Os fantasmas do colonialismo, feitos memória e pós-memória, estão no centro dos debates sobre a nova identidade francesa no pós-descolonização. Uma França onde, com o fim do império e os fluxos populacionais que ele trouxe, os franceses e as francesas são também pieds-noirs – o equivalente dos retornados portugueses; harkis – que combateram com o exército colonial francês na Argélia; antigos combatentes; franco-argelinos cujos pais migraram para França antes e depois da independência; e descendentes de todos estes grupos. A França contemporânea é este caldeirão de pessoas diversas, com vivências e memórias muito diferentes do antigo império. No entanto, têm uma herança comum: testemunharam como as suas vidas – e as dos seus pais – foram afetadas por um momento histórico extremamente significativo, uma revolução que trouxe mudanças marcantes para as suas vidas, para a configuração dos seus países e para as suas identidades. Isso gerou uma variedade de narrativas de que ouviremos exemplos nos próximos episódios e que, de alguma forma, constroem uma história outra de França e da Argélia, a partir dos espectros familiares dos seus pais e avós.
Os argelinos, franco-argelinos e seus descendentes reivindicam hoje espaço para narrativas que efetivamente contem as suas histórias, contornando as lacunas, os silêncios e as divergências das memórias não-contadas dos seus pais, mães, tios e avós. Mas, sobretudo, ambicionam construir narrativas que preencham as lacunas, os silêncios e as divergências presentes na narrativa oficial do Estado francês, em particular no que diz respeito à guerra da independência da Argélia. Durante largas décadas, assim o conta Graça dos Santos no podcast de hoje, o Estado francês recusou-se a nomear explicitamente o evento, e isso, diz-nos, é sintomático de um mal-estar latente.
A realização é de Inês Nascimento Rodrigues, a edição de som de José Gomes e a imagem gráfica de Márcio de Carvalho. Indicativo: voz de Rui Cruzeiro e música original da autoria de XEXA.
Algumas sugestões de leitura:
Santos, Graça dos (2021), “Colonialismo, migrações e identidades pós-coloniais: um passado / presente francês”, in António Sousa Ribeiro (org.), A cena da pós-memória. O presente do passado na Europa pós-colonial. Porto: Afrontamento, 97-113.
Brahim, Rachida (2020), “Morrer por ser. O racismo estrutural na França Contemporânea”, Memoirs newsletter, 84.
Ribeiro, Margarida Calafate (2020), "A marcha obscura da história: a França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência", Iberografias: Revista de Estudos Ibéricos, 16, 389-398.
Delauney, Morgaine (2019), “O Estado francês e o Estado português perante a chegada dos pieds-noirs e dos retornados”, Memoirs newsletter, 81.
Vilar, Fernanda (2019), “Silêncios que viram arte”, Memoirs newsletter, 55. Graça dos Santos está radicada em França desde há mais de três décadas, onde chegou com apenas oito anos. É professora associada na Universidade Paris Ouest Nanterre La Défense, onde é diretora do Departamento de Estudos Lusófonos. Encenadora, atriz e professora de teatro, escreve sobre as noções de corpo físico/corpo social e sobre as representações cénicas do corpo e do povo. Cofundadora da companhia “Cá e Lá” (Compagnie bilingue français/portugais) tem desenvolvido um trabalho específico sobre o ator bilingue e sobre as conexões entre teatro e ensino das línguas. Faz parte da equipa do MAPS.