~ à toa pelo mundo ~

~ à toa pelo mundo ~

Download on the App Store

~ à toa pelo mundo ~ episodes

  • tempo suspenso na hamam

    olá!

    chegou o novo episódio de ~ à toa pelo mundo ~, um romance de viagens em processo de escrita. se você chegou agora, bem-vinde 🌈 o começo da viagem tá aqui.

    este capítulo inclui leitura em áudio. tem quem goste de ler e ouvir ao mesmo tempo.

    o ano é 2012. estamos na Turquia…

    tempo suspenso na hamam

    depois de seis meses viajando sob o sol, volto a Istambul numa manhã quentíssima de junho. estou exausta. a pele morta acumulada no meu corpo precisa ir embora. 

    resolvo fazer como os antigos turcos e me banhar numa hamam. são muitas opções e me decido pela Çemberlitaş (lê-se tchemberlitash) por ser a mais antiga de todas, em atividade desde 1584. um edifício construído pelo grande arquiteto do império otomano Minar Sinan, que projetou mesquitas, universidades, palácios, cozinhas públicas, pontes. em Istambul é assim: a gente tropeça em pedras que estão na rua há tanto tempo quanto o primeiro contorno de Brasil num mapa-mundi...



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    14 min
  • Fazenda no norte do norte do norte (parte 4 - final?)

    Olá, estou de volta com a newsletter, com a promessa de demorar menos pra enviar os episódios. A meta é enviar 1 capítulo por mês, responda a esta missiva com sua mensagem de incentivo :)

    Para: Kurt Randecker, Hestmonvågen, 8197 StorselsøyDe: Lívia Aguiar, Rio de JaneiroJaneiro de 2018

    Oi Kurt,

    Já faz 6 anos que você me buscou no pier de Hestmona. Era um dia nublado com uma garoa leve e ignorável, como a maioria dos dias que estive na ilha. Talvez não se lembre de mim, você deve receber tantos voluntários todo ano. E eu tenho sido uma amiga péssima e mentirosa. Te falei que mandaria uma carta quando voltasse ao Brasil e não mandei. Bem, estou mandando agora, então talvez eu seja só uma amiga péssima que demora demais pra cumprir promessas.

    Estou escrevendo um livro sobre a longa jornada ao redor do mundo que me levou até a sua fazenda e sua ilha magnífica. Reli meu diário sobre nossos dias juntos e encontrei seu endereço. Espero que esteja correto e que esta carta te encontre com muita saúde, mente sã e paz em sua casa.

    Lembro com carinho dos nossos dias claros de verão e das noites de pôr do sol na sua sala aquecida, dividindo histórias e fazendo cafuné no gato Bobolink. Eu fiquei aí por apenas 12 dias, mas foi o suficiente para aprender lições inesquecíveis sobre viver de maneira simples e cuidando de todos os seres, sobre resistir contra o que acreditamos que tá errado no mundo. Você é muito especial, inteligente, crítico e gentil. Cê já deve saber disso, mas preciso dizer mesmo assim, pra que saiba que eu também sei.

    Alguns dias depois que eu cheguei, você me contou que a Marie Louise temia que eu ficasse com medo de estar sozinha com você enquanto ela trabalhava em outra ilha. Ainda bem que eu nem pensei nessa possibilidade. Desde o momento que você me acolheu, sempre me senti segura. 

    Bem, pra falar a verdade, eu tive um pouco de medo de me perder enquanto caminhava pela ilha, sem ninguém pra me ouvir caso precisasse de ajuda. Também tive medo naquele dia que a gente remou pra dentro da baía pra tentar pescar. Eram duas da manhã e o sol estava baixo, reluzindo rosas e laranjas ao redor do horizonte, sobre nós e sobre a foca que seguia o barco. Você disse que talvez as baleias pudessem tentar virar a embarcação pra pegar o que conseguíssemos pescar. Temi que a gente tivesse que nadar naquelas águas congelantes até a praia!

    Felizmente, não pescamos nada, então estávamos completamente a salvo de baleias ladras. Suspeito que a foca comeu todos os peixes que conseguimos atrair com nossas iscas, mas talvez nós fôssemos dois péssimos pescadores, desejando não conseguir pescar pra não ter que matar um ser vivo. Não precisávamos de peixe, era só uma desculpa pra sair com o barco e olhar pra fazenda desde o oceano. Espero que tenha se divertido tanto quanto eu.

    Imagino que você esteja acostumado com as suas belas montanhas, mar negro, dias insanamente longos durante o verão e noites ainda mais duradouras, iluminadas pela aurora boreal, no inverno, mas espero que não esteja acostumado demais a ponto de se sentir entediado. Sei que você é um de nós que vê poesia num campo de cravos floridos, pôres do sol iridescentes e nuvens de formas interessantes.

    Queria ter conseguido acordar mais cedo todos os dias pra te ajudar na ordenha. Mas eu estava tão cansada, por favor entenda. Eu estava vindo de uma rotina apressada, pedindo carona, caminhando muitos quilômetros por dia, dormindo em tendas e sofás. Viajar pela Noruega é caro, como tudo nesse país, mas sou grata por ter ido, mesmo que tenha precisado viver como mendiga por um tempo. Sou ainda mais grata por ter encontrado seu perfil no WWOOF e que você e Marie Louise tenham me aceitado aí por uns dias.

