Por Auguste Saudreau
No caminho da santidade, o primeiro dever da alma deve ser destruir tudo quanto se opõe à ação da graça nela.
Pelas vitórias sobre seus defeitos, pelos sacrifícios generosos, a alma diminui as más tendências e fortifica as boas disposições. As primeiras vitórias atraem sobre a alma novas graças e, acima de tudo, as luzes que fortalecem, e iluminam sua fé. Desse jeito, a alma penetra na vida de piedade. Mais esclarecida, torna-se capaz de virtudes mais altas. Tem menos dificuldades e maiores méritos. Sua semelhança com Deus se acentua cada vez mais.
No entanto, restam ainda numerosos obstáculos. Apesar de que esses obstáculos não fazem oposição radical à graça, eles estorvam a sua ação. Quantas condescendências consigo mesma, mais ou menos conscientes, quanta procura de satisfações pessoais, quanto amor próprio sempre vivo, quanto apego secreto em que a alma se compraz e se perde, quantos sentimentos puramente naturais, desejos, preocupações, dores e alegrias que nada têm de divino, e que impedem a assimilação do homem a Deus!
O dever da alma piedosa é afastar para bem longe de si todas essas imperfeições, esquecendo-se de si mesma, tendo-se em conta de nada, renunciando-se continuamente. Dizia São Vincente de Paulo: "Se nos despojarmos de nós mesmos, Deus nos encherá de si mesmo, pois ele não pode admitir o vazio". E Santa Joana de Chantal dizia também: "Quanto mais nos despojarmos de tudo quanto não é Deus, tanto mais ele nos encherá de si mesmo".
Deus enche de si mesmo aqueles que se esvaziam de si mesmos. Quão fecundo é esse princípio! Esvaziar o espírito, esvaziar o coração de tudo o que não é divino ou sobrenatural, tal é o grande meio de que a alma piedosa dispõe para atrair sobre si os dons de Deus.
Entretanto, mesmo os que trabalham fielmente nesse sentido, não conseguiriam purificar o espírito e o coração, se o Senhor não os ajudasse por provações muito penosas e longas, porém grandemente benéficas.
A Sagrada Escritura insiste em dizer que a alma justa precisa se livrar de suas impurezas, como o ouro precisa passar pelo fogo para se purificar das sujeiras que lhe embaçam o fulgor.
As graças purificadoras são necessárias e precedem às graças transformadoras. Cada vez que o Senhor se dispõe a conceder graças mais elevadas à alma, graças mais iluminativas, mais aptas a torná-la semelhante a si, Ele a prepara por provações que lhe consomem os elementos impuros. E essas purificações sucessivas são tanto mais rigorosas quanto mais a alma se adianta na santidade.
Sem dúvida, nos desígnios de Deus, essas provações devem aumentar o mérito dos justos e tornam mais poderosas as suas intercessões em favor de seus irmãos. Mas tais provações se explicam também pela necessidade de se libertarem, não somente dos vestígios do pecado, mas de tudo quanto ainda têm de muito natural, de muito, ouso dizer, de demasiadamente humano. Com efeito, toda precipitação, todo ardor natural é um obstáculo à completa expansão da graça e impede a plena transformação da alma em Deus.
As almas pouco ardentes na renúncia se julgam muito provadas quando seu amor próprio é humilhado, quando sua vontade é contrariada, quando sofrem privações ou dores físicas. São, de fato, provações, porém na maioria das vezes não atingem senão a superfície da alma. Quem não passou por outras, não pode ter senão virtudes pouco profundas. As provações que purificam de verdade são aquelas que penetram até o fundo da alma.