A Temporada 3 começa com um pedido de desculpas pelo sumiço e um plano: dois episódios por semana, terça e quinta, às 10h de Brasília, destrinchando cem papers de maior impacto clínico para a Atenção Primária nos últimos cinco anos.
E começa com o Seu Antônio, 58 anos, marceneiro aposentado, infarto em 2022, stent na coronária direita, tudo otimizado — e uma pergunta que a gente ouve toda semana: "doutora, eu faço tudo que a senhora pediu, tem alguma coisa a mais?"
Até 2023 a resposta honesta era dieta e caminhada. Aí veio o SELECT (Lincoff et al., New England Journal of Medicine, dezembro de 2023) e reconfigurou a conversa.
O que a gente discute:
- O que já se sabia antes: análogos de GLP-1 e desfecho duro em diabéticos (SUSTAIN-6, REWIND) — e por que o paciente só com obesidade era caixa-preta
- Os números do SELECT: MACE-3 em 6,5% contra 8%, HR 0,80 (IC 0,72–0,90), redução absoluta de 1,5 ponto percentual, NNT ~67 em 40 meses
- O benefício que aparece antes da perda de peso, a PCR ultrassensível caindo 39% e os 73% de redução na progressão para diabetes
- O outro lado: descontinuação por evento adverso de 16,6% contra 8,2% — a cada seis pacientes, um abandona por enjoo
- As três ressalvas que importam: financiamento integral pela Novo Nordisk, uma população com 84% de brancos e 72% de homens, e a Conitec recomendando a não incorporação no SUS (Relatório 553/2025)
- O que muda na consulta de segunda-feira: a conversa de prognóstico, como reconhecer o perfil SELECT na agenda (≥45 anos, IMC ≥27, doença cardiovascular prévia, sem diabetes) e por que otimizar o básico ainda rende mais por real investido
Para levar no bolso: em paciente sem diabetes, com obesidade e doença cardiovascular prévia, a semaglutida 2,4 mg reduz infarto e AVC em 20%. Mas o SUS ainda não fornece — e a gente não pode prometer o que não tem como entregar.
No próximo episódio: o OPAL, ensaio australiano publicado no Lancet, com um resultado desconcertante.