    Esta carta está ficando longa, mas meu pedido é curto: por favor, continuem. Sigam cuidando de sua terra e das criaturas que dividem o espaço com vocês. E continuem aceitando voluntários. Não é só a fazenda que precisa de ajuda. Nós precisamos de vocês, precisamos conhecer outras formas de viver, amar e resistir. Sua vida é inspiradora. Os anos que você e Marie Louise passam lutando pelo direito de viver livremente são inspiradores.

    Às vezes me sinto exausta de tanto protestar, resistir, denunciar o que eu sinto que está errado, cansada de ser considerada louca quando me sinto sã. Então me lembro do dia que carregamos merda de vaca do curral pra composteira.

    Eu trabalhava e repetia “Se você ama o leite, tem que amar a bosta” como um mantra. 

    A natureza é ao mesmo tempo incrível e terrível. É morte e transformação, ciclos intermináveis de vitalidade e decomposição. É preciso força pra carregar as merdas que tão espalhadas por todo lado para o melhor lugar, paciência pra esperar a natureza transformar restos fedidos em alimento saudável pras plantas. Então força de novo pra espalhar essa vida transformada e concentrada sobre a terra faminta. Quando me sinto cansada (e só tenho 31 anos), lembro que vocês estão lutando há mais tempo do que eu existo no mundo. Lembro da sua risada, dos olhos brilhantes de Marie Louise e das histórias que dividiram comigo. 

    Existe muita merda no mundo e as pessoas continuam cagando mais e mais. Mas com tempo e trabalho, ela vai se decompor. Vai sim.

    Cheguei na sua ilha querendo paz e quietude, encontrei amizade e força. Por isso, sou eternamente grata.

    Com amor,

    Lívia

    Para: Kurt Randecker, Hestmonvågen, 8197 StorselsøyDe: Lívia Aguiar, Rio de JaneiroJaneiro de 2024

    Querido Kurt,

    Faz um bom tempo e uma pandemia que não nos falamos, meu amigo. Espero que você e Marie Louise estejam saudáveis e no meio da natureza, como amam estar.

    Desde o nosso encontro, as mudanças climáticas chegaram, como foi anunciado por tantos anos. Me pergunto se sua fazenda está mais quente agora. Talvez vocês tenham precisado mudar a forma de manejar a terra, ou sei lá… gostaria de saber!

    Essa é a terceira vez que envio a carta que está aqui em anexo, sem resposta. Envio este bilhete junto pra atualizar as notícias. Talvez vocês tenham se mudado pra outra ilha ainda mais longínqua e esta carta nunca vai alcançá-los, talvez as cartas anteriores se perderam, talvez vocês não tenham tido tempo de responder de volta, talvez a sua resposta tenha se perdido no caminho, talvez… não sei, mas aqui estou tentando de novo. Talvez ela chegue como um presente de inverno, pra clarear o dia por alguns instantes.

    Agora eu moro no Rio de Janeiro e cada estação parece ser mais quente. Estamos no meio de uma onda de calor e, enquanto meu corpo é esmagado pelo sol, minha mente flutua para outro verão, 12 anos atrás, na mágica Hestmonvågen, onde um sol gentil e macio clareia a terra e nossos sonhos. Desde 2012, eu publiquei um livro e mais de 20 pequenas zines, duas delas em português-inglês, que envio junto com essas cartas.

    Obrigada de novo por todos os ensinamentos, pelo tempo valioso que partilhamos, pela aventura calma e inesquecível que vocês me permitiram viver em sua terra.

    Realmente espero que esta carta chegue até você de alguma forma.

    Se chegar, me avise!

    Com muito amor,Lívia

    No hiato entre a parte 3 e a 4 desta história que se passou na Noruega, esperei em vão por uma resposta do Kurt à minha 3ª e última carta pra ele.

    Frustrada com o silêncio, achei o email de um documentarista norueguês que gravou um curta na fazenda no mesmo ano que estive por lá. O Trond disse que não tem notícias do Kurt, mas compartilhou o link pro filme.

    Fiquei muito feliz de ver imagens belíssimas desta ilha que mora num lugar especial da memória (não entendi nada, pois está em norueguês). Aqui está:

    Beijinhos e até a próxima,

    Lívia



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    10 min
  • fazenda no norte do norte do norte (parte 3)

    este capítulo começou aqui (parte 1), seguiu aqui (parte 2) e continua abaixo…

    KURT RANDECKERuma biografia não autorizada, escrita a partir das nossas conversas

    nasci em 1952 na cordilheira do Jura, a norte dos Alpes. montanhas muito bonitas que separam os rios Reno e Ródano. a fazenda do meu pai fica na parte alemã que poucos anos depois ficou na mão dos ingleses. foi muito difícil durante a guerra, mas não falávamos disso em casa. 

    nasci aprendendo alemão e inglês, e quando cheguei aqui aprendi as duas línguas norueguesas oficiais, bokmål e nynorsk. já a Marie Louise nasceu no Tirol, zona alemã que também fala italiano e foi ocupada pelos franceses, por isso ela fala essas três línguas, além do inglês e do norueguês bokmål, que é o mais falado aqui.

    ... continua...

    leia o restante em eusouatoa.substack.com



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    9 min
  • fazenda no norte do norte do norte (parte 2)

    a história deste capítulo começou no anterior…

    no dia 21 de julho, meu telefone tocou. coisa que nunca acontece porque quase ninguém tem meu número. era Marie Louise Randecker.

