É provável que você já tenha presenciado alguém sendo alvo de “cancelamento” nas plataformas digitais, especialmente se for uma figura pública. Essa prática se tornou frequente e tem gerado questionamentos. A cultura do cancelamento foi criada como uma forma de responsabilização por comportamentos considerados inadequados. Esse padrão evoluiu para algo mais complexo e se tornou uma forma de bullying e linchamento virtual, capaz de impactar negativamente a saúde mental das pessoas envolvidas.
A cultura do cancelamento surgiu em meio aos avanços da sociedade, um processo de desconstrução de práticas, que antes eram normalizadas, como o racismo, a homofobia, o machismo, a xenofobia, entre outros. O termo apareceu em 2017, com a repercussão do movimento feminista Me Too (do inglês, “eu também”), uma hashtag usada nas redes sociais com denúncias de assédio sexual que repercutiram no mundo inteiro.
O cancelamento ganhou vida por meio de manifestações contra tais atitudes condenatórias, criando um ambiente propício a discussões e debates em torno de causas sociais. As redes são um espaço para amplificar a voz de determinados grupos, no entanto, outras faces dessa cultura emergiram, como a destilação de ódio e o linchamento virtual.
A antropóloga Izabel Accioly acredita que as pessoas que mais sofrem com a questão do cancelamento são aquelas mais vulnerabilizadas: pessoas pobres, negras, LGBTQIA+ e mulheres. Ela diz que a sociedade entende estes indivíduos e corpos como públicos ou até mesmo como pessoas que “não têm valor”. Por este motivo, está “tudo bem falar mal de quem não tem tanto valor assim”.
Izabel explica que quanto mais opressões aquele indivíduo sofre, quanto maior a sobrecarga de opressão social que sofre, mais autorizadas as pessoas se sentem para fazer esse linchamento virtual e mais efeitos práticos isso vai ter no cotidiano daquelas pessoas.