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16 de abril, Pann Cherry Guesthouse, Nyaung-U
seis dias presa em Bagan: até os motoristas de ônibus têm feriado por causa do Ano Novo Budista / Thingyan / Festival da Água. decidi não lutar contra isso e ficar. um descanso depois de tanta correria de cidade em cidade, ônibus noturnos com karaokê do inferno, TPM monstra que virou menstruação monstra.
agora, dias de calma: passeios de bicicleta entre ruínas fabulosas, passando por famílias e amigos brincando de jogar água uns nos outros - e em mim.
dias de calor, silêncio e solitude. os hotéis estão lotados, mas a grande maioria das pessoas não passa do básico 1 de inglês e a conversa acaba depois de umas frases. aproveito pra ler, escrever, dormir, observar a programação de danças, shows e fogos de artifício do Festival, pedalar com calma e sem destino certo.
são três cidades: Bagan Velha é a cidade principal, antiga, cercada por uma muralha. uma cidade oca, porque antes era uma cidade normal salpicada de templos muito antigos. mas os moradores, que cuidavam e usavam as construções históricas, foram removidos pelo governo e suas casas foram demolidas, pra “preservar” os templos antigos. só tem hotel de rico lá. e os templos mais importantes. e ruínas de casas abandonadas. Bagan Nova é a cidade pra onde as pessoas expulsas da Bagan Velha foram despejadas, sem explicações. quatro mil pessoas, em 1990, tiveram uma semana pra se mudar pra um terreno arenoso, sem eletricidade nem estradas. hoje está melhor, mas tem uma aura triste. e tem Nyaung-U, a outra cidadezinha onde ficam os hoteis mais baratos, como a pousada onde estou hospedada, e restaurantes regionais simples que têm menu em inglês, onde faço minhas refeições. aqui tem mais cara de cidade viva do que as Bagans, a Velha e a Nova. e é entre essas três povoações que ficam os templos legais de visitar.
a planície dos templos fica na curva do rio Irrawaddy, o grande rio do Mianmar. é um campo enorme salpicado de templos piramidais, pagodas cônicas de torres altíssimas, templões grandes com várias salas. e os caminhos entre eles, inesgotáveis. todo nascer e pôr do sol é um espetáculo. sinto que eu sempre falo dos entardeceres laranjas, dessa certeza diária por aqui. é que a beleza deles no Sudeste Asiático é extraordinária. especialmente na estação seca, agora. terra do sol ardente. é a poeira no ar que tinge os raios. poeira da terra seca, das queimadas, da rocha dos templos que dilata e contrai até esfarelar.
por isso, acordo quando ainda está escuro. depois durmo, ao meio dia, quando o calor não permite fazer mais nada. a melhor soneca foi ontem, em um dos templos vazios.
as construções mais importantes de Bagan foram reformadas sem qualquer preocupação com preservação histórica ou restauração do original. esse governo do Mianmar parece uma mistura de sadismo com violência, apagamento da memória, feiúra e burrice, bem o que costumam ser os governos autoritários. os templos históricos estão hoje cobertos de azulejos, espelhinhos, plástico. e estão lotados de fiéis colando folhas de ouro em estátuas de buda, fotografando com flash, rezando, meditando, conversando alto, fazendo seus desejos de ano novo, afinal são templos importantes pro budismo.
todo mundo birmanês e eu, mais alta que todos, me destaco. sou atração turística também. devo estar no álbum de fotos de metade das famílias que foram pra Bagan nesse ano novo. me diverti fazendo caretas. e me deixei pintar com thanaka por duas vendedoras que ficam na porta de um dos maiores templos. essa pastinha de tronco de árvore realmente refresca a pele e disseram que protege do sol.
não sinto necessidade nenhuma de insistir em visitar os templos famosos. fui a dois e já basta. são quatro mil nesse pedacinho da Terra. os melhores pra mim são os que são grandes o suficiente pra ter um terraço no terceiro andar, camarote pra ver o sol no horizonte espetado de torres. e pequenos o suficiente pra não atrair quem tá passando por aqui com pressa. camarote vazio. ou quase, às vezes aparece alguém com uma câmera fotográfica gigante e uma cara de “sou da National Gepographic”.
alguns não têm nem trilha de bicicleta até eles. vou indo pela terra vermelha nua, com poucas touceiras de capim, até o solo estar tão fofo que não dá mais pra pedalar. então, sigo à pé, empurrando a bici. na estação de chuvas deve ser um atoleiro atrás do outro.
sem ter que interagir com ninguém, o tempo passa macio. escrevo meus postais, me delicio com a paisagem, acordo cedo e durmo cedo. me rendo à generosidade dos birmaneses gentis que cruzam meu caminho. ganho banhos d’água, sorrisos vários, suco de morango. anteontem um casal pagou minha conta do almoço junto com a deles, simplesmente pra serem simpáticos. me viram almoçar sozinha, acertaram meu almoço e foram embora. só soube quando pedi a conta.
parece que estou de férias. pode isso no meio de um sabático?
aproveito. meu próximo destino é a Índia e sei que não vai ser fácil.
até lá!