    “Lívia, queria te falar… e tudo bem se você quiser adiar ou cancelar sua vinda…”

    “o que foi? aconteceu alguma coisa?”

    “não, não, tá tudo bem! mas é que eu vou ter que trabalhar fora da fazenda até o dia 31. só meu marido, Kurt, vai estar por aqui.”

    “uai, mas se ele vai estar… por mim não tem problema.”

    “mesmo? então ótimo, ótimo. você chega dia 26?”

    “sim, pode contar comigo.”

    “ok, Kurt vai te esperar no porto”

    no dia 26, saí de Trondheim pela manhã e segui até Mo i Rana com o rosto grudado na janela.vales profundosmontanhas altíssimaslagos translúcidosflorestas de pinheiros antigoscachoeiras congeladasa cada túnel que corta a rocha, a paisagem se transforma completamente

    … continua …

    leia o restante em eusouatoa.substack.com



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    11 min
  • fazenda no norte do norte do norte (parte 1)

    chegou a primeira parte do meu presente de fim de ano pra você: um capítulo inédito fresquinho deste romance multiplataformas texto-imagem-som virtual y postal.

    uma onda de calor entra pela janela do meu apartamento no Rio de Janeiro e meu pensamento flutua pra outro verão. frio, úmido, nublado, dos dias infinitos emendados uns nos outros…

    “Olá, somos Marie Louise e Kurt, um casal de sessenta anos. Vivemos em uma ilha remota perto do Círculo Polar Ártico, um estilo de vida simples em um ambiente natural magnífico. 

    Mantemos uma fazenda orgânica pequena e diversificada, com vacas leiteiras, campos e horta. Vivemos com um cachorro e um gato. Precisamos de ajuda na fazenda e na casa de maio a outubro, podemos acomodar até quatro voluntários de uma vez em dois quartos privados de nossa casa. 

    Nós contamos com a força de trabalho de um cavalo, fazemos manteiga, queijo, pão, conservas, pescamos ocasionalmente. Todas as refeições são feitas em conjunto, geralmente ovolactovegetarianas. 

    Não existe vilarejo na ilha, não há lojas, pub ou restaurante. Há água encanada e eletricidade na casa, mas não temos carro, máquina de lavar, barco a motor, tv nem computador. 

    Há uma bicicleta que voluntários podem usar. 

    Não temos wifi.”

    salvei esse anúncio entre os outros que me interessaram: permacultura e aquacultura em um fjord; criação de ovelhas no ponto mais a norte do programa; produção de morangos e sorvetes artesanais à beira mar (é que eu sou touro com ascendente em touro).

    sonho em conhecer a Noruega desde criança. primeiro me identifiquei com os deuses vikings, até aprendi o alfabeto rúnico, li todos os livros do Jostein Gaarder (O Dia do Curinga é o melhor!) e cheguei a fazer aulas de norueguês com uma estudante de intercâmbio que foi parar em BH. apesar de ser um país super caro, eu precisava ver o que tinha pra mim ali. era uma prioridade nesta volta ao mundo, agora quase terminando.

    decidi ser voluntária pelo WWOOF, site que conecta fazendas orgânicas a trabalhadores pelo mundo todo. paguei os 20 euros de inscrição no WWOOF-Norway e tive acesso à base de dados com telefones e emails dos donos das fazendas.

    preferi ligar a mandar email porque já era julho, eu estava em Oslo e queria começar a descansar da correria de viagens trabalhar assim que possível. a fazenda de sorvetes já tinha selecionado os voluntários do verão inteiro.

    eram duas da tarde, hora da siesta dos fazendeiros. Marie Louise me atendeu com a voz grave e cantante:

    “hallo” e continuou em inglês quando soube quem eu era. “estamos precisando de ajuda no pasto e nos campos de batatas este verão. quando você gostaria de começar?”

    talvez eu devesse ter feito mais perguntas. mas eu estava muito empolgada com a ideia de ir parar numa ilha acima do Círculo Polar Ártico. fui com fé.

    “daqui duas semanas. eu tava pensando em ficar quinze dias, tudo bem?”

    “normalmente seria melhor se fosse mais tempo, querida, mas teremos outras voluntárias em agosto, então tudo bem. você tem alguma experiência com fazendas?”

    ”meus avós de pai e de mãe vêm da roça, mas eu cresci na cidade. eu sei tirar leite de vaca. quer dizer, mais ou menos...”

    “não tem problema, aqui a gente te ensina tudo.”

    “onde vocês estão exatamente?”

    “em Hestmona, uma ilha bem pequena perto de Mo i Rana. chegando de trem, você vai precisar ir até a estação de Mo i Rana, depois pegar um ônibus até Tonnes e um ferry-boat até nossa ilha.” 

    “espera… mui quê? vou anotar aqui.”

    “Mo i Rana. M-o i r-a-n-a. depois um ônibus até Tonnes, T-o-n-n-e-s. você tem que chegar no trem das 2h da tarde, o ônibus sai às 2h30. mas não se preocupe com atrasos, ele espera os passageiros do trem chegarem para partir. aí você desce no porto de Stokkwågen, S-t-o-k-k-w-å-g-e-n.”

    “esse ó é o á com bolinha em cima? å?”

    “isso mesmo, querida. nesse porto você pega o ferry pra cá. ele também espera os passageiros do ônibus.”

    “ok… e eu preciso levar alguma coisa em especial?”

