
Sign up to save your podcasts
Or


Esta semana, quero falar convosco sobre um tema que… bem, não posso dizer que me apaixona, porque de facto não me apaixona, mas que me tem feito reflectir muito sobre o que é realmente humano e o que, no contexto deste momento da história, procuramos e desejamos. Esta semana falo-vos de procrastinação e inteligência artificial, e para quem acha à partida que estes dois temas não se tocam, venham comigo e vamos mergulhar nesta maionese que parece estar deslaçada – mas prometo que não.
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrever a newsletter para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.
E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.
Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.
Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
Esta semana, quero falar convosco sobre um tema que… bem, não posso dizer que me apaixona, porque de facto não me apaixona, mas que me tem feito reflectir muito sobre o que é realmente humano e o que, no contexto deste momento da história, procuramos e desejamos. Esta semana falo-vos de procrastinação e inteligência artificial, e para quem acha à partida que estes dois temas não se tocam, venham comigo e vamos mergulhar nesta maionese que parece estar deslaçada – mas prometo que não.
Nos dias que correm, estamos rodeados por conteúdos criados por inteligência artificial. É cada vez mais difícil distinguir o que foi feito por um humano e o que foi feito por máquinas, máquinas essas que aprenderam com humanos a repetir padrões e a relacionar informações.
Bem, nem entro na parte ética da inteligência artificial e de como muitas das aprendizagens que a máquina fez e faz são a partir de trabalho criado por pessoas que não são compensadas por isso. Esse é, sem dúvida, um tema muito relevante para tantos artistas que vêem os seus trabalhos usados para treinar inteligência artificial sem o seu consentimento e sem receber qualquer compensação por isso. Esse é um tema mesmo, mesmo importante e que tem de ser discutido e regulamentado, mas não é o nosso âmbito aqui e agora.
Aqui e agora, quero voltar então ao facto de estarmos rodeados por todos os lados por conteúdos criados por inteligência artificial. Hoje em dia, quando queremos contactar uma entidade pública ou privada, passamos por vinte e quatro mil interacções com bots – e acho que não há nada mais frustrante que lermos as respostas repetitivas e, muitas vezes, pouco inteligentes. A dificuldade que é finalmente conseguir falar com um humano – e que diferença poder interagir com uma pessoa que pensa e que nos pode dar resposta às questões que temos. Mas adiante.
Lembram-se de, nos anos 90, de repente começarmos a ter computadores em casa? E cada computador vinha com o Word, imaginem só, cheio de tipos de letra diferentes. Lembram-se da loucura que foi usar todos aqueles tipos de letra diferentes, acessíveis a todos nós? Foi um fartote de avisos na parede com três tipos de letra fantasia, mais três letras sem serifa, e outras quantas com serifa, já para não falar na paixão de muita gente pela letra Comic Sans, um ódio de estimação de muitos designers. Enfim, um excesso proporcionado pela acessibilidade das diferentes letras. Como estavam à mão, acessíveis com um simples clique, usávamos e abusávamos das letras sem ter a menor noção da ligação entre o seu design e a sua função.
Enfim, com o passar dos anos, a utilização da salada de frutas de letras foi ficando mais moderada. Os próprios engenheiros e designers da Microsoft começaram a criar letras mais recentes e mais acessíveis, colocando-as como a escolha por defeito, o que veio a melhorar drasticamente a qualidade visual e comunicativa dos muitos avisos feitos ou improvisados em Word.
A sensação que tenho, hoje em dia, é que vivemos um entusiasmo com a inteligência artificial que é semelhante a esse entusiasmo que tivemos há umas décadas atrás com os muitos tipos de letra do Word. E que temos de deixar passar o tempo para que a sua utilização se regularize e seja, também, regulamentada. E que havemos de encontrar um equilíbrio, senão hoje, espero que no futuro. Espero.
A mim, confesso, este excesso de conteúdos produzidos com inteligência artificial cansa-me. Olho à minha volta e vejo que há muito conteúdo a ser produzido, sim, mas que é todo bastante igual. O entusiasmo excessivo com esta ferramenta muito potente e sofisticada que é a inteligência artificial cansa-me. Cansa-me, precisamente porque sinto que o que produz é sempre muito igual a si próprio.
E isso faz-me pensar no que realmente gosto, e o que gosto é o que é profundamente humano: o erro, a imperfeição, a tentativa, o processo, a procrastinação. E sim, a procrastinação também, porque se há coisa intrinsecamente humana é precisamente a procrastinação, e essa procrastinação, quer queiramos, quer não, acaba por fazer parte da nossa história e da história do projecto (ou objecto, ou situação) em que procrastinámos.
