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Num dia chuvoso, em uma pequena cidade do oeste do Paraná, entrei em uma aconchegante cafeteria chamada Yarn Barn para comer algo. Devo abrir um parêntese aqui: foi o melhor sanduíche com ovos que comi na vida!
Fui atendido por um barista cujo sotaque me pareceu peculiar, sendo eu, um mineiro. Era uma mistura de espanhol com o sotaque paranaense, que resultava quase em um matuto gaudério.
Trocando algumas palavras, ele acabou contando um pouco de sua história, avisando de antemão que era barista autodidata. Na verdade, ele não gostava do assunto "café" até se deparar com a necessidade de estudá-lo por conta própria.
A conversa começou com o curioso fato de que um lugar que servia café e sanduíches fechava para o almoço. "Não tem funcionários. Antigamente não fechava, mas depois que saiu um funcionário, não encontramos mais ninguém para substituir", explicou.
Ele é venezuelano. Anderson Flores é o seu nome. Contou como chegou ao Brasil: havia entrado de forma ilegal. Surpreendi-me com o fato de que, na época, havia "guias" especializados em cruzar venezuelanos para o Brasil.
Após estudar engenharia petrolífera e engenharia civil, Anderson abandonou os cursos pela falta de perspectiva e pelos perigos que enfrentava. Não entendi muito bem o que eram esses perigos e não quis perguntar, mas parecia que a faculdade lá não era um dos lugares mais seguros.
A decisão de vir para o Brasil veio da noite para o dia. "Vamos? Tem que ser amanhã!", exclamou um amigo. Venderam tudo o que tinham, pagaram o "guia" e cruzaram a fronteira, sendo perseguidos e até caçados.
Anderson veio com um objetivo em mente: uma vida melhor. Logo se estabeleceu, buscou empregos e, hoje, diz estar investindo em seu futuro.
A vida na Venezuela era muito ruim; não havia muita perspectiva de vida.
— E hoje?
"Hoje estou no paraíso", disse ele com um grande sorriso no rosto.
O Brasil está longe de ser uma Suécia ou Alemanha. Nós, que vivemos aqui, fazemos a comparação com países de primeiro mundo e não conseguimos ter uma visão de paraíso. Mas, para quem saiu do inferno, certamente o purgatório é paradisíaco.
"Você tem ideia como aqui tudo é perfeito?", continuou. "Se você está fazendo um ovo mexido no café da manhã e seu gás acaba, você manda uma mensagem no celular e, em 20 minutos, tem alguém dentro da sua casa trocando seu gás”.
“Lá na Venezuela, você só conseguia um gás em menos de dois dias se pagasse propina para alguém. E mesmo assim, poderia vir um botijão cheio de água."
Vemos muitos venezuelanos hoje — e também brasileiros — que estão somente aproveitando a "mordomia" assistencialista dos governos populistas. Fogem de empregos e vivem às custas do Estado e pedindo esmola nos semáforos. Fico feliz e esperançoso ao encontrar alguém como Anderson, que decidiu buscar uma vida melhor e dá o seu melhor para crescer.
Anderson, hoje, está no paraíso.
By Christian GurtnerNum dia chuvoso, em uma pequena cidade do oeste do Paraná, entrei em uma aconchegante cafeteria chamada Yarn Barn para comer algo. Devo abrir um parêntese aqui: foi o melhor sanduíche com ovos que comi na vida!
Fui atendido por um barista cujo sotaque me pareceu peculiar, sendo eu, um mineiro. Era uma mistura de espanhol com o sotaque paranaense, que resultava quase em um matuto gaudério.
Trocando algumas palavras, ele acabou contando um pouco de sua história, avisando de antemão que era barista autodidata. Na verdade, ele não gostava do assunto "café" até se deparar com a necessidade de estudá-lo por conta própria.
A conversa começou com o curioso fato de que um lugar que servia café e sanduíches fechava para o almoço. "Não tem funcionários. Antigamente não fechava, mas depois que saiu um funcionário, não encontramos mais ninguém para substituir", explicou.
Ele é venezuelano. Anderson Flores é o seu nome. Contou como chegou ao Brasil: havia entrado de forma ilegal. Surpreendi-me com o fato de que, na época, havia "guias" especializados em cruzar venezuelanos para o Brasil.
Após estudar engenharia petrolífera e engenharia civil, Anderson abandonou os cursos pela falta de perspectiva e pelos perigos que enfrentava. Não entendi muito bem o que eram esses perigos e não quis perguntar, mas parecia que a faculdade lá não era um dos lugares mais seguros.
A decisão de vir para o Brasil veio da noite para o dia. "Vamos? Tem que ser amanhã!", exclamou um amigo. Venderam tudo o que tinham, pagaram o "guia" e cruzaram a fronteira, sendo perseguidos e até caçados.
Anderson veio com um objetivo em mente: uma vida melhor. Logo se estabeleceu, buscou empregos e, hoje, diz estar investindo em seu futuro.
A vida na Venezuela era muito ruim; não havia muita perspectiva de vida.
— E hoje?
"Hoje estou no paraíso", disse ele com um grande sorriso no rosto.
O Brasil está longe de ser uma Suécia ou Alemanha. Nós, que vivemos aqui, fazemos a comparação com países de primeiro mundo e não conseguimos ter uma visão de paraíso. Mas, para quem saiu do inferno, certamente o purgatório é paradisíaco.
"Você tem ideia como aqui tudo é perfeito?", continuou. "Se você está fazendo um ovo mexido no café da manhã e seu gás acaba, você manda uma mensagem no celular e, em 20 minutos, tem alguém dentro da sua casa trocando seu gás”.
“Lá na Venezuela, você só conseguia um gás em menos de dois dias se pagasse propina para alguém. E mesmo assim, poderia vir um botijão cheio de água."
Vemos muitos venezuelanos hoje — e também brasileiros — que estão somente aproveitando a "mordomia" assistencialista dos governos populistas. Fogem de empregos e vivem às custas do Estado e pedindo esmola nos semáforos. Fico feliz e esperançoso ao encontrar alguém como Anderson, que decidiu buscar uma vida melhor e dá o seu melhor para crescer.
Anderson, hoje, está no paraíso.