Por Santo Afonso Maria de Ligório.
Se Jesus Cristo até hoje é tão pouco amado no mundo, é consequência do desleixo e da ingratidão dos homens, que nem de vez em quando querem se dar ao trabalho de refletir no que o Filho de Deus sofreu por nós ou no amor que em Suas penas nos testemunhou.
Parece loucura, observa aqui São Gregório, que um Deus tenha querido morrer, a fim de nos remir a nós, miseráveis escravos. "Ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós".
Sim, quis Ele derramar todo o Seu sangue para com ele nos purificar de nossos pecados: "Ele nos amou", atesta São João no Apocalipse, "e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue".
Óh, meu Deus, exclama São Boaventura, vós me amastes a tal ponto, que por amor a mim, chegastes a odiar a vós mesmo. .
Não satisfeito com isso, quis ainda dar-se a nós em alimento na sagrada Comunhão. Deus de tal forma se humilhou, assim ensina Santo Tomás, falando sobre esse sacramento sacrossanto, como se fosse nosso escravo, e como se cada um de nós fosse o deus dele.
Daí o brado do Apóstolo São Paulo: "O amor que Jesus Cristo nos testemunhou nos obriga, nos força, nos constrange até, por assim dizer, a amá-lo".
Meu Deus, o que é que os homens são capazes de fazer pelo amor de uma criatura qualquer que soube conquistar o seu afeto? E um Deus de infinita bondade, de beleza infinita, um Deus que para cada um de nós quis morrer numa cruz, é amado tão pouco! Vamos pois, imitemos todos o Apóstolo que exclamou: "Longe de mim gloriar-me, senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Que glória maior, falou o mesmo São Paulo, pudera eu almejar neste mundo, acima da glória de que Deus tenha dado seu sangue e sua vida por amor a mim? Essa tem que ser a linguagem de todo aquele que tem fé.
E quem será que, ufanando-se de ter fé, poderia amar outra coisa senão a Deus? Óh Deus, como é possível que uma alma, contemplando a Jesus Cristo crucificado, suspenso por três cravos, sem outro apoio, além das próprias chagas dos pés e das mãos, morrendo de pura dor, só por amor de nós, não se sinta atraída, forçada, constrangida a amá-lo, com todas as suas forças?
Não, não posso imaginar que uma alma que tenha fé, por mais fria que esteja no amor divino, possa ficar insensível e não seja impelida a amar Jesus, ao contemplar com atenção, fosse apenas um instante, o que dizem as Escrituras, sobre o amor que Jesus Cristo nos mostrou em sua paixão e no diviníssimo sacramento do altar.
No tocante a paixão de Jesus, escreve Isaías: "Verdadeiramente, tomou sobre si as nossas fraquezas e Ele próprio carregou as nossas dores". E acrescenta: "Foi dilacerado por causa das nossas iniquidades, foi triturado por causa dos nossos crimes".
Jesus Cristo quis aturar pessoalmente todas essas penas e dores, a fim de nos livrar delas, a nós que as tínhamos merecido.
Quanto ao Sacramento da Eucaristia, o próprio Jesus Cristo, na hora da sua instituição, nos disse a todos: "Tomai e comei, isto é o meu Corpo", e em outro lugar: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e Eu nele".
Como poderá o homem que tem fé ler essas palavras, sem se sentir como que forçado a amar esse Deus, que após ter sacrificado seu sangue e sua vida por nosso amor, ainda por cima nos deixou o seu corpo no santo sacramento do altar, para servir de alimento à nossa alma, e para nos unirmos inteiramente a Ele na Sagrada Comunhão?
O Divino Salvador se nos mostra numa cruz, traspassado por três pregos, jorrando sangue de todos os lados e Ele próprio agonizando nas dores da morte.
Foi até esse ponto, para conquistar o nosso amor. Foi pelo nosso amor que Ele quis se ver reduzido a um estado tão miserável.
Ele se nos mostrou coberto de chagas, e quis morrer de dor por amor de nós, para, através de todos esses sofrimentos, nos sugerir ao menos alguma ideia da caridade incomensurável e terna que nos devota. É isso que São Paulo tão bem soube exprimir nesta frase lapidar: "Ele nos amou, e se entregou a si mesmo por nós".