à toa pelo mundo

entendo pouco e aceito muito


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trem noturno pra Varanasi

3ª classe triliche
escolhi o upper
conforme recomendado
no vagão, entendi que é o que tem mais privacidade
menos chance de acordar com um
tarado me olhando
Ferdi ficou com o abaixo do meu
do meio meio claustrofóbico
fiquei feliz com o privilégio
de mulher-alvo de assédio
no upper em frente ao meu
uma coreana passou lencinhos umedecidos
em tudo
até nas paredes
e esticou os próprios lençóis pra dormir
ela se chama Kim
Ferdi apelidou de Miss Higiene
é a primeira vez dela na Índia
acabou de chegar
como nós
e vai ficar seis meses
quanto tempo vão durar os lencinhos?
achei a roupa de cama do trem
até muito boa
tecido grosso branquinho e com cheiro de amaciante
ainda que meio dura talvez engomada
essas fronhas já devem ter visto de tudo
dormir no ritmo do trem é tarefa fácil
acordamos com o sol entrando na janela
o trem se atrasou por 1h30, caminho lento
tomamos chai e comemos samosas de batata e ervilha
de alguém que vendeu pela janela em uma das paradas
bem gostoso mas meio pesada a fritura pela manhã
ah o estômago que se vire
Varanasi é menos caótica do que eu imaginava
entramos devagar
os trilhos passam nos quintais das casas
nos despedimos da Miss Higiene
chamamos um dos rickshaws na estação
que nos levou onde ele quis e não praonde pedimos
mas ok ok aceitamos
Singh Guesthouse 400 rúpias a noite
50 é 1 dólar uau como a Índia é barata
até pra mim
o hotel que a gente não escolheu
tá a um quarteirão do Ganges
atrás do Assi Ghat
Ghat é portão
e cada portão é um templo
um pra cada entidade
orla urbana do Ganges
Ganga o rio aqui chama Ganga
e a cidade é Varanasi Benares ou Kashi
entendo pouco e aceito muito
a margem do lado de cá
são escadas de concreto que descem até a água
do lado de lá
nada
um enorme banco de areia
e o horizonte aberto
pacífico e estéril
contraste forte com o movimento
vida morte vida
onde caminhamos
tentando compreender os rituais em curso

gente mergulhando e rezando

ou sentada na sombra suando
gente casando com as melhores roupas
e adiante três crematórios
o de primeira classe é o mais antigo
queima os corpos com madeiras nobres
a mais mais é o sândalo cheiroso
o de segunda classe deve queimar
sei lá
com pinus
e o baratex é crematório elétrico
que no Brasil é chique
sem madeira sem fumaça
sem anunciar-se aos deuses
a família de quem não tem rúpias nem pra esse
amarra o morto com pedras e leva pro rio
no sigilo da noite
na praça dos casamentos
um homem de túnica laranja
nos deu a bênção
depois cobrou 100 rúpias
nos embrenhamos pela cidade
em busca de água e comida
uma barraca na rua ao lado de uma oficina mecânica
caldeirões imensos de onde saem cheiros deliciosos
eu disse Quero comer aqui
Ferdi olhou pro chão de terra batida
pro cozinheiro de unhas compridas e sujas
pros clientes muitos de mãos e trajes sujos
perguntou Tem certeza?
muitos comendo com expressões satisfeitas
nenhum turista
Tenho, sentei no banquinho
baixo como todos os banquinhos de barracas de rua
tão baixo que sentar-se é quase acocorar-se

assim como a comida coreana e a japonesa

são cheias de potinhos com coisinhas
a indiana também pode ser
só que potinhos demais dão trabalho demais
num país com gente demais
melhor um prato só
cheio de côncavos
um pra cada prato
thali é um prato de vários pratos
vegetariano no caso
lentilha, berinjela, batata, espinafre
arroz, pão chapati, cebola, coentro
alguns legumes tão cozidos
e tão temperados
que não reconheço
thali vegetariano free refil
a cada côncavo que esvaziei usando as mãos
o cozinheiro atento serviu mais
até pedir pra parar
How much? 30 rúpias
paguei com a certeza de que meu prato foi mais caro que os dos outros
mas ainda sim tão barato que nem questionei
tudo delicioso
mãos sujas lavam-se com água
e limpam-se na barra da calça
e que os deuses ajudem
Ferdi continuou com fome
comeu amendoim sei lá
suco de manga
caminhamos
por ruas apinhadas de gente
vacas galinhas cachorros lixo
motocicletas rickshaws e poucos carros
casarões muito antigos de três, quatro andares
emolduram os quarteirões sem calçadas
as lojas ficam acima no nível da rua
quanto mais perto do rio mais altas
vendedores dormem e leem jornal
numa rua estreita
tecidos compridos recém-tingidos
de cúrcuma laranjinha
pendurados em varais no alto dos casarões
refrescam a tarde
bonito
de um jeito peculiar

