Stream Rafael Anton Irisarri - Solastalgia - Decay Waves Luís Fernandes - Demora - Rising Edge Caterina Barbieri - Ecstatic Computation - Bow of Perception Loscil - Lifelike - Volcano Nils Frahm - Encores 3 - All Armed Kryshe - Hauch - Hauch Alaskan Tapes - Views from Sixteen Stories - Views from Sixteen Stories Christopher Willits - Sunset - Pacific 1 Sven Laux and Daniela Orvin - The Writings - The Writings A Winged Victory for the Sullen - The Undivided Five - The Slow Descent Has Begun "Guardar Link Como" - "Save Link As"Right Mouse Button Click For Save (Last Show January 5th) Quando naquela noite procurámos a transparência num mar turvo o tempo da fúria em que despíamos as roupas e do corpo saía uma espécie de espírito o veludo rasgava-se por extenso da cabeça ao útero avançando no curvo sussurro do escuro. E nós, ventos entre lençóis de água suja em órbita circular ainda tínhamos o velho vício de invocar cometas o pomar das estrelas as horas de quando colocávamos no centro os medos estômagos abertos em terra molhada repetíamos as quedas com a cabeleira entrançada às sete cabeças do bicho. Com a areia apertada nas mãos e um arco-íris à cintura escorregávamos lentamente entre o sangue e a fissura das cores gotas doces preciosas a anestesia da precisão que nos levou ao submundo. Para ti tentar a sorte era o equivalente à combinação entre uma onda vertical e um mergulho moribundo o espaço entre o mar e as paredes descascadas sem qualquer escape às línguas ásperas. Por isso entravas depois todas as manhãs no submarino com o amor ao longe a desilusão mordendo o fio à dentada equivalente aos bagos nus comidos em sucção e sequência a pulsão latejante rente à nossa boca profundamente tonta, cega e cansada. A desobediência da vertigem íntima de um coração cantante pesa agora cravada na flauta do silêncio. Não vemos nem o pó nem a suspensão vela mais pelo fogo marítimo que engolimos. A militância faz-se quando o mar ainda arde mas não sobe mais o calor da chama. Apagam-se os cigarros restando o mistério que inflama em direção ao sol ao ritmo das plantas a saudade perseguindo a noite os sorrisos como ruínas. E nós, encolhidos nos quartos tentando descobrir uma certa paz nas asas negras carregadas enterrando os mortos a despedida ao som do canto trágico que rodeia os viajantes aqueles que sabem que o fundo desse oceano ficará um dia cristalino. Poema | Poem by - Ana Freitas Reis Fotografia | Photo by - Alípio Padilha