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O quão grande ainda era o mundo?
Enquanto se espreguiçava nas primeiras horas da manhã, esse pensamento intercorreu sua cabeça. Lembrou-se de quando países do Oriente eram exóticos, distantes, misteriosos.
O Leste Europeu ainda projetava o fantasma soviético e o conde Vlad. Viajar para outro estado já era uma aventura: o que encontraríamos por lá?
Cada viagem era uma grande aventura de descoberta. Quando uma revista ou outra falava de determinado lugar, a leitura era mágica. Nas enciclopédias, tínhamos fotos do passado e um corte do presente. Oh, Galápagos, Rapa Nui, Ilha de Ascensão… como eram enigmáticas essas ilhas.
Hoje temos imagens em alta resolução ao vivo direto de Marte. Na internet, temos satélites, inúmeras fotos, vídeos, textos… tudo destrinchando todos os lugares, que são violentados pela corja de turistas de likes.
O mundo foi diminuído. Está na palma de nossas mãos, ali, naquela espreguiçada na cama.
Ainda nos restam os cheiros, os toques, o calor e o frio. Resta-nos a aventura sensorial de estar em um lugar, e não só conhecê-lo.
"Você não precisa sair do seu quarto. Fique sentado à sua mesa e ouça. Não precisa nem ouvir, apenas espere. O mundo se oferecerá livremente a você para ser desmascarado." - Franz Kafka
Foi, em uma tarde qualquer, de forma completamente aleatória, que a querida me fez essa pergunta. Era uma indagação muito específica e estava lançada a discussão filosófica.
Não pra mim, pois era uma pergunta sobre a qual eu não possuía dados para deliberar e chegar a uma conclusão; e foi o que eu disse a ela.
Na antiga Atenas, não podiam votar mulheres, escravos e estrangeiros. Essa discriminação era considerada legítima dentro da estrutura social e intelectual ateniense. A divisão de tarefas e funções entre homens e mulheres também era estabelecida seguindo uma ordem “natural” antiga. Hoje o mundo está diferente; é preciso analisar de forma profunda uma questão dessas para se ter uma opinião.
“Você tem dúvida sobre isso?” me perguntou.
Não é dúvida. É, simplesmente, um “nunca parei para pensar nisso”. Por mim, quase todos votam (mais à frente falarei sobre), mas, se uma pergunta parte da premissa de segregação — ou seja, temos dois grupos e algum deles deveria ser impossibilitado de votar? —, a resposta, no debate, deve seguir a linha de raciocínio. O problema é que seria necessário ter dados sobre os grupos, como: um deles é incapaz de votar com lógica e conhecimento sobre política e economia básicas, sendo facilmente manipulado, tornando-se responsável por eleger os mais absurdos candidatos? Esse seria um dado interessante a se levar em conta para continuar o debate. Então, continuemos agora com uma questão um pouco diferente.
Nem todos deveriam ter o direito de votarPenso que todos podem ser candidatos a votar, independentemente do sexo, cor, orientação sexual, religião etc. Mas por que “candidatos”? Pois, nesse tema, tenho, neste momento, uma visão mais consolidada (mas nunca engessada): só poderiam votar aqueles que tivessem o conhecimento básico sobre política, economia e governo. Uma pessoa que não sabe as funções, deveres e limitações dos diferentes cargos políticos, não consegue entender patavinas de economia e a relação do governo com o dinheiro, não deveria votar, pois estaria prejudicando a nação.
Na República, Platão usa uma metáfora para criticar a democracia ateniense. Ele imagina um barco cujo dono é poderoso, mas não entende nada de navegação [esse “dono” representa o povo]. É preciso escolher um capitão para o navio e os marinheiros disputam entre si quem deve comandar, cada um tentando convencer o dono de que merece o posto, mas nenhum deles estudou ou tem muito talento na arte de navegar.
Enquanto isso, o verdadeiro piloto — aquele que conhece as estrelas, os ventos, as estações e a técnica da navegação — é tratado como inútil ou excêntrico, pois os demais sequer reconhecem que comandar o navio exige conhecimento específico. Assim, imagine o que acontecerá com esse navio.
É aqui que a ideia de uma espécie de epistocracia começa a parecer razoável.
Portanto, tirar o título de eleitor deveria ser como tirar carteira de motorista: a pessoa teria de fazer uma prova de conhecimentos básicos sobre política e economia, básica de forma que não fosse usada para discriminar, deliberadamente, determinados grupos, e escrita ou verbal, para não excluir os analfabetos.
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A pessoa tem de entender as relações entre os poderes, a importância do Congresso sobre o Executivo, como ter “rabo preso” torna os congressistas completamente inertes ou imprestáveis; precisam entender que o governo não tem dinheiro, todo o dinheiro que gastam com regalias, bondades eleitoreiras e tudo o mais sai do bolso do eleitor — mesmo aqueles isentos de imposto de renda estão pagando quando compram alimentos e outros produtos que, muitas vezes, têm o preço quase dobrado por causa dos impostos. É esse o dinheiro que o governo usa; é esse o dinheiro do fundo partidário de bilhões, distribuído para eleger absurdos; é preciso entender que tudo isso eleva o preço do Estado e, quanto mais caro o Estado, mais ele vai tirar do povo. Isso gera consequências globais que, quem não entende nada e só vota pela conversinha do presidente, está ajudando a afundar mais ainda o país.