achamos o mercado com seus temperos

tecidos bolsas roupas jóias
nos perdemos nos achamos
fomos encontrados pelo Blue Lassi
onde um homem de cócoras bate iogurte num pilão
Blue Lassi é uma loja tradicional
de iogurte batido com frutas
está no Lonely Planet
e tem wifi melhor que o do hotel
são dois salões pintados de azul
ocupados por bancos compridos
onde clientes tomam seu lassi olhando a rua
às vezes um dedo de prosa
e seguem seu rumo
pedi um de manga docinho e cremoso
servido no kulhad
pote de barro
que depois retorna ao pó
alguém molha e molda
e volta a fazer pote
tecnologia em extinção

uma procissão florida desceu a rua

levando seu morto pro crematório
voltamos à Ganga no rastro dela
e ao lado do ghat das cremações
ali mesmo
é o melhor chai da cidade
doce amargo rico em especiarias
e espumante
graças ao chaiwalla habilidoso
que faz malabarismos com o chá
jorrando de uma jarra à outra
cremoso
também servido num kulhad
que deixa o sabor mais terroso
depois de saborear o chai quente e doce
taco o pote com vontade numa pilha de cacos
satisfação
quebrar o copo
porque é preciso quebrá-lo
quebrei quebrei
bem quebradinho
urubus e vacas em volta das piras apagadas
restos de cinzas e comida e flores e adornos coloridos
no pictures please
respect the dead
contratamos um barqueiro
pra ver o pôr do sol
que desce na outra margem a do horizonte limpo
e tinge a cidade laranja
contratamos o sunset tour pra hoje
e o sunrise pra amanhã
e um pouco de ganja pra mais tarde
Você nunca fumou maconha?
Nunca me interessou
aportamos de volta
e sentamos nas escadas
o fiapo do dia foi embora
e com ela a luz elétrica na cidade toda
fumei minha primeira índica na Índia
sob as estrelas mais brilhantes
e isso deve significar alguma coisa
cinco da manhã
é muito cedo
mas vale a pena ir pro rio
sempre vale acordar cedo
e que delícia
Benares acordando
mesquitas cantam o primeiro chamado da manhã
e ouço outras músicas
guizos tambores agudos
farfalhar de asas de urubu e pombo
de um lado passa lentamente
uma vaca boiando morta
reconheço pelo rabo
do outro crianças miúdas
fazem aula de natação
saltam das escadas pra água
sacerdotes peregrinos gurus nômades
saúdam a grande mãe
que em Varanasi faz curva
e corre para o leste
atrás da cidade
o céu vai do branco ao azul
passando pelo dourado
e as construções de pedra sólida
de pé há centenas de anos
parecem cenário frágil sem profundidade
é só uma ilusão da manhã tranquila
então o sol começa a queimar
a música fica mais alta
formigueiro aceso
umbigo do mundo

pessoa querida que assina esta newsletter,

peço desculpas pela redução do volume de envios. o ano de 2022 tem sido bem atribulado e atividades vêm se atropelando. manter a escrita deste projeto no ritmo que me propus tem sido bem mais difícil do que antecipei…

à existência neste ano doido e doído soma-se também a minha dificuldade de escrever sobre a Índia! um país muito complexo e fascinante, onde vivi experiências que, 10 anos depois, ainda estou processando. pra você ter uma ideia, Varanasi é apenas a segunda cidade das 5 semanas intensas que vivi lá, ainda tem MUITA Índia pela frente e muitas histórias que eu quero escrever e compartilhar. espero que esteja gostando, apesar da demora =)

aliás, a leitura do capítulo anterior está aqui.

em setembro irei viajar para Portugal e estou tentando adiantar alguns textos para deixar envios agendados. talvez não consiga… mas olha, meu plano é manter a assinatura do projeto pelo catarse até o final do ano (idealmente antes, mas acho que vai ser até dezembro mesmo). depois disso, se eu ainda estiver escrevendo essa história, vou interromper as assinaturas mas continuar escrevendo e enviando a newsletter, tá bem? você vai continuar recebendo os textos em primeira mão!

pra você funciona se for assim? me conta o que tem achado desse processo e desses atrasos? fico aqui escrevendo no silêncio de casa, gravando as leituras de madrugada ou de manhã cedo antes de começarem as obras em volta de casa, sempre com muito carinho e cuidado, curiosa pra saber como vai a recepção do seu lado da tela.

obrigada por estar comigo nessa jornada nesse ano louco!

beijinhos,

Lívia



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à toa pelo mundoBy Livia Aguiar