à toa pelo mundo

Alô, mãe? Sofri um acidente...


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Alô, mãe? Tudo bem?

Tudo bem, quer dizer, mãe, caí de moto. Mas tá tudo bem! Tô no hospital esperando o médico me liberar.

Eu só me ralei, um enfermeiro já me atendeu. Não precisei nem de ponto, não quebrei nada! Tô em Koh Phangan, é uma ilha no sul da Tailândia, na costa leste.

Então, a gente alugou uma moto pra andar pela ilha, porque o taxi é muito caro. Não, eu não tava dirigindo, mãe, você sabe que eu não sei pilotar moto! Eu tava na garupa, por isso também que eu não machuquei mais.

A Ojee, uma amiga canadense, que tava dirigindo. Ela tá ok, não machucou muito, mas vai ter que ser atendida num hospital maior, em outra ilha. A pele do joelho dela ficou no asfalto, deu pra ver o branco do osso antes de começar a sair um mundo de sangue.

Desmaiei não, só fiquei gritando Hospital em português, inglês e espanhol, pro povo que juntou em volta da gente fazer alguma coisa, aí chamaram uma ambulância e a gente veio pra cá. Um enfermeiro muito gentil limpou meus machucados. O joelho que tá pior, mas acho que consigo andar meio mancando sim.

Mãe, a ambulância que apareceu era só uma caminhonete branca com uma cruz pintada. Mas o hospital aqui é muito bom, talvez o melhor que eu já fui.

O hospital de Koh Samui, pra onde a Ojee tá indo, diz que é ainda melhor, é tipo um resort, os quartos têm até vista pro mar.  Descobri que os hospitais aqui são bons porque tem muita gente que vem fazer turismo médico. Ah, o povo vem fazer terapia especial, plástica, implante de cabelo, tratamento de dente, essas coisas que plano de saúde não cobre. Aqui é bem mais barato e é bom.

A Ojee? Acho que não te falei dela, nem deu tempo. A gente se conheceu no ônibus de Bangkok pra cá, ela e a Jenny. As duas são canadenses. A Ojee machucou mais porque tava pilotando, né?

Ah, mãe, foi bem ridículo na verdade. A gente tava saindo do estacionamento perto de uma cachoeira que fica no meio da ilha, aí a Ojee acelerou demais a moto, um cachorro passou na nossa frente, aí ela desviou meio sem jeito, derrapamos na areia do estacionamento e batemos numa árvore.

Pois é. Não, a Jenny tava em outra moto, tá tudo bem com ela. A gente num devia tar nem a 10km/h. É, dos males o menor…

Agora vou ter que ficar um mês sem entrar no mar, também não posso tomar sol nem deixar entrar areia no curativo. Um saco. Tô indo pra Bangkok depois de amanhã, aí vou pro norte, porque não faz sentido nenhum estar na praia e não poder ir na praia. Em Chiang Mai tem montanhas bonitas e as coisas são mais baratas.

As praias aqui nem achei nada de mais, viu, o Brasil é melhor.

Claro que vou me cuidar, mãe! Eu me cuido, mãe!

Foi, foi muito besteira ter subido na moto com ela, mas ela disse que sabia pilotar… hahaha é, não sabia.

Pelo menos a gente tava devagar e não caiu na estrada. O enfermeiro disse que ontem uma menina chilena perdeu a patela num acidente de moto, coitada.

Acionei o seguro sim, mas a franquia é 100 dólares e não paguei nem 90 com ambulância e atendimento.

Ih, a cachoeira? É só uma quedinha de água num pocinho, mãe, nem valeu a pena. É, o Brasil é incrível mesmo, a gente fica desacostumada. As gringas achando ótimo e eu pensando na Serra do Cipó.

Mãe, o médico tá me chamando, vou receber alta e voltar pro hotel, tá?

Depois te dou mais notícias, tá bem?

Não preocupa não, viu? Beijo procês aí de casa também.

Tchau, te amo.

Alô, mãe?

Tô bem sim, cheguei tranquila aqui em Bangkok. O joelho tá recuperando bem, super bem. O pé eu nem lembro que machuquei e o cotovelo só tem um raladinho agora.