Bem, mas não pensem que eu renego a inteligência artificial: não o faço. Tento incorporar as ferramentas para me ajudar na execução de tarefas. Mas não quero que me substitua nas tarefas que me fazem humana: as tarefas em que crio algo que antes não existia, como os episódios deste podcast, ou os emails que escrevo à minha comunidade, as ilustrações que faço, os desenhos no meu diário gráfico, as pinturas ou as camisolas tricotadas.
Aqui há tempos, vi um post no Instagram que me chamou muito a atenção, mas que já não consigo localizar. Alguém dizia, com muito mais graça do que consigo aqui reproduzir, algo parecido a: “a inteligência artificial libertou-me das tarefas criativas para ter mais tempo para lavar a loiça.” E acho que isto diz tudo: se quisermos, a inteligência artificial escreve por nós, cria imagens por nós, cria música por nós. Mas e lavar a loiça? Essa é que é essa. Não é lavar a loiça que me faz humana, mas a capacidade de criar algo do nada, e usar a inteligência artificial para me substituir numa tarefa que me faz humana parece-me… errado. Estranho. Bizarro. Uma estranha opção de vida.
Como consumidora de obras criativas, não quero imaginar a aridez de uma paisagem artística criada por inteligência artificial.
E é neste contexto que procuro, cada vez mais, o que é humano, o que apresenta as tentativas, os erros, as hesitações do processo criativo humano. E a procrastinação faz parte desse processo criativo.
Por muito estranho que possa parecer, a procrastinação parece-me um mecanismo muito mais interessante do que esse prodígio da tecnologia que é a inteligência artificial. Nutro muito mais entusiasmo pela procrastinação do que pela inteligência artificial, e se esse ainda não é o vosso caso, venham comigo e pode ser que, da próxima vez que se encontrarem a procrastinar, se possam sentir, pelo menos, menos frustrados, e mais curiosos com o fenómeno. Em primeiro lugar, quem procrastina? Nós, humanos. As máquinas não procrastinam, as máquinas fazem, e fazem mais ou menos sempre igual. Óptimas para umas coisas, mas não nos contentemos com esse deslumbre inicial.
A procrastinação é algo de profundamente humano e que surge quando nos propomos fazer um projecto ou dar um passo que sabemos que vai ser desafiante. A procrastinação não é falta de vontade, nem falta de disciplina, nem falta de organização. A procrastinação é, basicamente, medo. De uma forma resumida, temos medo de que o projecto funcione e tenha êxito; e temos medo de que o projecto não funcione e falhemos. E, sim, o sucesso pode ser tão assustador quanto o fracasso.
Mas se olharmos para a procrastinação como algo que podemos investigar, em vez de tentar combater à força, cegamente, veremos que a procrastinação nos vai trazer informação muito relevante: este projecto está a meter-me medo? Então é porque é importante. E é importante porquê? De que forma é que me aproxima da versão de mim que desejo encarnar?
Nesta altura em que a inteligência artificial, potente e muito acessível, nivela todo o conteúdo que é produzido – fica a parecer tudo igual, minha nossa, que tédio – voltarmos a centrar-nos no nosso ser, em quem somos realmente, é um caminho para encontrar a serenidade necessária para navegarmos esta paisagem incerta, volátil, em rápida ebulição.
Confesso-vos: aqui há dias, uma pessoa perguntava-me se eu não usava inteligência artificial para escrever os episódios de podcast. E eu pensei: “cruzes credo, se é a tarefa que eu mais gosto de fazer, das tarefas que considero mais importantes e estratégicas no meu negócio porque é a ponte para poder comunicar com mais pessoas, para que é que usaria inteligência artificial para redigir os guiões? Para ficarem iguais a tantas outros textos que vemos por essas redes sociais fora?”
De maneira que não, não uso inteligência artificial para escrever os guiões de podcast. Uso, contudo, para fazer as legendas e transcrições que aparecem nas apps de podcasts – porque, sim, transcrever legendas era uma tarefa que fazia à mão, antigamente, e que me levava muitíssimo tempo, e agora não.
E sabem uma coisa que me acontece quando me sento a escrever guiões de episódios? Procrastino. Há sempre uma resistência inicial, que eu já sei a que é que se deve: deve-se a medo – medo porque sei que em cada episódio que escrevo, faço uma reflexão que me aproxima da versão de mim própria que eu quero vir a ser, e que me aproxima da visão de futuro que tenho para o meu negócio. E também que com cada guião que escrevo partilho essa visão de mim própria com mais pessoas, e isso também pode ser assustador.
