Der Rosenkavalier, ópera em que Richard Strauss, após as tensões extremas de Salome e Elektra, realiza um deslocamento estético para uma linguagem mais transparente e irônica, sem abandonar a sofisticação orquestral, criando com Hugo von Hofmannsthal uma Viena que não é histórica, mas memória musical de um mundo em desaparecimento. A obra articula dois tempos: o social, feito de hierarquias, contratos e aparências, e o interior, marcado pela consciência da passagem do tempo na Marschallin, e transforma esse conflito em música por meio da valsa anacrônica, do protagonismo das vozes femininas e de uma escrita que alterna opulência e intimidade. Ao longo dos três atos, o centro dramático deixa de ser a união dos jovens para tornar-se a renúncia consciente da Marschallin, expressa no trio final, núcleo moral da ópera. Assim, mais do que uma comédia de costumes, a obra surge como uma reflexão sobre amor, história e finitude, em que tudo já nasce como lembrança e a música se torna o lugar onde o efêmero consegue durar.
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Roteiro e apresentação: Lucas Speck
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