Nossa, mãe, aqui tem muita gente machucada de moto, agora que eu tô reparando. O povo de muleta, com o joelho enfaixado, pé quebrado. É muito comum ter acidente, eles alugam moto pra qualquer pessoa. Super, super perigoso.

Mãe, cê não vai acreditar. Anteontem eu saí da ilha, né? Peguei barco, depois um ônibus até uma rodoviária bem tosca de onde ia sair o ônibus praqui pra Bangkok. E quem é que aparece na rodoviária pra pegar o mesmo ônibus que eu?! As canadenses! Elas resolveram ir embora da ilha lá do hospital-resort no mesmo dia que eu na outra ilha e compraram passagem com a mesma empresa e pro mesmo horário que o meu! Mundo pequeno demais, nossa.

Elas não, já foram pra Chiang Mai direto. Eu vou amanhã, de trem. Diz que o trem é super confortável, comprei passagem com cama e tudo.

Reservei o mesmo hostel que as meninas, que aí vou ter companhia pra ficar de molho com a perna pra cima. A Ojee teve que dar um monte de ponto no joelho, mas vai ficar uma cicatriz bem menor que a minha. Pois é, rs, mas tudo bem.

Ontem conheci um espanhol-português, o Ramon, muito gente boa, e ele me apresentou pra um casal de enfermeiros de Barcelona muito legal, Claudia e Javier. Os dois me ensinaram a trocar o curativo e ver se tá infeccionado, tal. Eles falaram que o machucado tá cicatrizando super bem. É, agora não preciso ficar indo em clínica toda hora, chega de gastar dinheiro com isso.

Os três tão indo pro Mianmar amanhã, já anotei várias dicas deles pra quando eu for. Talvez a gente se encontre no Laos ou no Camboja, o Javi e a Clau vão pra lá depois mais ou menos na mesma época que eu. Aham, todo mundo viaja mais ou menos pros mesmos lugares. Também, todo mundo usa o Lonely Planet! Nem tem como escapar.

Ó, fala pro papai que eu tô bem sim viu, tô me cuidando direitinho. Já nem dói pra andar mais.

Chato é ter que ficar cuidando de curativo e usar roupa de manga comprida. É, não quero tomar sol na cicatriz mesmo não. Comprei duas calças e duas blusas de algodão bem leve pra poder ir revezando.

Nossa, aqui tá muito calor e no norte faz mais calor ainda, parece.

Pelo menos o acidente foi do lado direito, né? Vantagem de ser canhota.

Aham, tá tudo bem sim. Ah, eu não saio muito, mas aqui perto tem várias coisas interessantes pra fazer. Ontem à noite eu fui na rua com o Ramon, o Javi e a Clau e a gente comeu vários insetos. Tive nojo não, tava tudo fritinho. Era tipo um self-service, pegamos vários tipos.

Gafanhoto é o típico, mas achei meio grande, desajeitado de comer e a casca gruda no dente. Mas eu gostei das larvinhas, é crocante por fora e macia por dentro, sabe? Parece batata frita.

Haha desculpa, não sabia que já era hora do almoço! Aqui daqui a pouco vou sair pra jantar.

Eu almocei salada de mamão verde, é super fresquinha mas muito apimentada. A cozinheira prepara na hora, na rua mesmo: rala o mamão no ralo de lágrima e mistura com uns molhos, limão, pimenta e amendoim. Eu pedi sem pimenta, mas só o restinho que tava na bacia que preparou o meu já me deixou com a língua ardendo. Mãe, cê precisava ver, eu falei tantas vezes que era sem pimenta que ela morreu de rir do meu desespero. Pra ela não tava forte, mas o papai não daria conta de comer. Eu quase não dei…

Aham, pedi um suco de manga e tomei junto, super ajudou a cortar a ardência. As mangas aqui são docinhas e sem fiapo, super super gostosas. Comi melancia amarela ontem também. É uma melancia igual à vermelha, o mesmo gosto docinho, semente igual, só que é amarela. A vermelha é mais bonita.

Então tá, vou indo então, mãe!

Beijão pro papai e pras meninas também. Tchau.

Depois eu dou mais notícia, tá?

Beijo,

Lívia



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à toa pelo mundoBy Livia Aguiar