    “nós temos galochas e capa de chuva que você pode usar. acho que seria bom trazer calças impermeáveis, porque aqui chove bastante. de resto, não precisa se preocupar com nada.”

    “eu tenho calça e casaco impermeável, sem problemas. obrigada e até breve!”

    … continua …

    este é um livro em processo de escrita, projeto ambicioso que eu achei que ia durar 1 ano, mas em janeiro completa 2 anos de processo, que no auge teve 61 apoiadores pelo catarse 🫶. nesse período, os primeiros 6 meses foram de escrita intensa. depois perdi o ritmo, bloqueio, desbloqueio, bloqueio de novo, enfim, fluxos criativos.

    estamos aqui, prossigo, repactuo~ à toa pelo mundo ~ continua em 2024 e até quando esse relato de viagem dar a volta no mundo

    depois do Mar Morto no final de maio/2012 e do aeroporto atemporal no poema do último capítulo, neste eu salto para a Noruega no final de julho/2012.

    retomo não de onde “tenho que” retomar e sim da história que quis contar neste momento. na dúvida de como numerar os episódios, continuei de onde parei. depois a edição toma conta desses detalhes, arranjos, rearranjos, há muito trabalho pela frente. avanço palavra por palavra.

    beijinhos, felizes festas e até semana que vem (o envio da parte 2 vem vindo!),

    Lívia



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    7 min
  • aéro port

    aeroporto 飞机场 aeropuerto एयरपोर्ट airport havalimanı

    sujeito impessoal intransitivo intransigente

    aço, luz branca, esteiras rolantes, escadas rolantes, malas rolantes, letreiros brilhantes, mercadorias superfaturadas, mcdonalds, starbucks, matcha latte com vanilla syrup per favore

    gente com pressa, gente com medo, gente acostumada, gente com saudade, gente que some, gente que é sumida, gente que quer sumir, gente que quer aparecer, gente a caminho de um sonho

    caminha-se em linha reta, caminha-se em espiral, caminha-se sem sair do lugar, caminha-se

    a espera é obrigatória

    chegar muito antes pra esperar com tranquilidade, chegar pouco antes e sair correndo, conseguir por pouco, perder por pouco

    filas, ansiedade, portas que só alguns abrem, um, dois, três, quatro security checks, acessos proibidos para a sua segurança, profissionais de segurança, câmeras de segurança, código de barras, qr-code, raio laser, raio x, raios que te vêem de calcinha

    aqui pode celular, aqui não pode celular, mudança de portão, de planos, de aeroplanos, de tempo

    sinto muito senhora não há nada a ser feito, hordas indignadas, empresas filhasdaputa, raiva, choro, advogados, evidências, sonhos perdidos, vamos dar um jeito, agora já era

    ninguém se conhece, todos se reconhecem

    alianças, cúmplices, inimigos, amantes, amizades forjadas no tempo de um café

    livros nas mãos, debaixo do braço, abandonados sobre cadeiras, deixados para trás por excesso de bagagem, comprados por impulso no tempo da primeira espera antecipando as próximas

    carregar o celular sentada no chão, trabalhar sentada no chão, dormir no chão, passar a noite no aeroporto pra economizar, modo avião, free roaming, free wifi mas tem que cadastrar o email e aí já era

    pardon, meu vôo é o próximo, posso passar na sua frente?, pergunta já passando

    tire as botas por favor, tire o cinto por favor, você está com alguma moeda no bolso?, chaves?, precisamos abrir sua mala, são só livros, livros?, a mala abre explodindo roupas e sim, há livros

    pedir permissão, pedir peloamordedeus, a sorte de encontrar alguém que diz sim, o azar de encontrar um burocrata que ama dizer não

    ainda bem que me deixaram passar, pegaram todos os meus queijos, levaram até a tesourinha de unha, por isso que eu só levo shampoo em barra

    te obrigam a caminhar, a deixar o peso para trás, a mostrar as digitais, o rosto, o passaporte, o visto, o itinerário da viagem, seus planos mesmo se você não tiver planos, invente um plano

    partir

    para nunca mais voltar

    voltar

    pelo outro lado



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    4 min
  • o Mar Morto está mesmo morto

    o Mar Morto está mesmo morto. ao seu redor, uma terra rochosa inóspita, árvores retorcidas e arbustos aqui e ali. não sei porque achei que seria diferente. sei lá o que eu esperava de um mar evaporado, tão salgado que nada afunda.

    eu e Vincent resolvemos alugar um carro pra vir boiar aqui. teoricamente até dá pra pegar um ônibus de Amã até um povoado, depois uma carona até o mar, então outra carona até o próximo povoado. mas Vincent só tem mais um dia na Jordânia e a minha carteira de motorista do Brasil basta pra alugar um carro. a outra possibilidade era pagar por um tour com day use num dos vários spas chiquérrimos à beira do Morto, mas eu não tenho o dinheiro e o Vincent não tem o tempo nem interesse pra pagar por isso: o que ele queria mesmo era ver o castelo de Al Karak, que os cruzados construíram em mil e poucos, um pouco a sul do Morto. 

    sem gps, nos perdemos por Amã procurando um mercado que vendesse suco de tamarindo, espumante porque o vendedor o atira do extravagante jarro de metal para o copo com uma acrobacia que faz o líquido voar em um arco acima das nossas cabeças. também compramos água e sanduíches pro caminho. me sinto mais confortável como co-pilota, então passei o volante pro Vincent. depois que encontramos a avenida certa, até que foi fácil sair da cidade. a sinalização é boa e bilíngue árabe-inglês.