A seguir, investigo a minha procrastinação e aí consigo superá-la, e dedicar-me a escrever-vos, a contactar convosco, a conectar de forma profundamente humana, que é das tarefas que mais gosto de fazer no meu negócio.
De maneira que é assim que eu acho que a inteligência artificial e a procrastinação se relacionam: embora possamos querer abraçar a primeira e largar a segunda, talvez seja mais proveitoso abraçar a segunda, e só incorporar a primeira nas tarefas tipo “lavar a loiça”. Até porque, aqui entre nós, entre escrever um guião e lavar a loiça, escrever é muito mais divertido.
Abraçar a procrastinação também quer dizer entendê-la melhor, e entendê-la é o primeiro passo para a começar a superar. No próximo dia 8 de Maio vamos ter uma masterclass gratuita a que dei o nome de “ProcrastinAção!”, em que nos iremos debruçar precisamente a aprender e a entender este mecanismo profundamente humano, para depois fazer um plano para a começar a superar.
Inscrevam-se na masterclass “ProcrastinAção!” através do link nas notas deste episódio. Se sentem que é o momento de começar a trabalhar a procrastinação, não procrastinem e inscrevam-se hoje mesmo e, se puderem, façam chegar o link a alguém que também pode beneficiar de começar a superar a procrastinação. Vemo-nos lá!
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrevê-los na tua plataforma preferida de podcasts, ou então assinarr a newsletter em airdesignstudio.com para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.
E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.
By Ana Isabel RamosEsta semana, quero falar convosco sobre um tema que… bem, não posso dizer que me apaixona, porque de facto não me apaixona, mas que me tem feito reflectir muito sobre o que é realmente humano e o que, no contexto deste momento da história, procuramos e desejamos. Esta semana falo-vos de procrastinação e inteligência artificial, e para quem acha à partida que estes dois temas não se tocam, venham comigo e vamos mergulhar nesta maionese que parece estar deslaçada – mas prometo que não.
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em www.airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrever a newsletter para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.
E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.
Dou-te as boas-vindas a mais uma confissão de uma super-perfeccionista em recuperação, um podcast sobre perfeccionismo, criatividade e empoderamento.
Nestas confissões, vou partilhar contigo os altos e baixos do meu longo caminho de recuperação do super-perfeccionismo.
Se também tu tens vontade de deixar para trás a excessiva exigência contigo própria, soltar o perfeccionismo e abraçar a criatividade que tens dentro de ti, quer te consideres uma pessoa artística, quer não, então fica aqui nas “Confissões”.
Olá e sejam bem-vindas a este episódio de “Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação”.
Esta semana, quero falar convosco sobre um tema que… bem, não posso dizer que me apaixona, porque de facto não me apaixona, mas que me tem feito reflectir muito sobre o que é realmente humano e o que, no contexto deste momento da história, procuramos e desejamos. Esta semana falo-vos de procrastinação e inteligência artificial, e para quem acha à partida que estes dois temas não se tocam, venham comigo e vamos mergulhar nesta maionese que parece estar deslaçada – mas prometo que não.
Nos dias que correm, estamos rodeados por conteúdos criados por inteligência artificial. É cada vez mais difícil distinguir o que foi feito por um humano e o que foi feito por máquinas, máquinas essas que aprenderam com humanos a repetir padrões e a relacionar informações.
Bem, nem entro na parte ética da inteligência artificial e de como muitas das aprendizagens que a máquina fez e faz são a partir de trabalho criado por pessoas que não são compensadas por isso. Esse é, sem dúvida, um tema muito relevante para tantos artistas que vêem os seus trabalhos usados para treinar inteligência artificial sem o seu consentimento e sem receber qualquer compensação por isso. Esse é um tema mesmo, mesmo importante e que tem de ser discutido e regulamentado, mas não é o nosso âmbito aqui e agora.
Aqui e agora, quero voltar então ao facto de estarmos rodeados por todos os lados por conteúdos criados por inteligência artificial. Hoje em dia, quando queremos contactar uma entidade pública ou privada, passamos por vinte e quatro mil interacções com bots – e acho que não há nada mais frustrante que lermos as respostas repetitivas e, muitas vezes, pouco inteligentes. A dificuldade que é finalmente conseguir falar com um humano – e que diferença poder interagir com uma pessoa que pensa e que nos pode dar resposta às questões que temos. Mas adiante.