No Brasil, temos dois problemas graves: todos podem votar e, o pior, todos1 são obrigados a votar.
“Mas o Estado exerce coerção sobre todos, por isso todos tem que ter voz na escolha dos mandatários.”
Sim, o problema é que o mesmo argumento serve para contradizer isso: dar poder decisório a quem não entende o sistema pode prejudicar todos os demais.
Um ponto a se destacar é que essa espécie de epistocracia não excluiria ninguém por características pessoais, origem ou condição social: o direito ao voto estaria condicionado exclusivamente à demonstração de um conhecimento mínimo, que, nos dias de hoje, é acessível e gratuito para todos.
Alguns dizem que candidatos também deveriam ter de fazer prova de conhecimento político, mas, fazendo com que o eleitorado seja composto somente por pessoas com conhecimento básico sobre política e economia, creio que já eliminaríamos os candidatos chulos como os vários que já foram eleitos, como o Tiririca e os novos candidatos diretamente do Instagram:
O cara do “Caneta Azul” e a tal da “menina bota”. Não têm conhecimento político algum, sequer conseguem falar (assista às entrevistas deles e chore). No que se destacaram? Fazendo papel de ridículo no Instagram e ganhando inúmeros seguidores. São “Tiriricas” piorados. E sabe aquele fundo partidário que sai do bolso do povo? Foi direcionado quase dois milhões para a campanha dos dois.
E qual é a chance desses ou de outros candidatos chulos serem eleitos e viverem por anos com o dinheiro do povo, sem contribuir em nada, num país onde todos podem votar?
O quadro usado como capa desse artigo é “Sessão do Conselho de Estado”, de Georgina de Albuquerque, 1922, retratando a sessão de setembro de 1822, com a participação de Maria Leopoldina, que antecedeu a declaração da independência do Brasil.
1“Todos” se refere àqueles dentro das margens por lei: 18 a 70 anos de idade.
Um calmo canto de pássaro a acordou bem cedo. Era um canto suave, longo, belo. Aquilo a relaxou mais do que o sono. Mas já era hora de se levantar. Permitiu-se espreguiçar demoradamente.
O mundo parecia se calar no sábado de manhã. As almas cansadas, os jovens perdidos e os festeiros dormiriam até tarde. Os velhos, jovens ou não, já de pé, aproveitavam a paz unindo-se a ela.
Era um momento de introspecção, de encontrar-se. De colocar os pensamentos no lugar naquele instante no qual a sua própria companhia parecia estar também num calmo existir. Sentaria com ela à mesa e, enquanto tomassem café, iria, gentil e suavemente, conversar sobre seus mais profundos pensamentos. Tudo naquele agradável momento em que o mundo era só ela.
Era uma paz que duraria pouco. Mas, ainda assim, era o melhor momento para se levantar, fazer um café e ler o Acta Saturnalia.
A manhã é a juventude do dia. Tudo é alegre, fresco e fácil. - Arthur Schopenhauer
Era uma manhã nublada e coberta de silêncio. Um ou outro pássaro que ensaiara um canto matinal parecia já ter desistido. Da janela não se viam ou ouviam carros, carroças ou pessoas. Onde estão as flores?
Sag mir, wo die Blumen sind — foi exatamente o que pedia Marlene Dietrich na música que tocava baixinho na caixa de som.
A cidade nesse sábado de manhã não passava de uma vila. Uma calma aldeia em que nada se via ou ouvia. O mundo dormia.
A sensação de que não havia mais ninguém se diluía numa calma dualidade. Estar só consigo mesmo trazia grande paz. Ser só, por sua vez, era um dos ingredientes da agonia.
O mundo não precisa de nós. Nós precisamos de nós. Se não me faço companhia, ninguém mais conseguirá me fazer sentir menos solitário.
Agora, a fria brisa se esgueirando pelas frestas da janela mostra o mundo lá fora. A bela manhã nublada dá o seu suspiro. Há vida.
A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais — Arthur Schopenhauer
I.
E sigamos para as notícias da semana.
Nove jovens desaparecidos nos Montes Urais. Mas desaparecer não foi o mistério, e sim como foram encontrados seus corpos. Décadas depois, dois pesquisadores apresentam uma hipótese muito interessante. Ouça/assista nesse episódio do Hall.
Se você não conhece o caso, antes de ouvir este episódio do Hall acima, é interessante que conheça o mistério no breve vídeo disponível neste link (não deu para colocar o vídeo diretamente aqui, pois ele tem cenas delicadas que acabaram por restringir a idade dos espectadores e, assim, só dá para assistir diretamente no YouTube).
A obra utilizada para a capa desse episódio é de Vladímir Kazantsev. “Nos Urais”, de 1888.
