Prosas e Poesias Proletarias

Canto quinto


Listen Later

Roubem o que lhes roubaram,

tomem finalmente o que lhes pertence, ele gritou,
tremendo de frio em seu casaco pequeno demais,
os cabelos ondeando ao vento, sob os gavietes,
estou com vocês, ele gritou,
o que estão esperando? Chegou
a hora, botem abaixo os tabiques,
atirem os canalhas ao mar
junto com suas malas, cães e lacaios,
as mulheres inclusive e até as crianças,
com violência, com facas, com mãos nuas!
E mostrou-lhes a faca,
mostrou-lhes a mão nua.

Mas a gente da terceira classe,

todos eles imigrantes, permanecia quieta
na escuridão e tirava calmamente
suas boinas da cabeça e o escutava.

Quando é afinal que vocês querem

se vingar, se não for agora?
Ou será que não suportam ver sangue,
além daquele dos seus filhos e do seu próprio?
E ele esfolou seu rosto
e cortou sua mão
e mostrou-lhes o sangue.

Mas a gente da terceira classe

Escutava-o sem abrir a boca.
Não porque ele não falasse lituano
(ele não falava lituano);
não porque estivessem bêbados
(tinham havia muito esvaziado
suas garrafas avelhantadas,
envoltas em panos grosseiros),
não porque tivessem fome
(se bem que fome eles tinham):

Não era nada disso. Não

era tão fácil explicar.
Eles bem que entendiam o que ele dizia,
mas não o compreendiam.
Suas palavras não eram as palavras deles.
Eram consumidos por outros medos
que não os dele, e por outras esperanças.
Deixavam-se ficar, pacientes,
com seus alforjes, seus rosários,
seus filhos raquíticos
junto aos tabiques; abriam espaço,
escutavam-no, respeitosos,
e aguardavam o momento de afogar-se.

(Hanz Magnus Enzensberger)

...more
View all episodesView all episodes
Download on the App Store

Prosas e Poesias ProletariasBy Fábio Francisco de Souza