Lembram-se de, nos anos 90, de repente começarmos a ter computadores em casa? E cada computador vinha com o Word, imaginem só, cheio de tipos de letra diferentes. Lembram-se da loucura que foi usar todos aqueles tipos de letra diferentes, acessíveis a todos nós? Foi um fartote de avisos na parede com três tipos de letra fantasia, mais três letras sem serifa, e outras quantas com serifa, já para não falar na paixão de muita gente pela letra Comic Sans, um ódio de estimação de muitos designers. Enfim, um excesso proporcionado pela acessibilidade das diferentes letras. Como estavam à mão, acessíveis com um simples clique, usávamos e abusávamos das letras sem ter a menor noção da ligação entre o seu design e a sua função.
Enfim, com o passar dos anos, a utilização da salada de frutas de letras foi ficando mais moderada. Os próprios engenheiros e designers da Microsoft começaram a criar letras mais recentes e mais acessíveis, colocando-as como a escolha por defeito, o que veio a melhorar drasticamente a qualidade visual e comunicativa dos muitos avisos feitos ou improvisados em Word.
A sensação que tenho, hoje em dia, é que vivemos um entusiasmo com a inteligência artificial que é semelhante a esse entusiasmo que tivemos há umas décadas atrás com os muitos tipos de letra do Word. E que temos de deixar passar o tempo para que a sua utilização se regularize e seja, também, regulamentada. E que havemos de encontrar um equilíbrio, senão hoje, espero que no futuro. Espero.
A mim, confesso, este excesso de conteúdos produzidos com inteligência artificial cansa-me. Olho à minha volta e vejo que há muito conteúdo a ser produzido, sim, mas que é todo bastante igual. O entusiasmo excessivo com esta ferramenta muito potente e sofisticada que é a inteligência artificial cansa-me. Cansa-me, precisamente porque sinto que o que produz é sempre muito igual a si próprio.
E isso faz-me pensar no que realmente gosto, e o que gosto é o que é profundamente humano: o erro, a imperfeição, a tentativa, o processo, a procrastinação. E sim, a procrastinação também, porque se há coisa intrinsecamente humana é precisamente a procrastinação, e essa procrastinação, quer queiramos, quer não, acaba por fazer parte da nossa história e da história do projecto (ou objecto, ou situação) em que procrastinámos.
Bem, mas não pensem que eu renego a inteligência artificial: não o faço. Tento incorporar as ferramentas para me ajudar na execução de tarefas. Mas não quero que me substitua nas tarefas que me fazem humana: as tarefas em que crio algo que antes não existia, como os episódios deste podcast, ou os emails que escrevo à minha comunidade, as ilustrações que faço, os desenhos no meu diário gráfico, as pinturas ou as camisolas tricotadas.
Aqui há tempos, vi um post no Instagram que me chamou muito a atenção, mas que já não consigo localizar. Alguém dizia, com muito mais graça do que consigo aqui reproduzir, algo parecido a: “a inteligência artificial libertou-me das tarefas criativas para ter mais tempo para lavar a loiça.” E acho que isto diz tudo: se quisermos, a inteligência artificial escreve por nós, cria imagens por nós, cria música por nós. Mas e lavar a loiça? Essa é que é essa. Não é lavar a loiça que me faz humana, mas a capacidade de criar algo do nada, e usar a inteligência artificial para me substituir numa tarefa que me faz humana parece-me… errado. Estranho. Bizarro. Uma estranha opção de vida.
Como consumidora de obras criativas, não quero imaginar a aridez de uma paisagem artística criada por inteligência artificial.
E é neste contexto que procuro, cada vez mais, o que é humano, o que apresenta as tentativas, os erros, as hesitações do processo criativo humano. E a procrastinação faz parte desse processo criativo.
Por muito estranho que possa parecer, a procrastinação parece-me um mecanismo muito mais interessante do que esse prodígio da tecnologia que é a inteligência artificial. Nutro muito mais entusiasmo pela procrastinação do que pela inteligência artificial, e se esse ainda não é o vosso caso, venham comigo e pode ser que, da próxima vez que se encontrarem a procrastinar, se possam sentir, pelo menos, menos frustrados, e mais curiosos com o fenómeno. Em primeiro lugar, quem procrastina? Nós, humanos. As máquinas não procrastinam, as máquinas fazem, e fazem mais ou menos sempre igual. Óptimas para umas coisas, mas não nos contentemos com esse deslumbre inicial.