    marquei no mapa o ponto de praia gratuito no Morto, perto de uma cachoeira que poderia nos ajudar a tirar o sal do corpo. desde criança tenho alergia aos sais marinhos e não sabia como ia me sentir nO Mar mais salgado do mundo. uma garrafa d’água de 2l talvez fosse suficiente pra amenizar alguma reação forte, mas foi a existência da cachoeira que me tranquilizou a seguir com esse plano. 

    meu companheiro de viagens dos últimos três dias é sulafricano, tem 51 anos, vive em Mascate, no Omã, é cineasta e aproveitou um feriado prolongado pra viajar procurando locações históricas pra rodar um filme de época. nos dias anteriores, fomos a Madaba, Jerash e Ajloun, usando transporte coletivo e carona. nos conhecemos no ônibus do aeroporto pro centro de Amã e estou feliz que encontrei alguém agradável, que tem um plano (eu não tenho) e está disposto a encaixar os meus desejos nesse plano. nossa conversa flui facilmente entre história, filosofia, política, economia, religião… e os silêncios também são confortáveis.

    chegando perto do Morto, a paisagem que já era meio pedregosa ia ficando mais seca, o ar mais denso - e quente, porque o meio dia vinha chegando. depois de poucas horas, as águas azuis cinzentas apontaram no horizonte. nos aproximamos da praia e paramos o carro perto da saída pra trilha da cachoeira morro acima. eu sabia que teria que entrar de roupa e tudo, então vesti uma blusa fininha, uma calça leve já meio suja, sutiã e calcinha também sujos. descemos por uma trilha entre pedregulhos e chegamos à orla de pedras até um tanto grandinhas, dessas que não dá pra caminhar sem olhar pro chão sob o risco de torcer o pé ou pisar num lixo cortante. alguns grupos de jordanos a passeio estavam ali, nada mais.

    as águas do Mar Morto são meio nojentas. têm um aspecto oleoso, viscoso, mas são límpidas. nada vive por muito tempo aqui. e a sujeira da praia pública piora essa impressão: plástico, pedaços de tecido, metal, coisas que os visitantes deixam pra trás e que vai sendo corroído pela maresia. estamos a mais de 400 metros abaixo do nível do Mediterrâneo e o ar também parece mais denso, acumulado entre nós. 

    eu devia ter entrado de chinelo, mas fiquei com medo de perdê-lo. entrei com muito cuidado pra não me machucar com algum lixo. a água estava fresca, surpreendente para aquele calor do meio dia, mas não era refrescante. ela resistia aos meus passos, como se fosse um pudim, fragilmente densas. tive que avançar bastante até o nível da água chegar acima dos joelhos. 

    hora de boiar. com o celular na mão esquerda filmando, respirei fundo e me deixei cair sobre as águas mortas. é uma sensação doida, quase mesmo como deitar sobre um grande pudim com calda de caramelo. querer descer o tronco, a bunda, e não conseguir. me deixei estar. 

    vejo meus pés bronzeados com a marca dos chinelos, a orla pedregosa da Jordânia de um lado e a de Israel do outro. o céu aquele azul com zero umidade, levemente acinzentado por causa do ar salgado entre nós. poucos minutos bastaram. tirei mais algumas fotos e me levantei com certa dificuldade. as águas queriam que eu ficasse lá boiando até secar como um bacalhau. e o fato de ter o celular numa mão não ajudava. nem pensar deixar ele molhar! voltei para a praia e foi a vez do Vincent, fiquei tomando conta das nossas coisas. enquanto ele entrava animado feito criança, rapidamente enxaguei a cabeça, o peito e os braços com parte da água mineral que trouxe comigo.  a alergia não se manifestou, mas eu que não queria brincar com ela. 

    alguns homens, com suas mulheres e crianças por perto, ficaram olhando minhas roupas grudadas no corpo, mas ninguém se aproximou nem disse nada constrangedor. quando Vincent voltou, eu entrei mais uma vez, sem o celular pra poder estar despreocupada. mas não é agradável estar ali. chega, vamos para a cachoeira. 

    coitada de mim imaginando uma cachoeira como as de Minas Gerais! a que encontramos era só um corguinho escorrendo pelas pedras ao lado da estrada. muito mais suja do que a orla da praia. roupas, vidro, bituca de cigarro. o fundo do mini pocinho onde poderíamos entrar e boiar para tirar o sal do Morto estava cravejado de caquinhos transparentes e marrons, das garrafas que o povo mal educado deixou pra trás. sentamos numas pedras à margem e recolhemos água com a garrafa, pra nos banharmos mais ou menos, como dava.

    um grupo de jovens conversava alto numa parte um pouco acima. mantivemos distância, deviam estar sujando aquele que devia ser um santuário, umas das poucas fontes de água doce no meio daquela salobridade toda. 

    de volta à estrada, nos revezamos pra trocar de roupa entre as portas abertas do carro. bebemos o resto da água mineral e seguimos viagem. foi só quando começamos a nos afastar dali que percebemos que a estrada era só subida, e que antes ela tinha sido só descida. nos afastamos do umbigo sujo do mundo, cheio de craca e vidro, doidos pra encontrar uma parada de estrada que vendesse água, e quem sabe um falafel. demorou, viu? talvez meia, uma hora, até chegar num povoado que pudesse nos reabastecer. então, pé na estrada, que o castelo de Al Karak fecha no final da tarde. 

