mãe e do seu filho mas é também a história «da» relação que Sílvia elege como a primeira e a principal da sua vida.