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"Fora de Horas" nasceu no contexto do ciclo Habitar o Tempo, como projeto que explora o tempo enquanto condição da experiência e da criação musical. O concerto propõe um encontro entre o universo do fado e repertórios vocais ibéricos dos séculos XVI e XVII, revelando afinidades expressivas centradas na palavra cantada, na intensidade afetiva e na dimensão narrativa. O programa aproxima duas realidades históricas — fado e música antiga — em que a expressividade do texto, a força narrativa e a intensidade poética são pontos comuns.
Prosseguindo o ciclo dedicado ao Tempo, a Égide propõe um concerto que se centra num dos agrupamentos mais representativos do Classicismo — o quarteto de cordas. Com o declínio do absolutismo e a crescente afirmação da burguesia, os salões privados ganham protagonismo como espaços de fruição artística, proporcionando o florescimento de um vasto repertório para esta formação. Com o Quarteto Tágide, propomos aprofundar o Quarteto de Cordas no Classicismo e a sua importância na primeira escola de Viena, constituída por Haydn, Mozart e Beethoven. Apresentam-se três obras que, apesar da relativa proximidade cronológica, evidenciam a riqueza e evolução do género do Quarteto ao longo destes anos.
O Quarteto em Sol maior, Op. 77 n.o 1, de Joseph Haydn, composto em 1799, pertence ao último conjunto de quartetos do compositor e revela plenamente a sua maturidade artística. A obra, caracterizada por clareza formal, fluidez temática e ambiente elegante e transparente, evidencia o equilíbrio e diálogo entre as linhas. O primeiro andamento afirma um carácter luminoso e enérgico; o Adagio oferece um espaço mais contido e cantabile; o Menuetto retoma um espírito dançante, elegante e subtil; e o Finale encerra a obra com leveza e vivacidade. Ao longo de todo o quarteto reconhece-se o lado mais jocoso e luminoso da linguagem de Haydn, sempre sustentado por uma construção formal muito sólida.
Já o Quarteto de Cordas n.º 19 em Dó maior, conhecido como “Dissonâncias”, integra o conjunto de seis quartetos que Wolfgang Amadeus Mozart dedicou a Joseph Haydn. A obra distingue-se desde o início pela introdução lenta do primeiro andamento (Adagio), marcada por uma escrita harmonicamente ousada, com dissonâncias sucessivas e ambiguidade tonal pouco habitual no contexto do classicismo vienense, que dá nome ao quarteto. Este ambiente contrasta com o Allegro que se segue, mais luminoso e estruturado, revelando o permanente equilíbrio entre tensão e clareza formal que caracteriza a primeira escola de Viena. O segundo andamento (Andante cantabile), por sua vez, apresenta um carácter mais íntimo e lírico, construído sobre uma melodia expressiva e cantabile. “Dissonâncias” é um quarteto de contrastes entre os dois andamentos que apresentaremos, na vivacidade inicial do Allegro e serenidade do Andante, evidenciando a profundidade estilística da obra, reflexo das obras tardias de Mozart.
Em contraste, o Quarteto em Fá menor, Op. 95, de Ludwig van Beethoven, composto em 1810 e intitulado pelo próprio “Serioso”, apresenta uma escrita mais concentrada, tensa e contrastante. Situada no final do segundo período criativo do compositor, esta obra antecipa já uma mudança de linguagem, apontando para uma maior fragmentação formal e para uma intensidade expressiva mais marcada. O primeiro andamento é denso e dramático; o segundo, mais contido, mantém uma atmosfera de inquietação; o Scherzo é incisivo e abrupto; e o Finale, apesar do percurso marcado por tensão e conflito, culmina numa coda surpreendentemente luminosa, em modo maior, frequentemente associada à ideia de superação.
Com este programa, procuramos assim colocar em diálogo duas obras, unidas pela continuidade estilística do (ainda) Classicismo: por um lado, o ideal de equilíbrio formal, transparência e elegância textural que encontramos em Haydn; por outro, uma linguagem mais expressiva, contrastante e intensa, onde Beethoven antecipa o Romantismo. O quarteto surge, deste modo, não apenas como uma formação central do Classicismo, mas como um espaço privilegiado de transformação estética, onde se tornam visíveis as mudanças de sensibilidade musical no início do século XIX.
“A verdadeira música é sempre revolucionária, pois une as fileiras do povo. Encoraja-as, e guia-as avante.”
Escrito durante o cerco de Leningrado, o Trio No. 2 de Chostakovitch está imbuído de um perspicaz tom político, marcado pelo materialismo das palavras de ordem proletárias “Paz, Pão e Terra”, capturando a vontade revolucionária de um povo que recusou a sua própria destruição.
A música de Dmitri Chostakovitch está imbuída de um perspicaz tom político e de um verdadeiro espírito revolucionário, marcada pelo materialismo de uma revolução Marxista e pelas palavras de ordem proletárias “Paz, Pão e Terra”. É música para pessoas reais, com lutas reais, que representa a realidade material na sua dissonância e contradição; ou, como diria o próprio compositor: “a verdadeira música é sempre revolucionária, pois une as fileiras do povo. Encoraja-as, e guia-as avante”. O seu Trio em Mi menor Op. 67, escrito durante o cerco de Leningrado, captura não só o horror da devastação desta cidade, mas também a vontade revolucionária de um povo que recusou a sua própria destruição.
Num ciclo dedicado ao tempo, revisitar obras associadas a um período histórico específico implica um duplo gesto: recuperar a memória — continuamente repensada e vivida — e olhar o presente com outro olhar. Ao interpretar hoje as Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça, fazemos coexistir estes dois tempos, que ultimamente parecem estar cada vez mais próximos. Permitir que estas canções perdurem e nos toquem é, ainda hoje, um ato artístico e um ato de resistência.
As Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça constituem um dos ciclos mais emblemáticos da música portuguesa do século XX, nascido entre as décadas de 1940 e o pós-25 de Abril, em estreita ligação com poetas da resistência cultural. Esclarece-nos o próprio Graça que estas canções podem ser interpretadas por uma só voz ou por coro, a duas ou mais vozes, com ou sem acompanhamento de piano — uma liberdade de realização que faz parte do seu próprio conceito genético. Mais do que simples peças vocais, as Heróicas transformam a palavra poética em gesto musical intenso, onde convivem denúncia e esperança, combate e ternura, indignação e sonho.
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