    lá está ele rochoso, geométrico e amarelo como o entorno, encarapitado num morro mais alto, o sol entardecendo atrás de nós. quando chegamos, os portões tinham acabado de se fechar e o Vincent ficou arrasado, coitado. vendo a gente triste em frente às placas no muro exterior, o dono de um restaurante ao lado chamou o porteiro do lugar, que ainda estava por ali. muito amável, ele reabriu o castelo pra nós. sim!

    fizemos um tour rápido, mas só nosso. percorremos grandes salões de pedra até chegar num pátio com vista pro vale lá embaixo. até daria pra avistar o Mar Morto se estivesse mais claro. vimos o fim do entardecer, o sol já atrás da terra brilhando uma luz azulada sobre os morros roliços salpicados de plantações.

    pronto, chega. nos despedimos do porteiro com muitas reverências e, claro, jantamos-almoçamos no restaurante que veio ao nosso socorro, que também era um hotel. a tarifa razoável, 15 JDs, um pouco mais do que eu podia pagar, inclui o café da manhã e eu não queria ir pra lugar nenhum àquela hora da noite.

    Vincent tinha que voltar para Amã, seu vôo de volta pra Mascate era no dia seguinte cedo. e eu tinha que continuar rumo ao sul, para Petra. me despedi com gratidão. minha estada na Jordânia teria sido completamente diferente e provavelmente menos divertida se eu não tivesse colado nos planos dele. e ele estava grato por mim também. pensando agora, talvez estivesse um pouco apaixonado, encantado, e se eu tivesse algum interesse, poderíamos ter vivido um romance. mas eu não quis e ele me deixou bem à vontade na nossa amizade curiosa pelas ruínas intactas de uma Jordânia sem terremotos nem ataques que poderiam ter destruído as construções milenares que visitamos. 

    lá foi ele com o carro alugado.

    aproveitei a solidão da noite pra atualizar os vários dias de diário atrasado. avisei o pessoal do hotel que precisava pegar a primeira van para Wadi Musa, o povoado-cidade onde ficam as ruínas de Petra, e às 4h30 o dono do restaurante bateu à porta pra me acordar. meu café da manhã de pão, tomate, pepino e ovo cozido pronto e embalado pra viagem. 

    desci à pé pela estrada serpenteante enquanto o sol nascia junto com a fajr, primeira oração do dia. melodia que aprendi a amar como amo os docinhos folhados com chá no fim de tarde e o desjejum fresco e nutritivo que nos dão em todos os hotéis na Jordânia. além da melodia cantada dos minaretes, só o som dos meus passos sobre o cascalho da estrada, 20kg mais pesados porque levo minha casa comigo. degusto o ar fresco da manhã que ainda está abrindo os olhos enquanto os meus já estão despertos, absorvendo tudo que conseguem.



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    12 min
  • incômodo e alívio

    foi na manhã do meu último dia em Amritsar. eu estava sentada na beira da piscina sagrada do Templo Dourado dos Sikhs, papeando com a inglesa Kate (te amo pra sempre, Kate), naquele limbo entre o café da manhã e a hora do ônibus pra Dharamshala, quando ela disse 

    na outra viagem que fiz pela Índia, eu tive yeast infection pela primeira vez e não sabia o que era. fiquei desesperada, passei meses sofrendo, ardia muito, especialmente quando estava muito calor

    me interessei porque eu estava sentindo isso desde a chegada em Hong Kong yeast infection… infecção de fermento? quê isso?

    acho que o melhor jeito de descrever é… desculpa falar assim, mas parecia que eu tava fazendo queijo pela buceta. aí fui num médico caro em Delhi, meu seguro que pagou, obviamente, e acabou que era a coisa mais boba do mundo, um descontrole da flora vaginal. foi só passar uma pomada antifúngica por 5 dias que o sofrimento passou

    sério?! e como chama? bom que se eu tiver, eu já sei(eu tô assim, tem 4 meses que eu virei um laticínio) 

    canesten, tem em pomada e em comprimido. na Inglaterra só dá pra comprar com receita médica, mas aqui é só pedir na farmácia

    (anotei mentalmente)

    quando cheguei em McLeod Ganj, a primeira coisa que eu fiz depois de [encontrar um hotel > negociar o valor do quarto > deixar a mochila no quarto] foi entrar numa farmácia e comprar os 3 tratamentos de candidíase que eles tinham.

    agora volte para o capítulo 1 desta história e releia sabendo que eu saí do Brasil já com uma coceirinha que evoluiu pra assadura, inchaço e queijos estranhos.

    quatro meses vivendo os melhores dias da minha vida enquanto sentia um dos piores desconfortos da minha vida.

    agora que minha buceta tá feliz de novo, eu vou passar o rodo.

    oi, este foi só um trechinho do capítulo sobre Amritsar, o restante você vai ler/ouvir quando o livro sair :) beijinhos, Lívia



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    3 min
  • calor, camelos, babuínos e um quase carnaval (só pros homens)

    a estadia em Pushkar alternou-se entre festas e explorações, pachorra e descanso. a cidade tem um lago no meio do centro, ele é sagrado porque é onde Brahma molhou o pé (ou algo assim). por isso o território inteiro é sagrado. mais vivo à noite do que ao meio dia, quando o calor do Rajastão na primavera nos obriga a ficar recolhidos na sombra.

