[Homilia proferida na Sé de Braga, na comemoração do Dia da Universidade Católica Portuguesa]
Hoje celebramos o Dia da Universidade Católica Portuguesa e começamos por uma ideia simples: uma universidade não é apenas edifícios, cursos, reuniões e publicações; é um modo de estar no mundo e um lugar onde se decide, todos os dias, que tipo de humanidade queremos servir. A Palavra de Deus recentra-nos. Sofonias fala de um povo “pobre e humilde”, que procura refúgio no nome do Senhor, onde já não há mentira nem linguagem enganadora. São Paulo lembra aos coríntios que não há muitos sábios, influentes ou bem-nascidos e, no entanto, Deus escolhe o que parece fraco e desprezível, para que ninguém se glorie diante d’Ele. E Jesus, no alto do monte, proclama as Bem-aventuranças: felizes os pobres em espírito, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz. Isto desafia a lógica do prestígio, da visibilidade e do estatuto e faz-nos um “reset” interior: não confundir valor com aplauso, sabedoria com vaidade, excelência com superioridade. A história de Deus sustenta-se na verdade, na humildade, na justiça, na misericórdia e na paz; as Bem-aventuranças não são apenas ideias bonitas, são o retrato do rosto de Jesus e um modo de viver.
Numa universidade, isto torna-se muito concreto: não conta só o que sabemos, mas o que fazemos com o que sabemos. Por isso falamos de diaconia da cultura: a presença cristã no mundo cultural não existe para se defender, mandar ou dominar; existe para servir o que sustenta a humanidade comum — linguagem, sentido, convivência e futuro. A universidade não é um território a conquistar; é um ecossistema vivo a cuidar com paciência, discernimento e coragem para processos longos. Ser católica não é um rótulo: é habitar o conhecimento de modo integral, onde razão e fé, competência e consciência, rigor e sabedoria se iluminam mutuamente. A Universidade Católica Portuguesa é chamada a ser mais mesa do que tribuna: um lugar de escuta plural, onde se acolhem perguntas difíceis sem as reduzir a slogans, onde se aprende a argumentar sem agredir e onde a excelência nunca se separa do bem comum.
Isto joga-se no ensino, na investigação e na presença pública: formar para além da utilidade imediata; produzir ciência com responsabilidade social, sem tecnocracia nem moralismo; e dialogar com a sociedade, incluindo as periferias culturais e sociais, sustentando conversas difíceis e ajudando a despolarizar o espaço comum. Para isso, precisamos de um programa simples: desarmar a palavra, levantar o olhar e guardar o coração. Desarmar a palavra é rigor sem violência, crítica sem humilhação, debate sem caricatura do outro. Levantar o olhar é recuperar horizonte num tempo em que o digital nos prende ao imediato e nos rouba profundidade. Guardar o coração é levar a sério a interioridade: sem vida interior, a formação vira mera instrução; sem silêncio e discernimento, a cultura vira ruído; sem cuidado do coração, a técnica torna-se poder sem domínio e a política degrada-se em cinismo. Também aqui entra a responsabilidade do digital e da inteligência artificial: servir a cultura é distinguir inovação de verdadeiro progresso humano, proteger a pessoa de ser reduzida a dados, denunciar novas exclusões algorítmicas e recordar que a eficácia não basta para orientar a vida comum. E esta diaconia só é completa com atenção preferencial aos que ficam de fora, para que o acesso ao conhecimento não seja privilégio. Por isso, a palavra de São Paulo é desafio e libertação: “quem se gloria, glorie-se no Senhor”. Peçamos, nesta Eucaristia, que o Senhor conceda à Universidade Católica Portuguesa ser pobre em espírito e rica de misericórdia, firme na justiça e delicada na palavra, contemplativa no olhar e vigilante no coração, e que nos dê a alegria simples das Bem-aventuranças: a alegria de servir com verdade, cuidado e esperança.