Suficiência (arkeo) e Aperfeiçoamento (teleolai)
II Co.12:9
A Graça não é um processo em andamento. O processo acontece em nós na medida em que tomamos consciência do seu poder e passamos a viver e crescer em Graça.
A suficiência da graça é muito mais do que uma completude, um preenchimento existencial, ultrapassa a sensação de ter encontrado um sentido para a vida. A palavra usada por Paulo é "arkeo" que tem relação com o que é primordial e não pode ser mais reduzido, aquilo que é independente de qualquer condicionamento. Este é o princípio fundamental do agir de Deus em nós. Por isso, qualquer coisa que desejarmos sem o ter é efêmero e desnecessário, porque apenas a graça de Deus em Cristo é o "arkeo" (o fundamento primordial de nosso ser).
A partir desta constatação, passamos a considerar as fraquezas, as injúrias, as necessidades, as perseguições e as angústias por amor de Cristo como a consumação de nosso SER. Na verdade o poder de Deus, mais do que ser aperfeiçoado em nós por meio das fraquezas, ele encontra em tudo isso a sua finalidade. Veja que a palavra que traduzimos por "aperfeiçoamento" é "teleolai" (que tem o sentido de finalidade última). Portanto, Paulo está ensinando que a finalidade do poder de Deus em nós é nos levar para a cruz, para sermos crucificados com Cristo (II Co.13:4 e Gl.2:20)
ISSO É GRAÇA: o favor de Deus que nos coloca diante da Substância Primordial, da Essência do nosso SER, ao mesmo tempo que nos enche de poder para sermos o que SOMOS NELE. O resultado prático disso é que Cristo passa a viver em nós. Passamos a considerar, o que antes considerávamos lucro, como perda e esterco por causa de Cristo, para ganhar a Cristo e ser encontrado nele, não tendo a própria justiça que procede da lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé (Fl.3:7-11).
É muito limitado achar que a graça serve apenas para uma salvação para o pós-morte, isso tem transformado a pregação do Evangelho em produto comercializado. A Graça nos salva para vivermos Cristo neste tempo presente, o poder de Cristo encontra sua finalidade (aperfeiçoamento) quando somos transformados na sua imagem e semelhança.
É a Graça que nos coloca no mundo como pequenos cristos e no céu como salvos em Cristo.
Não podemos continuar separado essas coisas, o essencial e a finalidade estão entrelaçados. Não dá para entender ou experimentar isso se continuarmos pensando de forma linear e cronológica. O fundamento não é um início e a finalidade não é um fim. Fundamento e finalidade estão inceridos em todo processo. Não se trata de encontrar uma razão e um sentido para as dores e as alegrias, para as coisas que acontecem na vida. A busca deveria ser encontrar-se com a Vida em sua totalidade (no arkeo e no teleolai que se evidenciam no Caminho). A resposta não está nem no início, nem no fim. Se houvesse resposta ela estaria na Vida que flui.
Como Igreja nós temos aceitado confortavelmente um explicação dogmática, teológica, doutrinária que não se mantém diante da primeira crise existencial. Então, culpamos a pós-verdade, o relativismo, a cultura, o diabo, a falta de fé, etc. Talvez, além de ensinar dogmatismos, doutrinas e tradições devêssemos também "ensinar" a pensar. Para mim, muitas das ferramentas teológicas, históricas, doutrinárias, morais que divinizamos são insuficientes para responder às minhas questões, mas quando vivencio é experimento a Graça ela me coloca na Essência e na Finalidade do Ser. Nela as insatisfações, incertezas, espinhos, dores e incômodos são parte do propósito de SER um pequeno Cristo nesta Terra.
Não acho que deveríamos romper com toda nossa tradição de fé, pois isso é parte do que somos. Talvez possamos colocar tudo isso num lugar menos divinizado, olhar menos para nosso espinho na carne (que vai continuar incomodando) e mais para o autor e consumador da Fé que suportou a Cruz (Hb.12:2).