    diferente das outras cidades até agora, Pushkar é mais regional, mais provinciana, menos turística, tem até menos moto, eu acho. dá a sensação de ser mais autêntica. mas eu sei que as grandes cidades são tão Índia quanto os povoadinhos no meio do nada. são muitas as Índias.

    o lago já foi mais bonito, os rios que o alimentam foram barrados mais pra cima e agora só dão o ar da graça na época das monções. antes a cidade era verde com várias cachoeiras por perto, disse o Sukha. Sukha, um maluco beleza empreendedor global de 42 anos e muita história pra contar. disse que nasceu numa vila próxima a Pushkar, aos 8 anos foi pra Mumbai, depois viajou pro Chile com uma família, voltou chorando, trabalhou com coisas ilícitas, aos 16 anos foi pra Israel, fez grana, morou na Espanha e hoje está na ponte aérea Tel Aviv - Pushkar, onde tem uma pousada tilelê cheia de hóspedes israelenses. Sukha’s Place. ela é meio longe do centro, mas tem um ambiente bonito e acolhedor, desses que te convidam a ficar pra sempre, ou pelo menos durante a hora mais quente do dia. ótima comida, ótimo papo, uma área comum aberta, fresca e repleta de tapetes e almofadas. 

    eu e Ferdi nos hospedamos no Shree Palace, bom também porque é barato, central, tem piscina e terraço. barganhei até chegarmos em 250 rúpias por noite. uma das hóspedes é a alemã Hannah, 19 anos e já há 4 meses na Índia viajando sozinha. perguntei se não era difícil ser mulher branca e loira viajando sozinha, ela disse que não (duvido). 

    assim que eu e Ferdi chegamos e nos instalamos no hotel, tentamos sair pra almoçar. o sol nos fez desistir, nem os babuínos estavam nas ruas e olha que eles dominam certos quarteirões. não tinha como comprar comida, os restaurantes que encontramos estavam fechados pro calor. tivemos que dormir a sesta com fome, depois achamos um ambulante vendendo samosas salvadoras.

    na terceira noite, tomamos um bhang lassi no terraço do Shree Palace. bhang lassi é uma batida de pasta de maconha fresca. não pode vender bebida alcoólica nem carne, mas bhang pode. é parte da cultura ancestral daqui, nem tem como tentar proibir. tomei e uma luz roxa riscou o céu pulsando como aurora boreal, meu corpo relaxou vendo as estrelas brincarem no horizonte, eu ria de qualquer coisa até a barriga doer. no outro dia, Ferdi e Hannah tomaram de novo, mas eu não quis. forte demais. 

    o lago é a maior atração da cidade, o motivo da existência dela. é um lugar gostoso pra ficar quando o calor castiga demais. uns brâmanes (ou dois golpistas fantasiados de xamãs brâmanes) nos enganaram com o papo de pedir bênção ao rio. primeiro me benzeram sem pedir, jogaram uma água na minha cabeça, pintaram um bindi vermelho na minha testa, depois cobraram 300 rúpias pelo “serviço”. dei 100 rúpias e disse que voltava depois com o resto - hahaha. ainda assim, paguei 100 rúpias por um serviço que não tinha contratado, que raiva. o Sukha se despediu de nós muito mais espiritualmente do que essa “cerimônia” no lago. olhou no fundo dos meus olhos com os seus olhos amendoados e amistosos, quase um minuto sem piscar, e murmurou palavras mágicas em uma das mil línguas do território indiano, talvez sânscrito? 

    Pushkar também é conhecida por abrigar a feira anual de camelos, quando todos os criadores do Deserto de Thar se reunem pra comprar, vender e exibir seus dromedários. acho que todos são dromedários mesmo, uma corcova. a Feira de Pushkar acontece em outubro, mas vimos alguns desses grandões bebendo água pela cidade. pareciam mansos e tranquilos. tentei comprar um sapato de couro de camelo no mercado, mas não achei do meu número… pena, porque o par custa só 200 rúpias (menos de 15 reais!).

    vimos, ouvimos e até participamos das festas de casamento, de dia e de noite e de madrugada. maio é o mês das noivas aqui também. e cada celebração dura vários dias, com festa na casa do noivo, na casa da noiva e na rua. toda noite de maio, as festas-cortejos percorrem as ruas tocando música alta, o noivo montado num cavalo branco, todos dançando bem vestidos, coloridos e brilhantes. parece um bloco de carnaval, só que só tem homem e ninguém se beija. eu sou a única mulher na rua a essa hora e só posso participar porque sou estrangeira. 

    eu e Ferdi viramos atração de todas as festas que encontramos. dá um pouco de vergonha, mas é interessante e divertido. a gente sorri, dança e vai embora antes que comece a ficar estranho. numa dessas, fomos parar na frente da casa de um patriarca com um turbante colorido enorme. uma festona ocupava a rua toda, com fogueira e petiscos em grandes bandejas. o dono da casa pediu que a gente fosse até ele. olhou bem nos olhos do Ferdi e tirou o turbante. ele virou um homem muito menor, magro, pequeno, velho. então posicionou uma das pontas do tecido na cabeça e foi refazendo o turbante, olhando pra nós com os olhos expressivos, redondos e cor de caramelo (e por “nós” quero dizer o Ferdi. ele me ignorou completamente. mas melhor ser ignorada do que expulsa da festa dos machos, a das fêmeas é dentro das casas). sem desviar o olhar, ensinando a fazer igual (e eu atenta tentando melhorar minha técnica turbântica), o patriarca enrolou metros e metros de tecido colorido tye-dye rosa, laranja, amarelo, verde, azul, roxo, rosa, voltas e voltas naquela cabeça que ia ficando maior e mais imponente, o pescoço mais alongado e a coluna mais ereta. 

