Querido leitor, por onde você chora? Por intermédio das lágrimas que escorrem de seus olhos? Talvez, mas não necessariamente. Vou tentar lhe mostrar outros prantos.
Um primeiro paradigma a ser quebrado é o corpo Aristotélico, composto de cabeça, tronco, membros, músculos, ossos e vísceras. Durante muitos séculos, a busca de exames e doenças ficou restrita ao corpo físico. A partir dos sintomas apresentados, o paciente se enquadrava nos padrões de normalidade da época ou era considerado doente. A medicina decompunha as pessoas em partes ou sistemas e os examinava objetivamente. O fígado estava doente, o cigarro fazia mal ao pulmão... Este modelo cartesiano sozinho demonstrou-se ineficaz.
Passamos então a um corpo animado, vivo, dotado de sentimentos e emoções. Um corpo como fenômeno. Ao pegar a mão da namorada o rapaz não está apenas tocando na pele, articulações, músculos e vasos. Esta é a mão de quem ama. Ao sentir o toque, a carícia, a maciez, ele estará recebendo o afeto que lhe é dirigido.
O limite do corpo ultrapassa a epiderme da alma, canta Zélia Duncan. Para algumas pessoas, o corpo físico serve apenas como meio de locomoção e estas pessoas só se dão conta da corporeidade quando adoecem ou sentem dor.
O corpo físico, por exemplo, pode ter extensões. Telefone celular e computador ficaram tão intimamente incorporados à rotina que algumas pessoas não conseguem viver longe deles. Quando o celular estraga, o indivíduo pode até entrar em desespero e adoecer. Este fenômeno de extensão corporal acontece com família, amores, animais de estimação, amigos, plantas, automóveis, casas, bibliotecas. Até
onde vai o seu corpo, o nosso corpo?
O corpo, para mim, não é só uma máquina, como diz a ciência newtoniana no paradigma cartesiano, tampouco uma culpa como nos fez crer a religião. Prefiro dizer que o corpo é uma festa, um templo, uma fonte de emoções e sentimentos, que nos fazem sorrir, chorar e viver... O cantor Cazuza dizia: “Não sei se choro, sumo ou finjo que estou bem.” Ele pode até ter cantado, mas dificilmente se consegue engolir
o choro e colocar um sorriso falso no rosto por muito tempo.
Querido leitor, provavelmente quando as lágrimas não descem pelos olhos – aqui elas podem até petrificar interiormente - abrem uma ferida no corpo Aristotélico até encontrar uma saída, uma forma de se manifestar.
Corpo, lar do espírito, casa da alma. Templo sagrado por onde a existência acontece e a vida segue a sua sina.
Lembrando que isso é assim para mim hoje.
Artigo veiculado na Rádio Som Maior FM no dia 29/11/2013