beijinhos,
Lívia
By Livia Aguiar16 de abril, Pann Cherry Guesthouse, Nyaung-U
seis dias presa em Bagan: até os motoristas de ônibus têm feriado por causa do Ano Novo Budista / Thingyan / Festival da Água. decidi não lutar contra isso e ficar. um descanso depois de tanta correria de cidade em cidade, ônibus noturnos com karaokê do inferno, TPM monstra que virou menstruação monstra.
agora, dias de calma: passeios de bicicleta entre ruínas fabulosas, passando por famílias e amigos brincando de jogar água uns nos outros - e em mim.
dias de calor, silêncio e solitude. os hotéis estão lotados, mas a grande maioria das pessoas não passa do básico 1 de inglês e a conversa acaba depois de umas frases. aproveito pra ler, escrever, dormir, observar a programação de danças, shows e fogos de artifício do Festival, pedalar com calma e sem destino certo.
são três cidades: Bagan Velha é a cidade principal, antiga, cercada por uma muralha. uma cidade oca, porque antes era uma cidade normal salpicada de templos muito antigos. mas os moradores, que cuidavam e usavam as construções históricas, foram removidos pelo governo e suas casas foram demolidas, pra “preservar” os templos antigos. só tem hotel de rico lá. e os templos mais importantes. e ruínas de casas abandonadas. Bagan Nova é a cidade pra onde as pessoas expulsas da Bagan Velha foram despejadas, sem explicações. quatro mil pessoas, em 1990, tiveram uma semana pra se mudar pra um terreno arenoso, sem eletricidade nem estradas. hoje está melhor, mas tem uma aura triste. e tem Nyaung-U, a outra cidadezinha onde ficam os hoteis mais baratos, como a pousada onde estou hospedada, e restaurantes regionais simples que têm menu em inglês, onde faço minhas refeições. aqui tem mais cara de cidade viva do que as Bagans, a Velha e a Nova. e é entre essas três povoações que ficam os templos legais de visitar.
a planície dos templos fica na curva do rio Irrawaddy, o grande rio do Mianmar. é um campo enorme salpicado de templos piramidais, pagodas cônicas de torres altíssimas, templões grandes com várias salas. e os caminhos entre eles, inesgotáveis. todo nascer e pôr do sol é um espetáculo. sinto que eu sempre falo dos entardeceres laranjas, dessa certeza diária por aqui. é que a beleza deles no Sudeste Asiático é extraordinária. especialmente na estação seca, agora. terra do sol ardente. é a poeira no ar que tinge os raios. poeira da terra seca, das queimadas, da rocha dos templos que dilata e contrai até esfarelar.
por isso, acordo quando ainda está escuro. depois durmo, ao meio dia, quando o calor não permite fazer mais nada. a melhor soneca foi ontem, em um dos templos vazios.
as construções mais importantes de Bagan foram reformadas sem qualquer preocupação com preservação histórica ou restauração do original. esse governo do Mianmar parece uma mistura de sadismo com violência, apagamento da memória, feiúra e burrice, bem o que costumam ser os governos autoritários. os templos históricos estão hoje cobertos de azulejos, espelhinhos, plástico. e estão lotados de fiéis colando folhas de ouro em estátuas de buda, fotografando com flash, rezando, meditando, conversando alto, fazendo seus desejos de ano novo, afinal são templos importantes pro budismo.
todo mundo birmanês e eu, mais alta que todos, me destaco. sou atração turística também. devo estar no álbum de fotos de metade das famílias que foram pra Bagan nesse ano novo. me diverti fazendo caretas. e me deixei pintar com thanaka por duas vendedoras que ficam na porta de um dos maiores templos. essa pastinha de tronco de árvore realmente refresca a pele e disseram que protege do sol.
não sinto necessidade nenhuma de insistir em visitar os templos famosos. fui a dois e já basta. são quatro mil nesse pedacinho da Terra. os melhores pra mim são os que são grandes o suficiente pra ter um terraço no terceiro andar, camarote pra ver o sol no horizonte espetado de torres. e pequenos o suficiente pra não atrair quem tá passando por aqui com pressa. camarote vazio. ou quase, às vezes aparece alguém com uma câmera fotográfica gigante e uma cara de “sou da National Gepographic”.
alguns não têm nem trilha de bicicleta até eles. vou indo pela terra vermelha nua, com poucas touceiras de capim, até o solo estar tão fofo que não dá mais pra pedalar. então, sigo à pé, empurrando a bici. na estação de chuvas deve ser um atoleiro atrás do outro.
sem ter que interagir com ninguém, o tempo passa macio. escrevo meus postais, me delicio com a paisagem, acordo cedo e durmo cedo. me rendo à generosidade dos birmaneses gentis que cruzam meu caminho. ganho banhos d’água, sorrisos vários, suco de morango. anteontem um casal pagou minha conta do almoço junto com a deles, simplesmente pra serem simpáticos. me viram almoçar sozinha, acertaram meu almoço e foram embora. só soube quando pedi a conta.
parece que estou de férias. pode isso no meio de um sabático?
aproveito. meu próximo destino é a Índia e sei que não vai ser fácil.
até lá!
beijinhos,
Lívia