Há pessoas que escolhem ocupar lugares mais protegidos para pensar sobre o mundo.
Executivo, poeta, escritor e estudioso da psicanálise, Bruno construiu uma trajetória em que o mundo corporativo e a reflexão sobre a existência não aparecem como territórios separados. Ao contrário: é justamente na tensão entre eles que ele parece encontrar seu lugar.
Nesta conversa, revisitamos uma relação que começou há cerca de 15 anos, quando Bruno participou do programa Próximos Líderes, na Natura, e integrou o grupo INQUIETHOS. De lá para cá, muita coisa mudou — mas permaneceu nele uma inquietação que hoje aparece com força em seus textos, frequentemente publicados no LinkedIn, um ambiente talvez improvável para poesia, filosofia e perguntas sobre a condição humana.
Bruno conta que escreve, antes de tudo, para elaborar aquilo que está vivendo. O texto funciona como uma espécie de processo de análise: uma forma de transformar emoções, incômodos e acontecimentos em consciência. E, quando essa escrita vai para o mundo, passa também a provocar outras pessoas.
Talvez por isso ele se defina como uma ponte.
De um lado, o poeta interessado no que ainda não existe, no porvir, naquilo que o mundo poderia ser. Do outro, o executivo confrontado diariamente com metas, escolhas, limitações, pessoas, estruturas e decisões concretas. “O meu lugar poeta está no porvir. O meu lugar executivo está no hoje”, diz ele.
Hoje, como executivo de Pessoas, Cultura e Transformação Organizacional da Petlove, Bruno vive exatamente no encontro desses dois mundos.
Falamos bastante sobre a transformação provocada pela inteligência artificial e sobre uma contradição curiosa do nosso tempo: as tecnologias avançam em velocidade exponencial, enquanto estruturas organizacionais, modelos de gestão, incentivos, relações de poder e mentalidades continuam carregando muito do mundo anterior.
A tecnologia chegou. O restante ainda está tentando alcançá-la.
E talvez uma das perguntas mais importantes dessa travessia seja justamente qual será o lugar do humano no trabalho.
Para Bruno, existe algo que permanece profundamente nosso: o sentir.
Se durante décadas as organizações procuraram retirar as emoções do ambiente profissional e produzir sujeitos cada vez mais funcionais, racionais e previsíveis, talvez estejamos justamente diante de uma inversão. Quanto mais as máquinas forem capazes de realizar aquilo que fazíamos mecanicamente, mais importante poderá se tornar aquilo que existe de propriamente humano em nós.
Falamos também sobre a solidão das posições de liderança, sobre as pressões contraditórias experimentadas por executivos e sobre a responsabilidade de quem ocupa lugares de poder.
Bruno faz uma provocação importante: é preciso reconhecer que ocupar uma dessas cadeiras também é uma escolha. Em vez de permanecer apenas no lugar de vítima das estruturas, existe a possibilidade de assumir autoria sobre a própria presença nelas — inclusive usando o poder disponível para tomar decisões mais conscientes.
Isso não significa romantizar o mundo corporativo nem imaginar decisões perfeitas. Significa aceitar o embate entre ideal e realidade e continuar tentando construir passagem.
Talvez seja justamente isso que Bruno vem fazendo.
Entre poesia e planilhas, filosofia e organizações, futuro e presente, ele permanece no meio da ponte — tentando compreender o que está por vir sem abandonar o trabalho concreto de transformar aquilo que já está aqui.
— MAU
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