Uma bela manhã, pensou, sem nem mesmo ter aberto as cortinas e visto as pesadas nuvens que impediam qualquer sinal azul de trespassar. A manhã estava cinza, chuvosa… bela. De fato, para ele, aquele era um belo dia também; o pensamento de que o dia estava belo era uma afirmação para a própria alma, um cumprimento, pois, independentemente de como estivesse o dia lá fora, para ele, estaria belo.
Conseguir se levantar da cama era também de uma beleza raramente percebida. Só aqueles que atravessaram o rio do infortúnio conseguem apreciar o trabalho de Caronte.
Café feito, ovos cozidos, frutas à frente e jornal na mão. Era hora de começar a bela leitura de sábado.
"A alegria está na simplicidade. Não são necessárias grandes coisas para ser feliz; as pequenas coisas, quando amadas, viram grandes." - Rubem Alves
As manhãs tranquilas pareciam ter se tornado raras, mas aquela era uma delas. Acordara junto com o delicado sopro de vento que abafava o canto dos pássaros ao longe e lhe afagava os cabelos pela pequena fresta aberta da janela. Como sempre, o cheiro de café já vinha da cozinha, trazendo a lembrança abstrata mais confortável que tinha: a lembrança de casa. Alguém fazendo café; alguém já acordado, velando por ela.
O lar da criação, o primordial, é para onde vão os pensamentos em busca de conforto. E conforto vinha facilmente quando o lar atual lhe trazia essa paz e, naquela manhã, era o que ela tinha: tudo.
A vida humana segue o caminho da família: a de sangue, a de irmandade ou a de necessidade. O lar, que tanto se relaciona com uma casa, é, na verdade, outra coisa. A casa pode fazer parte do lar, mas o lar é a família: a de sangue, a de irmandade ou a de necessidade.
O lar era aquele cheiro de café, que era muito mais do que um cheiro. Alguém havia feito o café. Alguém dava vida àquela casa. Alguém estava lá com ela. Alguém a esperava com café.
O lar era aquilo, era alguém, mas era mais do que isso. Era alguém que trazia o conforto do lar primordial.
Ela tinha um lar. E isso era mais importante do que uma simples casa.
“É o homem mais feliz, seja ele rei ou camponês, aquele que encontra paz em seu lar.” - Goethe
Nos últimos tempos, temos visto uma crescente polêmica em torno da destruição de livros por empresas de inteligência artificial. Vamos refletir um pouco mais além da euforia.
A capa deste episódio é “Pregação de São Paulo em Éfeso” de Eustache Le Sueur (1616–1655). A obra retrata mais uma das inúmeras “queimas de livros” pela história. Nessa representaçã…
O frio insistente a manteve na cama. O aconchegante calor que as cobertas traziam era um convite impossível de não aceitar.
O cheiro do frio — e só quem tem boas memórias de inverno consegue sentir — era mais que suficiente para que o sono voltasse. Talvez ela dormisse um pouco mais.
Mas os pensamentos logo a impediram de dar mais um abraço em Morfeu. Pensamentos sobre a vida — e a não vida — e sobre a morte — e a não morte — dela e de todos os que ela amava, criavam perguntas sem resposta sobre a razão de sermos e de estarmos aqui.
O niilista, talvez, seja somente aquele que perdeu as esperanças. Descobriu não haver sentido algum para tudo isso e não quis se dar ao trabalho de construir para si algo que trouxesse valor para sua existência.
Os antigos diriam que é o prazer. Não o prazer carnal, mas a busca pelo não sofrimento. O sentido da vida seria não sofrermos. Mas como?
Cada um trouxe uma ideia: buscar se contentar com pouco; buscar uma morte própria; perceber que ninguém conhecerá a morte, pois, como afirmou Epicuro, quando nós estamos, a morte não está, e quando a morte está, nós não estamos.
Ela não sabia que dia era. O cansaço impregnado, camada sobre camada, que lhe era pintado dia após dia, a vendara para o tempo, e nessa manhã, parecia ter acordado com a sensação de ter dormido dias.
Demorou-se na cama. Sentia que podia e devia dormir mais. Mas não. Já passava das dez. Quem poderia se dar ao luxo de dormir tanto assim?
Um mundo a aguardava. Família, filhos e até ela mesma esperavam que ela se levantasse para que mais um sábado começasse. Por que precisavam dela para o dia começar?
Os rituais. Os humanos sempre viveram de rituais e é isso que os uniu e lhes deu segurança para seguir.
Sem um dos ingredientes de um ritual, ele não acontece; falta algo. E a sensação de que falta algo impede o ritual. É o que acontece com o luto.
O luto é a dor da falta de um ingrediente em nosso ritual. Seja a morte ou um desvio na vida que culmina numa separação romântica, o luto sempre estará lá mostrando que está faltando um ingrediente.
Mas não para sempre. Com o tempo, a receita muda, os ingredientes são adaptados e, novamente, pode-se realizar o ritual. Nunca será o mesmo, sempre ficará a lembrança dos sabores dos temperos que não mais temos, mas, ainda assim, será um ritual pleno, assim como tudo que nos envolve enquanto humanos.
Hora de levantar.
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