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As vantagens de ser invisível


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Olá! Meu nome é Marte, e você está ouvindo meu pseudopodcast de leituras recentes.

Roteirista de formação, estadunidense, escritor, homem branco de franjinha simpática. Stephen Chbosky é primeiramente um cineasta, mas aventureiro na literatura, e seu primeiro (de dois) livros foi um sucesso entre os adolescentes estadunidenses - e, por que não?, do mundo. Afinal de contas, foi um sucesso para meu eu de treze anos também.

Trata-se de As vantagens de ser invisível, livro lançado em 1999 em inglês, nos Estados Unidos, publicado no Brasil em 2007 pela editora Rocco (selo Jovens Leitores), traduzido por Ryta Vinagre, a mesma responsável pela tradução de Crepúsculo no Brasil. Esse livro é frequentemente alvo de contestações de disponibilidade em bibliotecas escolares estadunidenses, afinal, o pessoal desse país é perturbado para banir livros. Isso porque trata de assuntos sensíveis, alguns sem nenhum pudor, tais quais: uso de drogas e linguagem sexual, além de menções a violência sexual.

O livro foi escrito em formato epistolar, ou seja, em cartas. Nelas, o garoto Charlie, de 15 anos, relata coisas extremamente particulares de sua vida para um destinatário que não é revelado - assim, o próprio leitor se sente o destinatário delas. Charlie é um garoto muito introvertido, desajeitado socialmente, tem dificuldade de entender concretamente o que o cerca e está profundamente chateado com a morte do melhor e único amigo, Michael, o qual se suicidou. Por isso, ele toma a iniciativa de se corresponder unilateralmente com o destinatário-leitor. Conforme as cartas vão avançando no tempo, temos um panorama cada vez mais íntimo da vida do menino, incluindo certo desabrochar de amizades com duas figuras centrais para a obra: Patrick, um adolescente gay, e sua irmã postiça Sam, interesse amoroso de Charlie.

A escolha de tornar o livro um romance epistolar foi muito acertada; Chbosky consegue uma proximidade íntima com o público adolescente, parte do motivo do sucesso da obra. Outra parte que, na minha opinião, ajuda a explicar esse sucesso de público, é a honestidade com que o autor trata desses temas sensíveis, sem julgamento ou moralismo. Charlie usa abertamente cigarro, maconha e LSD, inclusive sofrendo reveses mentais por suas condições anteriores, mas isso é tratado de forma não didática, mais descritiva e compreensiva. Dito isso, é necessário ler o livro ciente de que se trata de uma leitura de entrada - uma boa leitura de entrada, mas ainda assim destinada ao público juvenil.

O título em inglês é "The perks of being a wallflower", sendo wallflower um termo em inglês para aquela pessoa que vê tudo e não interage nem interfere em nada. O título vem de um comentário do personagem Patrick em relação a Charlie, que o descreve como esse adjetivo. Sam, em certo momento, critica Charlie justamente por ser um extremo passivo em relação aos acontecimentos de sua própria vida. A tradução de "wallflower" para "invisível" suscita polêmica desde 2007. Não sei opinar, nem tenho gabarito algum para opinar sobre tradução profissional. Só sei que "As vantagens de ser passivo" seria um título certamente engraçado.

Charlie, além de passivo, é um adolescente claramente deprimido, ansioso e em certos momentos, até alucinado. Sem querer dar detalhes sobre o desfecho, mas envolve a descoberta de um trauma. Nesse sentido, fica a dúvida se o autor quis equacionar trauma com passividade e depressão, conforme algumas interpretações que li sobre o livro. Na minha opinião, não é bem isso. Não fica claro no livro se o trauma torna o menino assim, ou se ele já era assim, isso inclusive teria incentivado o trauma, e depois o piorado. Essa segunda possível interpretação tem origem num diálogo de Charlie com a irmã dele, após ele revelar um segredo dela porque ela pediu para não contar aos seus pais (mas não havia mencionado citar para o professor Bill, que depois repassou aos pais do mesmo jeito. Logo, uma interpretação bastante literal):

"Você é um anormal, sabia? Sempre foi anormal. Todo mundo diz isso. Sempre disseram."

"Estou tentando não ser assim."

Relendo em 2026, tive a impressão de uma descrição de Charlie com leves traços autísticos. Não é meu trabalho nem minha ética tentar atribuir diagnósticos psiquiátricos a personagens, mas muitas das atitudes e confusões do protagonista no livro me lembram minhas próprias dificuldades com o mundo não-autista ainda hoje, aos 27 anos. Entender Charlie como um possível garoto autista dá outros contornos à história e afasta a leitura do trauma como uma condição obrigatória para ser esquisito, ou vice-versa. Parte de mim gosta dessa interpretação porque, enquanto uma adolescente autista, as cartas de Charlie/Chbosky influenciaram muito meu próprio estilo de escrita altamente introspectivo e um gosto pela escrita epistolar.

Uma crítica contundente que deixo ao livro é o final que não amarra as consequências do trauma citado, de forma rápida e inconsequente. Não é que eu desejasse um final didático ou coisa do tipo, mas uma amarração adequada, não apressada, para um assunto sensível, é sempre apreciada. Parece que a informação é jogada e de repente a história se encerra nas três páginas seguintes. Não gosto disso.

Enfim, recomendo a leitura mesmo para o público adulto. Considero um livro adolescente honesto e bem escrito. Também costuma ser popular o filme lançado em 2012, que foi dirigido pelo próprio Chbosky, o qual descobri ser cineasta e roteirista apenas escrevendo/gravando essa resenha!

Um abraço!

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