    não passa nenhuma linha de trem aqui, temos que chegar e sair de ônibus. micro-ônibus, na verdade. e deu medo porque o Ferdi pediu pra ficar na janela pra poder cochilar e, uns pontos depois do nosso, o veículo ficou cheio. aí, depois de um tempo, percebi que os homens ficavam trocando de lugar, se revezando pra ficar ao meu lado. agora eu estou usando a mesma blusa branca de manga comprida de tecido fino porque faz calor demais, uma blusa que cobre meu corpo mas não foi barreira pros jovens tarados que queriam passar pelo menos 5 minutos de viagem olhando uma branca de perto. olhando ou fazendo sei lá mais o quê. o Ferdi acordou, viu a situação e trocamos de lugar, a movimentação diminuiu. lembrei que a Hannah disse que não é difícil viajar sozinha na Índia… quê! ainda mais ela que é alta, cabelos claríssimos e olhos azuis. praticamente uma mulher-holofote! ou ela é muito distraída ou não se intimida por esse tipo de comportamento.

    eu sim, porque sei que pode ser perigoso.

    o bom de viajar de ônibus é que as paradas demoram mais tempo nas rodoviárias do que nas estações de trem. tempo pro cigarrinho de alguns passageiros, pra fazer um xixi, pra tomar um chai vendo as pessoas que esperam pelos outros ônibus. mulheres em bando, velhas e jovens com a pele castigada pelo sol e sucessivas gravidezes, e suas várias crianças. homens solitários de turbantes enormes, olhos claros, pele morena, bigodes bem desenhados, calças-saias tradicionais feitas de um tecido inteligentemente dobrado e amarrado na cintura. sentam-se de cócoras esperando alguma coisa acontecer.

    uma Índia como eu esperava que a Índia seria. as ruas cheiram a cardamomo.

    beijinhos,

    Lívia



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    10 min
  • barganha selvagem

    é uma questão de sobrevivência.

    se você não barganha, eles botam o produto vendido na sacolinha da cor dos otários. todo mundo do mercado vai saber e te passar pra trás. mas, se a performance levar ao melhor preço, a sacola é de outra cor. e fica até mais fácil negociar a próxima compra. as cores mudam de tempos em tempos, código vivo entre mercadores, não adianta te falar qual cor é qual.

    barganhe selvagemente. é uma questão de economia e honra e pode ser divertido. e é uma cena. todos estão encenando, dê o seu melhor. “o mundo é um palco”, foi Shakespeare que disse isso.

    Mercado Sarojini, Nova Delhi, Indiamas poderia ser o Grand Bazaar em Istambul, a Medina de Túnis, o Mercado de Chichicastenango, etc

    rua estreita com camadas e camadas de roupas penduradas em cabides equilibrados em ripas de madeira pregadas nas paredes, roupas dobradas em pilhas à frente, roupas em araras, roupas voando, camadas e camadas de formas, cores e texturas. a música-tema de um grande filme de Bollywood toca ao fundo.

    COMPRADORES indianos e estrangeiros passam observando a mercadoria, pedindo pra ver uma ou outra roupa pendurada, tentam ver se cabe no corpo sem vestir, inspecionam o acabamento, buscam defeitos, negociam. o Mercado Sarojini é abastecido pelas peças com pequenos defeitos que grandes marcas estrangeiras devolvem pras fábricas.

    MERCADORES chamam clientes, anunciam ofertas, dobram e desdobram, penduram e despenduram roupas.

    LIVIA entra pelo arco no centro da cena. é uma mulher branca de rosto bronzeado, usa chinelo, calça tailandesa cinza amarrada ao corpo, camisa branca de tecido fino e manga comprida, chapéu de aba larga. seu ritmo lento, observando atentamente, contrasta com o movimento frenético do mercado. 

    atrás dela entram: MAHA, mulher negra que usa óculos de grau, vestido colorido de mangas curtas que vai até o chão, sandália rasteirinha; e STEFI mulher branca de cabelos finos arrepiados com gel, veste camiseta preta, calça preta e chinelo (preto).

    MAHA (para LIVIA e STEFI, em tom de confidencialidade): amigas, aqui a gente tem que barganhar mesmo, até chegar no preço justo. blusa tem que custar 100, no máximo 150 se for mais chique. calça, vestido e short até 300, não mais que isso. vestido, até 500 rúpias. eles vão pedir o triplo, quádruplo, quíntuplo, viu?

    continua em eusouatoa.substack.com



    Get full access to à toa pelo mundo at eusouatoa.substack.com/subscribe
    7 min

About ~ à toa pelo mundo ~

From the publisher's feed

em 2012, fiz uma viagem de volta ao mundo tão incrível que pareceu mentira (mas foi tudo verdade). acompanhe a escrita-leitura dessas aventuras: uma viagem literária pelo espaço e pelo tempo. hashtags…