A procrastinação é algo de profundamente humano e que surge quando nos propomos fazer um projecto ou dar um passo que sabemos que vai ser desafiante. A procrastinação não é falta de vontade, nem falta de disciplina, nem falta de organização. A procrastinação é, basicamente, medo. De uma forma resumida, temos medo de que o projecto funcione e tenha êxito; e temos medo de que o projecto não funcione e falhemos. E, sim, o sucesso pode ser tão assustador quanto o fracasso.
Mas se olharmos para a procrastinação como algo que podemos investigar, em vez de tentar combater à força, cegamente, veremos que a procrastinação nos vai trazer informação muito relevante: este projecto está a meter-me medo? Então é porque é importante. E é importante porquê? De que forma é que me aproxima da versão de mim que desejo encarnar?
Nesta altura em que a inteligência artificial, potente e muito acessível, nivela todo o conteúdo que é produzido – fica a parecer tudo igual, minha nossa, que tédio – voltarmos a centrar-nos no nosso ser, em quem somos realmente, é um caminho para encontrar a serenidade necessária para navegarmos esta paisagem incerta, volátil, em rápida ebulição.
Confesso-vos: aqui há dias, uma pessoa perguntava-me se eu não usava inteligência artificial para escrever os episódios de podcast. E eu pensei: “cruzes credo, se é a tarefa que eu mais gosto de fazer, das tarefas que considero mais importantes e estratégicas no meu negócio porque é a ponte para poder comunicar com mais pessoas, para que é que usaria inteligência artificial para redigir os guiões? Para ficarem iguais a tantas outros textos que vemos por essas redes sociais fora?”
De maneira que não, não uso inteligência artificial para escrever os guiões de podcast. Uso, contudo, para fazer as legendas e transcrições que aparecem nas apps de podcasts – porque, sim, transcrever legendas era uma tarefa que fazia à mão, antigamente, e que me levava muitíssimo tempo, e agora não.
E sabem uma coisa que me acontece quando me sento a escrever guiões de episódios? Procrastino. Há sempre uma resistência inicial, que eu já sei a que é que se deve: deve-se a medo – medo porque sei que em cada episódio que escrevo, faço uma reflexão que me aproxima da versão de mim própria que eu quero vir a ser, e que me aproxima da visão de futuro que tenho para o meu negócio. E também que com cada guião que escrevo partilho essa visão de mim própria com mais pessoas, e isso também pode ser assustador.
A seguir, investigo a minha procrastinação e aí consigo superá-la, e dedicar-me a escrever-vos, a contactar convosco, a conectar de forma profundamente humana, que é das tarefas que mais gosto de fazer no meu negócio.
De maneira que é assim que eu acho que a inteligência artificial e a procrastinação se relacionam: embora possamos querer abraçar a primeira e largar a segunda, talvez seja mais proveitoso abraçar a segunda, e só incorporar a primeira nas tarefas tipo “lavar a loiça”. Até porque, aqui entre nós, entre escrever um guião e lavar a loiça, escrever é muito mais divertido.
Abraçar a procrastinação também quer dizer entendê-la melhor, e entendê-la é o primeiro passo para a começar a superar. No próximo dia 8 de Maio vamos ter uma masterclass gratuita a que dei o nome de “ProcrastinAção!”, em que nos iremos debruçar precisamente a aprender e a entender este mecanismo profundamente humano, para depois fazer um plano para a começar a superar.
Inscrevam-se na masterclass “ProcrastinAção!” através do link nas notas deste episódio. Se sentem que é o momento de começar a trabalhar a procrastinação, não procrastinem e inscrevam-se hoje mesmo e, se puderem, façam chegar o link a alguém que também pode beneficiar de começar a superar a procrastinação. Vemo-nos lá!
Confissões de uma super-perfeccionista em recuperação é um podcast de Ana Isabel Ramos, designer, ilustradora, autora de livros e mentora de criatividade em airdesignstudio.com e no Instagram como @air_billy.
Se não queres perder nenhum episódio, poderás subscrevê-los na tua plataforma preferida de podcasts, ou então assinarr a newsletter em airdesignstudio.com para os receberes semanalmente na tua caixa de correio.
E se algo neste episódio vibrou dentro de ti, partilha-o com as pessoas da tua vida que poderão também encontrar um eco nestas confissões. Um passo de cada vez, recuperaremos do perfeccionismo e abraçaremos a fluidez para trazermos à superfície o melhor de nós.